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Edição de botequim.pt abrange semana de 11 de Julho a 18 de Julho de 2026)
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mais abaixo Miguel Sousa Tavares
"Ursula von der Leyen apoia genocídio em Gaza"
António Brás Rainha da Bulgária a caminho de ser Santa
Um imaginário
para a esperança
Um ex-candidato a presidente da República, António Sampaio da Nóvoa, e um (o actual) presidente da República, António José Seguro, acabam de tornar públicas preocupações com o clima de crispação abatido sobre Portugal.

Este é, na verdade, um dos maiores problemas a inquinar-nos, pois é cultural - cultura que atinge actualmente o ponto mais baixo das últimas décadas entre nós.
Um povo, um indivíduo que pensa mal de si próprio acaba por tornar-se, avisava Camões, naquilo que pensa. Daí a fractura que nos fatia hoje levando muitos, alertava Natália Correia, "a viver bem no mal e mal no bem, a exultar o que amesquinha e a desprezar o que dignifica ".
Promove-se a cultura da alienação, do turístico, do narcótico, do propagandístico, do redil, a que dá votos e obediências, e alibis de democracia.

Significativo têm sido as campanhas eleitorais (de onde as ideias foram enxotadas), a banalidade dos comentadores (grudados a jornais), o patético da comunicação social (sobretudo das televisões), o provincianismo das autarquias (fomentador de populismos rasos), a imposição de acordos ortográficos (em vez de harmonizarem povos desuniram-nos), a basbaquice à língua inglesa (devastadores os seus malefícios), comportamentos que, menosprezando
o genuino em nós, salgam o imaginário do País. Há pouco, uma jovem dizia na televisão que "a cultura portuguesa era uma merda". E ria-se. E os que a ouviam riam-se.
Radicais da política têm, por sua vez, agravado discriminações, gerando hostilidades a minorias e intolerâncias a diferentes, incitando comportamentos de perseguição e agressão num
povo, o nosso, caracterizado por, no dizer de Agustina Bessa-Luís, querer uma "cultura de afectuosidade" em vez de uma "cultura de deshumanidade".
Foi essa propagação de ódios que levou António José Seguro a pronunciar-se publicamente, veementemente contra os representantes partidários que os têm (aos ódios) dissiminado, destruturando a nossa essência - o que leva à nossa descaracterização.

Daí António Sampaio da Nóvoa reivindicar a criação de um "imaginário de esperança", mais urgente, mais necessário - dada a trágica apatia actual - do que um imaginário de contas certas. Esse emaginário de esperança pode ser encontrado pelos que o têm, criadores, pensadores, poetas, ensaistas,
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cientistas, apontado. Antero de Quental, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Natália Correia, Pascoaes, António Quadros, António Sérgio, António Telmo, António José Saraiva, Maria de Sousa, só para citar alguns, são fundamentais para Portugalo se repensar, se desbloquear. "Se queres caminhar para o futuro", avisavam os surrealistas, "tens de atravessar o passado".
Sem raízes (geradas no húmus da sua cultura) um povo, um país estiola e sucumbe.
Macbeth no Capitólio
de 21 a 25 de Julho

De 21 a 25 de julho uma reescrita de Macbeth, transportando para a contemporaneidade os temas intemporais abordados na peça de Shakespeare
Macbeth, a nova criação do coletivo artístico SillySeason, estreia no Capitólio, em Lisboa, de 21 a 25 de julho, depois de ter sido apresentada, em antestreia, no Teatro Cine de Gouveia, no início de maio. O espetáculo propõe uma reescrita da tragédia do dramaturgo inglês William Shakespeare, transportando para a contemporaneidade temas intemporais como a ambição desmedida, a corrupção do poder e a erosão moral.

Estoril foi porto de abrigo
Rainha da Bulgária
a caminho de ser Santa
A derradeira monarca da Bulgária, Joana de Sabóia, falecida no Estoril em 2000, está a ser estudo de santificação por parte de grupos católicos europeus.
Última cabeça coroada a residir, desde 1962, entre nós, fugiu do seu país depois de Estaline ter mandado fuzilar, na sequência da II Guerra Mundial, o cunhado. Refugiada inicialmente no Egipto e em Espanha, escolheu depois Portugal, onde se fixou definitivamente

Com a morte (misteriosa) do rei, em 1941, fica viúva. No ano seguinte vê o terror tomar conta da Bulgária. O país é bombardeado pelos Aliados (a família real quase morreu na derrocada do seu palácio) e invadido por ordem de Estaline. Milhares de cidadãos são condenados à morte, incluindo o príncipe-regente Cirilo, irmão do monarca.
A rainha, os filhos e a cunhada ficam aprisionados nos arredores de Sofia. Uma manhã entregam-lhe a urna do marido, que resolve enterrá-la no jardim.

"Como a monarquia desfrutava de grande popularidade só em 1946 os soviéticos proclamaram a república", destaca-nos Liubka Tasseva, secretária da soberana. "Para tal realizaram um referendo completamente manipulado. Havia dois boletins de voto, um a favor da república, outro da monarquia. O segundo não estava, porém, disponível nas urnas".
Os comunistas, liderados por George Dimitrov (que o rei Boris havia livrado da condenação à morte), ganharam por 99 por cento. Imediatamente resolveram expulsar a família real e expropriar os seus bens, dando-lhe 200 dólares (cerca de 245 euros) e o prazo de 20 dias para abandonar o país.
Joana de Sabóia saiu de Sófia acompanhada pelos filhos, pela cunhada Eudoxia e por alguns fiéis servidores. O Estoril ser-lhe-ia aveludado porto de abrigo.
"Ela veio para cá devido à presença do irmão, rei Humberto de Itália, ao fascínio do mar e à amenidade do clima", frisa Lubka Tasseva. Compra uma casa, que baptiza de Yantra, voltada para a baía de Cascais, decorada com retratos de antepassados (cópias de originais), porcelanas e pratas herdadas do pai, bem como mobiliário português.
O seu quotidiano é discreto, vive acompanhada por uma governanta, um motorista, duas empregadas e a secretária. Raramente aceita convites para festas, abrindo apenas excepções para casamentos e baptizados. Torna-se uma paroquiana assídua da Igreja de Santo António do Estoril. Desloca-se mensalmente a Fátima, apoia obras de caridade e aprecia o fado – especialmente a "voz doce" de Salvador Taborda Ferreira.
Recebe anualmente a visita das irmãs, residentes em Itália e na França, da cunhada Eudoxia que vive na Alemanha, dos sobrinhos e da rainha Geraldine da Albânia que se fixara em Espanha.
Em Agosto de 1993 deslocou-se durante oito dias à sua pátria, a convite especial do governo búlgaro. Com 86 anos é recebida de forma entusiástica. Percorre mais de mil quilómetros, e afirma: "Não tive razões para me cansar. Nunca me passou pela cabeça ser recebida desta forma, com tanto amor pelo povo búlgaro", exclamará a amigos."Custou-lhe muito rever os sítios onde havia vivido, fez os possíveis para conter as lágrimas", destaca Liubka Tasseva.
A família reuniu-se pela última vez em 1997, quando Joana completou 90 anos. Houve um almoço onde estiveram os dois filhos, os nove netos e os dez bisnetos. Três anos depois, a 26 de Fevereiro, Joana da Bulgária morre serenamente. Cinco dias depois é realizada a transladação dos seus restos mortais para Itália, antecedida de uma missa na Igreja de Santo António do Estoril em que estão presentes elementos das casas reais da Áustria, Brasil, Portugal e Marrocos.

O Rei Simeão legou à paróquia da residência da mãe uma relíquia de Santo António que a havia acompanhado a vida inteira.
A superioridade do seu comportamento, da sua acção social e cultural, da sua disponibilidade para com os outros tornaram-na uma referência de dignidade, de humanismo - justificadora do processo de santificação agora em curso.
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Poeta António Barahona, 87 anos
257 euros é agora o valor
da Pensão por Mérito Cultural

60 artistas a 257 euros
de Pensão por Mérito Cultural
A pensão por Mérito Cultural está atribuída a 60 criadores, artistas e intelectuais que, ao chegarem à velhice ou a situações de doença grave, se encontram em condições de desproteção económica ou carência social. 257 euros agora! Metade do que era.

220 Pensões vitalicias
para cargos públicos
de 2.000 a 7000 euros
Segundo os dados oficiais geridos pela Caixa Geral de Aposentações (CGA), existem cerca de 220 a 250 ex-políticos a receber esta subvenção vitalícia.
Quem tem direito e quem a recebe?
Têm direito os ex-políticos que exerceram cargos públicos durante um determinado número de anos antes de 2005 (geralmente, um mínimo de 8 ou 12 anos de mandato)
A lista é pública e transparente, podendo ser consultada no site da Caixa Geral de Aposentações. Entre os nomes figuram ex-Presidentes da República, ex-Primeiros-Ministros, ex-Ministros e dezenas de ex-deputados de vários quadrantes políticos.
A amplitude é grande: as subvenções mais baixas (de deputados com poucos mandatos) começam perto dos 1.000 €, enquanto as subvenções mais altas (de ex-Primeiros-Ministros ou Presidentes da República com muitos anos de serviço) podem ultrapassar os 6.000 € ou 7.000 € mensais.
A nova lei Prestação Social Única do Governo de Luís Montenegro cortou para menos de metade o subsídio de mérito cultural atribuído ao poeta António Barahona, de 87 anos. Debilitado e com graves limitações de visão, o autor recebe agora uma mensalidade de apenas 257 €.
Enquanto se aguarda uma resposta institucional por parte dos serviços da Segurança Social, é urgente agir. Cabe-nos a nós — artistas, admiradores, amantes da poesia e todos os que recusam conformar-se com a soberba fria da burocracia —, garantir uma vida digna a quem tanto deu à nossa cultura.
Qualquer contributo, por mais pequeno que seja, fará a diferença. Podem depositar o vosso apoio diretamente na conta:
IBAN: PT50 0035 0127 0001 4771 4312 7
Titular: António Manuel Baptista Barahona da Fonseca

O mito urbano do RSI
Em Portugal, o número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) não ultrapassava as 210 000 pessoas (o que corresponde a cerca de 90 000 a 100 000 famílias).
Maioria: menores de 18 anos
Mulheres e Crianças: Ao contrário do mito urbano de que o subsídio servia maioritariamente homens em idade ativa que não queriam trabalhar, quase metade dos beneficiários do RSI eram menores de 18 anos. Além disso, a maioria dos titulares adultos eram mulheres, muitas delas em famílias monoparentais.
Porto e Setúbal pedem ajuda
Geografia da Pobreza: O distrito do Porto é, historicamente, aquele que registava o maior número de beneficiários de RSI no país, seguido de perto pelo distrito de Lisboa e pelo de Setúbal.
Valor médio a 130 euros
O Valor Médio: O valor recebido por pessoa estava longe de ser uma fortuna. A prestação média mensal por beneficiário rondava geralmente os 130€ (sendo que o valor total da família dependia do número de membros e dos rendimentos que já possuíam, funcionando o RSI apenas como uma prestação de "inclusão" para tapar o buraco até à fasquia mínima de subsistência).

António José Saraiva
"Vivemos numa imensa floresta"
"ESPÓLIO" Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta
"Portugal é um país muito particular, coisa que se vê até na maneira como as pessoas falam umas com as outras, nos gestos, nos pequenos costumes de relação íntima.
"O português é o povo da Europa mais rico de sentimentos e sensações que conheço. Basta vermos a maneira afectuosa como as pessoas se falam para nos apercebermos disso. Um homem a passear com outro de braço dado é, entre nós, uma coisa extremamente natural. As relações entre os jovens são de uma afectuosidade que acho extraordinária. É possível que este tipo de relações nos leve à criação de um tipo de comunicação humana que não existe noutro lado, ou que existe em pequena escala. Em França as pessoas estão profundamente individualizadas e em situação de permanente hostilidade com os outros.

"Deixei de ser um optimista sistemático. Não há nada que nos faça supor que as coisas se encaminhem para uma melhoria, para uma sociedade perfeita. Vivemos numa imensa floresta onde temos, pouco a pouco, de ir criando clareiras.
Não temos de esperar que o mundo marche num determinado sentido e que sejamos arrastados automaticamente nesse sentido. Nós é que temos de estudar as nossas condições e tentar fazer qualquer coisa em que efectivamente participemos.

Em plena democracia, e sendo o povo soberano, não ser uma reserva de eucaliptos para uso de uma obscura entidade económica que tem o pseudónimo de CEE".
"ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta
BIOGRAFIA
António José Saraiva foi um dos mais destacados ensaistas literários do século XX. Nascido em Leiria em 1917 (irmão José Hermano Saraiva) aderiu ao PCP exilando-se em Paris até que Marcelo Caetano autorizou o seu regresso, juntamente com outros vultos da oposição, como Agostinho da Silva e o Bispo do Porto. "Vim a prestações", ironizava entre o céptico e o esperançoso. Pouco depois afirmava-se anticomunista e admirador de Salazar.
Entre as suas obras de referência destacam-se a célebre História da Literatura Portuguesa (de parceria com Óscar Lopes), a Inquisição e Cristãos Novos, O Crepúsculo dos Filósofos, Para a História da Cultura em Portugal. Faleceu em 1993

Nenhuma imagem mostra tudo
Num presente marcado pela circulação incessante de imagens e pela ilusão de que tudo pode ser tornado imediatamente visível, importa recuperar o enquadramento como operação crítica.Ver não é aceder ao todo: é entrar num campo delimitado por escolhas; o que se mostra, o que se omite, o que se aproxima, o que se afasta. É nesse território que percebemos que o visível não existe sem o invisível que o sustém, o limita e lhe dá forma.

Nenhuma imagem mostra tudo. Toda a imagem é um recorte. Enquadrar é escolher, e escolher é já interpretar. O invisível não é o que nada significa, mas aquilo que a imagem deixa de fora para construir a sua própria clareza. A tradição renascentista fixou esta ideia ao pensar a pintura como uma "janela": não a duplicação integral do mundo, mas uma forma enquadrada de o tornar visível.

Las Meninas, 1659. Diego Velázquez. (Museu do Prado, Madrid)
A pintura organiza um campo de visão complexo em que o espelho, ao refletir as majestades, introduz no interior da imagem aquilo que está, simultaneamente, fora dela
Por isso, o enquadramento não deve ser entendido como simples moldura exterior ou detalhe técnico. É uma operação de autoria e de mediação. Define um dentro e um fora, estabelece relações, produz hierarquias e atribui centralidade. O enquadramento não limita apenas a imagem: organiza a sua inteligibilidade. Ao isolar elementos, cria relação; ao interromper formas familiares, transforma-as em fragmento; ao fixar um limite, começa a desenhar a geometria do sentido.
A história da arte mostra-o com clareza. Um fragmento retirado de um conjunto maior pode passar a ser lido como obra autónoma; uma borda visível pode denunciar cortes, perdas ou deslocações de contexto. O enquadramento nunca é inocente: pode preservar, mas também reenquadrar; pode proteger, mas também alterar a forma como a obra passa a ser entendida. O que fica de fora não desaparece sem resto — permanece como contexto suprimido, memória latente ou ausência ativa.

Rua Parisiense - Dia Chuvoso, 1877. Gustave Caillebotte. (Instituto de Arte de Chicago)
O corte das margens e a colocação das personagens fazem-nos sentir que o campo visível é apenas uma parcela de uma realidade mais ampla, que funde com o espectador
Na fotografia, esta condição torna-se particularmente evidente. Enquadrar é selecionar uma fatia do mundo através de um limite. O que entra no campo determina a leitura; o que fica para lá da margem continua, muitas vezes, a atuar por inferência.
Um corpo cortado, um objeto interrompido ou um fundo reduzido não impedem a compreensão — podem até intensificá-la, concentrando a atenção e tornando a afirmação visual mais concisa. O essencial é isto: a imagem não reproduz simplesmente o visível; constrói um regime de leitura.
Mas esta lógica não pertence apenas à fotografia. Também no design o enquadramento é uma forma de pensamento. A página, o cartaz, a capa ou a composição tipográfica não são superfícies neutras: são campos de seleção, de corte e de orientação do olhar. Uma letra fragmentada pode continuar legível; uma forma interrompida pode ativar reconhecimento; uma palavra encostada à margem pode ganhar tensão. O que não se mostra por inteiro deixa de ser falta e torna-se recurso expressivo. A exclusão participa, assim, na construção do sentido.
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Mãe Migrante, 1936. Dorothea Lange
Mostra que o enquadramento dispensa a acumulação de sinais de pobreza, porque o rosto da mãe concentra a dureza da condição vivida
Ver bem é mais do que identificar o que está diante dos olhos. É reconhecer que toda a imagem resulta de uma escolha. A literacia visual começa quando deixamos de perguntar apenas "o que vejo?" e passamos a interrogar "porque vejo isto assim?", "que recorte tornou esta forma possível?", "o que foi necessário excluir para que estes elementos ganhassem evidência?". O visível não se esgota no que aparece: organiza-se também a partir do que foi omitido, subtraído ou deixado para lá da margem.
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Nazaré, Portugal, 1955. Henri Cartier-2Bresson.
Cartier-Bresson faz do enquadramento uma forma de condensação visual: a praia é naturalmente vasta, mas o olhar recebe-a como espaço saturado
Na cultura visual, enquadrar é sempre mais do que delimitar. É decidir. É ordenar. É atribuir relevância. E essa operação não pertence apenas às imagens. Também na vida escolhemos, recortamos, aproximamos, afastamos, deixamos entrar e deixamos de fora. Num tempo marcado pela exposição contínua, pela urgência da resposta e pela pressão para tornar tudo imediatamente visível, talvez importe lembrar que nenhuma clareza nasce sem limite e que nenhum sentido se organiza sem escolha.
O que parece apenas delimitar é o que verdadeiramente permite ver, compreender e habitar o mundo.


Beat the Whites with the Red Wedge, 1919. El Lissitzky.
A composição constrói-se através de formas geométricas que entram e saem do enquadramento

Divan Japonais , 1892. Toulouse-Lautrec.
Toulouse-Lautrec faz do corte parcial de Yvette Guilbert um elemento decisivo da composição

Poster House, 2017. Identidade Corporativa. Paula Scher
Paula Scher utiliza o enquadramento como linguagem. O limite deixa de ser neutro e passa a produzir significado

Beat the Whites with the Red Wedge, 1919. El Lissitzky.
A composição constrói-se através de formas geométricas que entram e saem do enquadramento

Der Film,1960 . Josef Müller‑Brockmann.
As formas tipográficas e geométricas parecem continuar para lá da margem, sugerindo um espaço que existe, mas não é mostrado
Terramoto na Venezuela: 119 portugueses entre as vítimas mortais, 22 crianças e 97 adultos
José Saramago
o escritor maldito do terramoto de 1755
A Venezuela carrega um novo fardo: os dois terremotos simultâneos. Já não bastava os desgovernos de Chavez e Maduro e agora também as investidas da Nobel Corina Machado e do SenhorTrump.
A propósito deste terremoto, catástrofe que toca profundamente o coração de todos, recordamos alguns autores uie abordaram este tema. Entre os quais José Saramago, o escritor maldito do tempo de Cavaco e Silva e agora de novo acoçado por Luiz Montenegro. que o quer retirar do ensino escolas portuguesas
O livro de referência absoluta e de grande peso literário que retrata de forma magistral o drama e a devastação de um sismo é o Memorial do Convento, (1982), do prémio Nobel português José Saramago.
Embora o foco central do livro seja a construção do Convento de Mafra e a história de amor dos protagonistas, o Terramoto de 1755 em Lisboa é um dos momentos mais dramáticos, viscerais e impressionantes de toda a narrativa.
Lisboa destruida pelo Terramoto
Saramago descreve o cataclismo não apenas como um evento geológico, mas como o desabar físico e psicológico de uma capital inteira, mostrando o pânico da população, a destruição das igrejas e o incêndio que se seguiu.
A cidade antes do Terramoto de 1755
Montenegro quer 'despedir' Saramago
A polémica estalou após o Ministério da Educação (do governo liderado por Luís Montenegro) apresentar uma proposta de revisão curricular das Aprendizagens Essenciais de Português para o secundário.
O que a proposta faz: Retira a obrigatoriedade de leitura integral de uma obra de José Saramago (como Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis) no 12.º ano. Em vez disso, a obra do único Prémio Nobel da Literatura português passa a ser opcional, permitindo que as escolas escolham, em alternativa, um livro de outro autor (como Mário de Carvalho).
A posição do Governo: O ministro da Educação defende que a revisão é "absolutamente técnica", que o autor não é banido das escolas (mantém-se como opção ou contrato de leitura) e que se pretende dar maior autonomia aos professores para diversificar o repertório literário.
Os críticos (Fundação Saramago, escritores e professores): Manifestaram enorme indignação através de cartas abertas. Defendem que abrir a porta à opcionalidade fará com que milhares de alunos terminem o liceu sem nunca ler Saramago. A Fundação José Saramago sugeriu ironicamente que o governo devia usar a palavra "e" em vez de "ou", adicionando novos autores sem excluir o Nobel. Até o antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, classificou a intenção como "um bocadinho estranha".
Trump ajuda Venezuela com o valor de pouco mais de 3 aviões F-35
Os números impressionantes

Os EUA vão doar 280 milhões de euros para apoiar a reconstrução da Venezuela atingida por 2 violentos terramotos. Comparemos esses esforço com material bélico dos EUA
Cada avião F-16 custa 50 milhões de euros, os EUA tem 931. Cada avião F-35 custa 82 milhões euros, os EUA têm 1.042 e já encomendaram mais 2.456.
Cada porta-aviões da classe Nimitz custa 4.000 milhões euros, os EUA têm 10. Cada porta-aviões classe Gerald R. Ford custa 13.000 milhões de euros, os EUA têm 1.
Cada tanque M1 Abrams e M1A2 SEPv3 custam em média 12 milhões de euros, os EUA têm 4.640.
Cada helicóptero de guerra custa 42 milhões de euros, os EUA têm 4.400. Cada helicóptero cargueiro de guerra custa 93 milhões, os EUA têm 580.
Está tudo na internet, fiquemos por aqui. A Venezuela por certo agradece todas as contribuições
Grandes livros sobre
o drama de um terramoto
O Terramoto no Chile (Das Erdbeben in Chili), de Heinrich von Kleist (1807)

Este clássico da literatura alemã é uma das novelas mais dramáticas alguma vez escritas sobre o tema.
Passado em Santiago do Chile durante o sismo de 1647, a história acompanha dois amantes condenados à morte pela sociedade e pela Igreja. O terramoto destrói a cidade e a prisão, libertando-os temporariamente. A obra usa o sismo como uma força brutal da natureza que expõe a hipocrisia, a crueldade e o fanatismo religioso dos sobreviventes.
Voltaire escreveu livro sobre Terramoto
de Lisboa

Outro escritor gigante da literatura mundial que escreveu uma obra-prima centrada num terramoto foi Voltaire (1694–1778), com o seu célebre livro Cândido, ou o Otimismo (1759).
O filósofo e escritor francês usou o devastador Terramoto de Lisboa de 1755 como o cenário central para desabar com a filosofia da sua época. No livro, o protagonista Cândido chega a Lisboa exatamente no momento do cataclismo.
Voltaire descreve a destruição da cidade, as mortes e, logo a seguir, a reação absurda das autoridades e da Inquisição, que decidem realizar um "auto de fé" (queimar pessoas vivas) para convencer a terra a parar de tremer. É uma das sátiras mais brilhantes, negras e profundas sobre o drama de uma catástrofe natural e a estupidez humana que se lhe segue.
Após o Anoitecer ou Contos de Páscoa, de Haruki Murakami

O famoso escritor japonês escreveu a coletânea de contos Depois do Terramoto (2000)
especificamente como uma resposta ao devastador sismo de Kobe em 1995. Embora as personagens não estivessem necessariamente no epicentro no momento exato, as suas vidas foram fraturadas psicológica e emocionalmente pelo abalo. Murakami retrata o drama invisível, o trauma e o vazio que um desastre desta magnitude deixa na mente humana.
Richter 10, de Arthur C. Clarke e Mike McQuay (1996)
No campo da ficção científica e do drama especulativo de grande escala, este livro aborda o trauma de um jovem que perde a família num sismo quando era criança. Ele torna-se um sismólogo obcecado em prever o próximo grande terramoto ("The Big One") que ameaça destruir a Califórnia. É uma obra que mistura o drama psicológico com a tensão científica da iminência de uma catástrofe.
Rómulo Gallegos,
o grande escritor da Venezuela
O escritor mais popular, lido e influente da história da Venezuela é, sem dúvida, Rómulo Gallegos (1884–1948). Ele não foi apenas um gigante da literatura latino-americana, mas também uma figura central na

política do país, tendo chegado a ser Presidente da República (o primeiro eleito de forma direta e limpa no século XX na Venezuela).
A sua relevância e popularidade assentam nos seguintes pilares:
Doña Bárbara (1929)
Este é o romance mais famoso da Venezuela e um clássico absoluto da literatura em língua espanhola.
A história passa-se nas planícies (los llanos) venezuelanas e funciona como uma alegoria do próprio país: o embate entre a civilização e o progresso (representados por Santos Luzardo) contra a barbárie, a corrupção e a natureza selvagem (personificadas na implacável latifundiária Doña Bárbara). A personagem tornou-se um mito cultural na Venezuela.
O Prémio Rómulo Gallegos
Para atestar o seu impacto, o prémio literário mais prestigiado de toda a América Latina (equivalente ao Prémio Camões para a língua portuguesa ou ao Prémio Booker) foi batizado em sua honra em 1964: o Prémio Internacional de Romance Rómulo Gallegos. Grandes nomes como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa venceram este galardão.
Outros Autores Venezuelanos de Enorme Popularidade:
Embora Rómulo Gallegos seja o clássico indiscutível, há outros dois nomes fundamentais que rivalizam em popularidade e leitura:
Arturo Uslar Pietri (1906–2001): Um dos intelectuais mais importantes do século XX na Venezuela. O seu romance histórico Las lanzas coloradas (1931), sobre a independência venezuelana, é lido por quase todos os estudantes no país. Foi ele quem popularizou o termo "Realismo Mágico" na literatura.

Rafael Cadenas (1930): No campo da poesia, Cadenas é o autor mais célebre e venerado vivo, tendo inclusive ganho o prestigiado Prémio Cervantes (o maior galardão da literatura espanhola). O seu poema "Derrota" tornou-se o hino de gerações inteiras de jovens na América Latina.
O Comando

Não, não se trata de um comando militar, de um qualquer poderoso comando político, empresarial, banqueiro ou dos media, em que pivots armados com um microfone e uma câmara, verdadeiras armas de arremesso, entram na nossa casa, acolitados por uma legião de apresentadores, moderadores, observadores, politólogos, analistas, comentadores,

.
constitucionalistas, sempre os mesmos, ao longo dos anos, eficientes censores sem lápis azul, hábeis manipuladores, que, em vez da mordaça, criam à volta do telespetador um ruído e uma confusão tais de desinformação e de contrainformação, que acaba por não compreender nada do que se passa, a não ser futebol, peregrinações, telenovelas, reality shows, faits-divers de bairro, ad nauseam, para infantilizaçãodas mentes; manchetes inflamadas, descontextualizadas, sem haver lugar a desmentido ou
ao contraditório. A par de outras formas de censura, subtis, mas não menos eficazes: ignorar opiniões contrárias; institucionalizar o delito de opinião; impor o pensamento único do "politicamente correto;" criminalizar o uso de determinadas palavras ou expressões."Estamos em guerra, numa guerra entre sistemas de informação e manipulação dos
relatos, desinformação e propaganda," como adverte Rafael Dávila Álvarez. Vivemos num regime capturado
.

pelos poderes político, académico, woke, religioso, económico, financeiro! E ai de quem não pactuar!
E, no entanto, contra tudo isto, dispõe o indefeso telespetador de uma arma poderosíssima, que não passa de um pequeno objeto, o comando do televisor, com o qual, ao mudar de canal, expulsa de sua casa reis, presidentes da república, papas, banqueiros e toda a casta de gente importante que se vem instalar no seu doce lar sem lhe pedir licença.
Com o seu comando, pode o telespetador determinar a vida ou a morte dos canais televisivos: é que, sem audiências, não há publicidade; sem publicidade, não há receitas; sem receitas, as televisões fecham as portas. Eis o seu enorme poder, que lhe é conferido por este pequeno objeto.


Gérald Bloncourt: o fotógrafo dos portugueses dos Bidonville

Gérald Bloncourt.
Apesar de ser amplamente conhecido como um fotógrafo francês, Bloncourt nasceu no Haiti em 1926 e exilou-se em França na sua juventude, onde desenvolveu uma carreira marcante como fotojornalista humanista e militante.

Ele ficou profundamente tocado pela miséria e pelas condições em que os portugueses que fugiam do regime de Salazar e da Guerra Colonial viviam nos arredores de Paris.

Bloncourt não só os fotografou com enorme dignidade e respeito, como chegou a fazer a pé a rota clandestina do "salto" através dos Pirenéus com os emigrantes para registar os perigos da viagem.

As suas fotografias tornaram-se o arquivo visual mais importante e comovente da história da emigração portuguesa em França. Gérald Bloncourt faleceu aos 92 anos


Este livro reúne cerca de 150 fotografias históricas captadas por Bloncourt, documentando não só a miséria dura dos bairros de lata nos arredores de Paris, mas também a viagem clandestina "a salto" através dos Pirenéus que o próprio fotógrafo fez ao lado dos emigrantes portugueses nos anos 60.
"Viver" escrito pelo entregador de pizzas Yu Hua
atinge 20 milhões de exemplares

A maior tiragem da atualidade na China de um romance literário de alta qualidade e prestígio pertence é a obra-prima Viver (活着 - Huózhe), de Yu Hua, um entregador de pizzas.
Este livro é o exemplo perfeito de "sucesso literário de qualidade" — aclamado pela crítica, estudado nas universidades e com 20 milhões de cópias vendidas. Ya Hua levou 20 anos até conseguir o sucesso para arrumar em definitivo a sua bicicleta e mochila das pizzas.
Viver já foi traduzido para mais de 20 línguas (incluindo o português). Na China, Viver tornou-se uma leitura obrigatória e recomendada em escolas e universidades, o que garante reimpressões massivas e tiragens contínuas todos os anos.
Trabalhar nos armazéns de logística
Em 2020, durante os confinamentos da COVID-19, Hu Anyan começou a publicar ensaios e relatos num blogue pessoal sobre as suas experiências reais a trabalhar nos armazéns de logística e a entregar encomendas nas ruas de Pequim sob condições extremas.
Os seus textos — que descreviam de forma crua, mas com uma dignidade e um humor muito próprios, a pressão diária de ter de entregar encomendas a cada quatro minutos para manter a rentabilidade — tornaram-se virais na internet.
O sucesso online deu origem ao seu livro de memórias I Deliver Parcels in Beijing (Eu Entrego Encomendas em Pequim), publicado em 2023, que já atingiu perto de 2 milhões de cópias vendidas na China, e "puxou" as vendas de Viver.
A escrita de YU Hua ressoa profundamente com uma geração de jovens exaustos pela pressão laboral. O livro I Deliver Parcels in Beijing é aclamado pela crítica internacional e está traduzido para mais de 15 línguas, transformando Hu Anyan numa voz literária global que usa os livros para encontrar espaço de liberdade e expressar a individualidade da classe trabalhadora moderna.
Literatura chinesa em destaque
"Sorgo Vermelho" Mo Yan
a luta da China contra o exército invasor japonês
"Sorgo Vermelho" (Hong Gaoliang Jiazu), publicado em 1986 pelo escritor chinês Mo Yan é uma das obras mais importantes da literatura contemporânea chinesa.
O livro é um romance histórico e uma saga familiar que se passa na província de Shandong (na vila fictícia de Northeast Gaoliang) e estende-se ao longo de várias décadas, concentrando-se principalmente nos anos 1930, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

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Um livro na primeira pessoa
A história é contada na primeira pessoa por um narrador omnisciente que reconta a vida dos seus antepassados. A narrativa não é linear; ela salta constantemente no tempo (entre o passado e o presente), misturando memórias, lendas locais e factos históricos. O foco está em três gerações, mas principalmente nos avós do narrador:
Yu Zhan'ao (o avô), um antigo carregador de liteiras que se torna bandido e, mais tarde, líder de um exército de resistência local. Dai Fenglian (a avó, também conhecida como Jiu'er), uma mulher forte e determinada.

Um livro na primeira pessoa
A história é contada na primeira pessoa por um narrador omnisciente que reconta a vida dos seus antepassados. A narrativa não é linear; ela salta constantemente no tempo (entre o passado e o presente), misturando memórias, lendas locais e factos históricos. O foco está em três gerações, mas principalmente nos avós do narrador:
Yu Zhan'ao (o avô), um antigo carregador de liteiras que se torna bandido e, mais tarde, líder de um exército de resistência local. Dai Fenglian (a avó, também conhecida como Jiu'er), uma mulher forte e determinada.
Urso de Ouro em Berlim
O livro quebrou os moldes da literatura na China, ao mostrar heróis que eram imperfeitos, violentos e motivados por paixões pessoais. A obra ganhou ainda maior projeção internacional com a icónica adaptação ao cinema em 1987, realizada por Zhang Yimou e protagonizada por Gong Li, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim.
O realismo mágico
Violência e Crueldade: Mo Yan utiliza um realismo visceral. O livro descreve com detalhe a brutalidade da guerra, execuções, tortura (como o famoso episódio do homem esfolado vivo pelos japoneses) e a fome. Não há romantização da guerra. Apesar da opressão e da tragédia, as personagens transbordam uma paixão primitiva pela vida, pelo sexo, pela terra e pela liberdade.
Mo Yan mistura a crueza histórica com elementos míticos e superstições locais. Os cães da vila tornam-se selvagens e lutam pelos corpos dos mortos; o vinho de sorgo parece ter propriedades de cura e coragem.

O cenário e o simbolismo do sorgo
O sorgo vermelho (um cereal muito comum na China) não é apenas o cenário onde a história se passa; é o elemento central e simbólico de todo o livro. Ele representa a própria essência do povo chinês daquela região: rústico, resistente, violento e indomável. É no meio dos campos de sorgo que as personagens amam, lutam, escondem-se e morrem. O sorgo também é a matéria-prima para o famoso vinho local, que ganha contornos misticos na história.
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A invasão japonesa
A trama começa com o casamento arranjado de Dai Fenglian com o filho leproso do dono de uma destilaria de sorgo. Durante a procissão do casamento através dos campos de sorgo, ela conhece Yu Zhan'ao, um dos carregadores da sua liteira. Há uma atração imediata.
Pouco tempo depois, o marido leproso e o sogro de Dai Fenglian são misteriosamente assassinados (subentendendo-se que o autor foi Yu Zhan'ao). Dai Fenglian assume o controlo da destilaria. Yu Zhan'ao junta-se a ela, e os dois tornam-se os patriarcas da família, gerando o pai do narrador.

A vida de crime e a gestão da destilaria são brutalmente interrompidas pela invasão do exército imperial japonês. A partir daí, o livro transforma-se numa crónica de guerra sangrenta. Yu Zhan'ao organiza uma milícia local de camponeses e bandidos para combater os invasores japoneses através de táticas de guerrilha nos campos de sorgo.


A MORTE DE UM GÉNIO:Apesar da idade, no que respeita à minha vivência intelectual, Edgar Morin era eterno. Para além do historiador português Fernando Catroga e do filósofo Eduardo Lourenço, do meu professor de português Manuel Marques da Cruz, foi uma das traves-mestras da pessoa que sou.
É com desgosto que me despeço dele.Conheci-o através de um livrinho publicado na década de 70, O 'Paradigma Perdido: A Natureza Humana'. marcou-me de tal forma que não mais o perdi de vista. Daí ao 'O Homem e a Morte' foi um instante, entre outros, toda a sua obra sobre o 'Método'. Assisti a inúmeras das suas conferências em Portugal e, sobretudo, em França. E aprendi sempre.Agora que se despediu de nós, em plena Feira do Livro de Lisboa, espero que muitos o encontrem nos livros que nos deixou, para melhor conhecimento da extraordinária composição que é o Ser Humano. Ver menos

Miguel Sousa Tavares
"Ursula von der Leyen
apoia genocídio em Gaza"
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era uma vez um Saab
Há uns anos, no Brasil, o condutor do carro onde eu ia - português que tinha vivido em Inglaterra - parou educadamente numa passadeira para uma senhora atravessar e ela ficou assustada.
Pensou - explicou-nos o outro passageiro do carro, esse brasileiro - que ia ser assaltada...Na Suécia, há 40 anos, recordo-me de ir num velhinho Saab, e na Suécia parecia haver na estrada nada mais do que velhinhos, seguros e suaves Saab, na mesma altura que em Portugal, a reboque do crédito e da ignorância, todos os carros eram pequenos, novos e maus, enfim de lata, dizia eu na Suécia o meu amigo, sueco, que ia a conduzir, parou o carro numa berma, íamos a 50km hora, para dar passagem a um tipo que ia a 60km hora.

Este baile de ópera vienense na estrada sempre me assalta a memória quando hoje, em Portugal, estou numa passadeira e uma condutora acelera para só parar mesmo em cima; ou um cavalheiro vai na auto estrada a 120 km hora colado à traseira do meu carro para ultrapassar; ou sicrano atravessa uma aldeia a 50km hora, também a 60km e até a 90km! 2 mortos por dia, é o saldo.
Passo férias em lugares, na Europa central, onde os carros param para dar lugar aos ciclistas e o condutor faz um gesto suave de - a senhora dança? Fujo de lugares onde a violência se impõe à delicadeza. Excerto de crónica de Rauel Varela
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O lendário Saab Automobile já não existe. A empresa formalizou em dezembro de 2011 o fim de uma das marcas mais importantes da indústria automóvel. Famosa pela herança aeronáutica, pioneirismo na segurança e motores turbo, a fabricante sueca sucumbiu à gestão sufocante da General Motors (GM), que a adquiriu em 2000.

A GM tentou massificar a Saab forçando a partilha de componentes com a Opel. Contudo, os engenheiros de Trollhättan resistiram e redesenharam os veículos para manter os padrões da marca, o que inflacionou os custos e gerou prejuízos. Com a crise de 2008, a GM decidiu alienar a subsidiária.
A neerlandesa Spyker Cars tentou salvar a Saab em 2010, mas a falta de liquidez paralisou as fábricas no ano seguinte. O golpe final ocorreu quando a GM bloqueou a venda a investidores chineses, recusando transferir as patentes e licenças dos motores. Sem alternativas, a Saab declarou falência. Os ativos foram comprados pelo consórcio NEVS, mas o direito ao nome e ao icónico logótipo perdeu-se para sempre.
Menina carrega irmã
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes.
História do Líbano agora destroçado



Cartoonistas 'a bombardear' Trump





Drácula do Ballet Nacional Polaco
0 mundo lisboeta de Natália Correia

Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.
Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).
Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.
Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa.
Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos.
"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".
O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.
Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor.
Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa".
Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.
Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.
O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.
A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.
Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".
Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.


"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".
A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias.
Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.
Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.

Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.
Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.
Natália Correia: o país das jotas mudas















