
BOTEQUIM
Revista de Opinião, Artes, Letras, Tendências
O homem mais perigososo... na mira dos melhores cartoonistas

Trump é hoje a figura central do mundo e tem 'à perna' geniais cartoonistas com deliciosas publicações. Rir é o melhor remédio, até para Trump

Q
Quando um gato afia as unhas num livro

O meu gato adora livros, como Natália Correia gostava de gatos, soube eu através de um amigo. Umberto Eco também tinha um gato.
O autor do 'Pêndulo de Foucault' forrou as paredes da sua casa com estantes, onde o seu gato afiava as unhas, de certeza. O meu já fez isso. E eu achei graça. Gosta de livros!
Confidencio: o meu gato teria o nome de Marx, uma graça, mas isso faria comichões às minhas visitas, por causa das sensibilidades políticas. E ficou Max!
O meu Max adora a entrada do prédio, não para meter conversa, mas para receber carinhos. Há dias sentei-me ao lado dele, no degrau de entrada, e recebemos apenas três boas tardes em doze passagens de vizinhos. E carinhos? Nada.
Apoucam-nos por saberem dos gostos do Max por livros; ou então por eu ser amigo de um gato... ´vira-latas dele´.
O Max nem ligou e eu, ao seu lado, continuei com o Eco, semelhante a Fernando Campos em 'A Casa do Pó'. Mas poucos poucos passaram cartão ao português.
Talvez, se fossemos 'francius' ou 'camones' fosse diferente.
Por cá as estrangeirada teve sempre palmas, desde pai de Afonso, importado da Borgonha, há 800 anos.
JM



PUTIM É SÁBIO E BONDOSO
Trump, Putin, Israel, Ucrânia e sobretudo Gaza são temas banalizados e infelizmente perigosos para qualquer cidadão de qualquer país falar, desde logo por razões de segurança pessoal.
Mas aconteceu um golpe de magia nunca visto. O senhor Putin apareceu agora, pasme-se! como um homem bondoso e sábio.
Ele explicou a Trump a história da Gronelândia. E também ficou triste por Trump não aceitar a sua proposta de tropas das Nações Unidas na paz em breve na Ucrânia. Nem mais!
Se John Le Carré fosse vivo mudaria o nome de Agente Smiley para Agente Putin, logo em "A Chamada para a Morte". E faria também uma reviravolta total no enredo do belíssimo livro"A Gente de Smiley".
Alexandra Gilkman voltava feliz para a Rússia, abraçando o pai às gargalhadas. E o general Oleg Kirov metia-se a cuscar pessoas para permitir a entrada de espiões na Rússia, sob cobertura de biografias falsas. Tudo ao contrário do que lemos durante anos.
AS DUAS PERGUNTAS DE PUTIN
Com apenas duas pequenas aparições, Putin obrigou-nos a duas perguntas graves:
Se os EUA querem a Gronelândia e o Canadá, porque razão os russos não podem ter de volta a Crimeia, que foi russa por centenas de anos?
Mais, porque razão se pode condenar a Rússia ao bombardear ´dia-sim-dia-não` a gigantesca Ucrânia com drones-bombas, se os israelitas (com o apoio claro americano) bombardeiam 'dia-sim-dia-sim' Gaza, uma faixa de um terço do tamanho do Algarve?
Já nem falamos da Rússia ter morto num dia dez ucranianos, enquanto no mesmo dia (quebrando unilateralmente tréguas) um só ataque israelita matou 400 palestinianos. Claro que tanto faria um como mil, mas não faz!
Estamos a viver tempos de barbaridades sem limites.
E uma parte dos livros escritos com dedicação por John Le Carré tornou-se uma enorme incongruência. Não é possível rescrever a História, mas a História pode rescrever os nossos livros.
josé ramos e ramos

Natália Correia

Comecei pelos versos dela. Depois por ela ter feito do barroco uma antologia contemporânea sob a chancela da espiral do Escada na Moraes.
Depois tonitruante, voz de carne. Até na 'Mátria' televisiva que tinha da eloquência e em igual dose todos os trejeitos e uma boa maquia das qualidades. Faz hoje 100 anos que nasceu, a miúda de Fajã de Baixo e boquilha à ilharga.
Fugidia afogueada das suas próprias certezas, nem deus ou diabo lhe hão-de voltar a pôr a vista em cima. Abençoada.
Liberdade e Opinião, eis a questão!

Um jovem de 14 anos, um líder partidário e um primeiro ministro sofreram, quase na mesma altura, percalços por questões de liberdade de expressão.
O jovem, morador em Cascais, foi violentamente agredido por quatro outros jovens devido à publicação, no seu perfil social, de conteúdos desagradáveis aos agressores; o líder partidário (Paulo Raimundo, do PCP) achou-se ofendido por José Rodrigues dos Santos (excelente jornalista) o haver desfeitiado numa entrevista à RTP; o primeiro ministro (Luís Montenegro, do actual Governo) por ter sido insinuado cúmplice em corrupções, ao nível de José Sócrates, pelo Chega.

Os limites de liberdade de opinião e expressão veem-se, assim, questionados por situações diversas, adversas, que a justiça terá, por certo, engulhos no decidi-las.
À excepção do jovem (repugnante a brutalidade sofrida!), os outros tornam difícil encontrarem apoios pois não é pela repressão que se lida com a opinião, mesmo quando (sobretudo) ela é discutível.
Paulo Raimundo e Luís Montenegro deviam responder, se possível com humor, sempre possível, ao desconforto sentido. As ideias não se combatem com força, enfrentam-se com ideias - inteligentes.
Fernando Dacosta
Antecipações
Um dia perguntaram a Natália Correia a razão de abrir o Botequim e não, por exemplo, uma galeria, uma livraria, uma editora; rápida, ela respondeu que quis criar nele um espaço que antecipasse um Portugal a haver no futuro, um espaço de cultura, de ideias, de convívio, de afectuosidade.
O Botequim foi-o plenamente, marcando a segunda metade do século XX português. Nunca houve, nem por certo haverá, nada igual entre nós.
Para a autora de "Sonetos Românticos" a cultura não deve ser desvivenciada pois só quem está muito na vida a pode recriar e transmitir. Entendendo a poesia como profecia (poeta significa profeta), surgiu do futuro atravessando o passado, sonhou realidades concebendo ficções.
Fernando Dacosta
