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Edição de botequim.pt, 08 de Junho a 12 de Junho de 2026, sujeita a alterações diárias

MAIS ABAIXO:

Miguel Sousa Tavares concorda com o trabalho social,

António Brás Palácio de Palmela tem alojamento local

Raquel Varela era uma vez um Saab,

Henrique Prior administrador do Pingo Doce ganha 350 mil euros/mês

José Luís Fernandes direcção do SJ quer destruir Sindicato dos jornalistas

Ditadura de canudo


Num dos seus estimulantes programas televisivos, Ricardo Araújo Pereira, picando os líderes da CIP e da UGT antes de os reconciliar através do futebol, questionou o representante dos patrões por eles (patrões) serem, segundo as estatísticas, menos escolarizados do que os seus empregados.



Num dos seus estimulantes programas televisivos, Ricardo Araújo Pereira, picando os líderes da CIP e da UGT antes de os reconciliar através do futebol, questionou o representante dos patrões por eles (patrões) serem, segundo as estatísticas, menos escolarizados do que os seus empregados.

Com ironia, o visado lembrou que a competência das pessoas não vem só da instrução, vem também da experiência de vida, da sensibilidade, da imaginação, do bom senso, da perseverança.

RAP utilizou, provocando, um preconceito muito arreigado entre nós, o da superioridade do canudo universitário; preconceito que tem sido excessivamente redutor e, acima de tudo, injusto.

Até porque, e curiosamente, nomes cimeiros da nossa cultura não precisaram de licenciaturas nem de doutoramentos para se excepcionalizarem, nos excepcionalizarem. Fernando Pessoa, Raúl Brandão, Teixeira Gomes (que foi presidente da República), Almada  Negreiros, Natália Correia, José Saramago, Amália Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner, Herberto Hélder, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, Amélia Rey Colaço, entre muitos, muitíssimos outros, não completaram cursos superiores - alguns nem frequentaram sequer universidades o que os esquivou, no dizer de Cesariny, à formatação delas..

Agostinho da Silva, que co-fundou no Brasil algumas universidades (caso da de Brasília) desconcertaria, a propósito,

a Assembleia da República portuguesa numas comemoraçõesdo 25 de Abril - onde fora o orador convidado - ao sublinhar que a pessoa mais sábia que conheci na vida foi uma camponesa analfabeta de Barca Alva, e as mais burras certos professores catedráticos.

Ele reivindicava, aliás, para o evitar, a alteração do nosso ensino, batendo-se pela gratuitidade do universitário para todos, maneira de fazer evoluir o País. Enquanto não o fizermos Portugal não sairá da situação em que se encontra.

O que se assiste é, porém, o contrário disso: propinas caras, abandono dos cursos pelos estudantes, falta de condições de estudo, perda de prestígio, de remunerações condignas (empregos) dos licenciados, deploravelmente empurrados, findos os cursos, para emigrações e caixas de supermercados, sob o pomposo rótulo da geração melhor preparada de sempre (?)

A cultura não serve para mobilar espíritos, serve para os ajudar a pensar, sabe-se. Ao ser um dia entrevistada por uma repórter que, untuosa, insistia em chamar-lhe doutora, Natália Correia explodiu: "Mas a menina ainda não percebeu que eu sou muito, muito mais que doutora? Por favor, não me diminua, basta de ditadura de canudos!

França chora menina de 12 anos


Os poderosos da Justiça têm os dias contados?

O Povo pode eleger os juízes? 


António Costa, presidente do Conselho Europeu, há dois anos sob suspeita



Porque razão os tribunais comuns têm uma composição diferente do Tribunal Constitucional? Pergunta: a Constituição pode secundarizar o que representa: o interesse dos portugueses? Os juízes devem ser remetidos ao papel mais técnico e assim mais longe da tentação de deuses? Porque razão os juízes não são eleitos pelo Povo com base no seu currículo? 

A discussão está lançada em França e o jornal francês Le Parisien, está a dar eco a esta nova (antiga, segundo Fernão Lopes) de ver a Justiça. 

Em Portugal a Justiça tem sido muito controversa. Como exemplos máximos temos o arrastar de 16 anos do Processo de Sócrates ou a manutenção de António Costa, presidente do Conselho Europeu, sobre suspeição judicial (há já 2 anos), por simples menção ao seu nome em conversa telefónica de terceiros.

Estas serão as portas abertas por Bruno Retailleau,


presidente dos Republicanos e candidato à eleição presidencial de 2027, propõe medidas radicais na sequência do "fiasco judiciário" do caso Lyhanna.

Os povos europeus, Portugal incluído, estão a aderir à proposta da criação de um tribunal disciplinar da judicatura integrado por jurados do povo, destinada a contrariar o corporativismo do Conselho Superior da Magistratura. Esta é a proposta de um francês que está a ganhar cada vez mais adeptos.

O modelo do CSM, embora aplique sanções, é apontado tanto pela proteção excessiva de magistrados como pela perseguição de carreiras, atuando prioritariamente na salvaguarda do próprio sistema e dos interesses instalados. A proposta apresentada por Retailleau merecerá debate alargado e projeta impactos futuros na estrutura judicial nacional.

A reforma visa alinhar a judicatura — que ainda preserva práticas herdadas do Estado Novo — com os parâmetros institucionais exigidos pela Democracia Parlamentar e pelos compromissos internacionais do Estado. ABJ

"A Liberdade guiando o Povo" Eugène Delacroix Museu do Louvre 

Fernão Lopes: defesa da Justiça Popular

O papel de Fernão Lopes é revolucionário na época da crise de 1383–1385 - onde Portugal correu o risco de ser anexado por Castela, ele coloca o povo no centro da história.

Até então, as crónicas medievais focavam-se  nos feitos dos reis e dos nobres. Fernão Lopes inova ao legitimar a ação e a "justiça" da população comum.

A "Arraia-Miúda" como Motor da História

Fernão Lopes cunhou o termo "arraia-miúda" para descrever a população mais baixa - artesãos, mesteirais, camponeses. Nas suas crónicas, este grupo não é uma massa passiva, mas sim o verdadeiro motor da resistência nacional e da defesa do reino.

Legitimação da Revolta Popular: Quando a rainha D. Leonor Teles e a alta nobreza tentam entregar o trono ao rei de Castela, Fernão Lopes descreve a fúria e o levantamento do povo de Lisboa como um ato de justiça legítima. Para o cronista, o povo agiu em legítima defesa da pátria, contra a traição das elites corporativas e aristocráticas.

O Povo como Juiz da Causa Nacional

Na sua Crónica de D. João I, o povo funciona como uma espécie de tribunal coletivo. É a vontade popular, expressa nas ruas e depois institucionalizada nas Cortes de Coimbra de 1385, que decide quem tem a legitimidade para governar e aplicar a justiça no país, elegendo o Mestre de Avis como rei.

Fernão Lopes foi o primeiro a documentar que a base do poder e da justiça de uma nação reside na vontade do seu povo, e não nos privilégios de sangue da corte ou da nobreza.


França zangada 

com a Justiça



Quando a Justiça falha muitas vezes

O Caso da menina Lyhanna

A emoção consecutiva à morte de Lyhanna, de 11 anos, confirmada após a descoberta do seu corpo na véspera num silo de grãos na comuna de Puycasquier (Gers), ainda não acalmou e já se caminha para a busca de eventuais responsabilidades. 

O líder do partido Os Republicanos e candidato à presidência, Bruno Retailleau, denuncia um fiasco judiciário e apela a que se suba na cadeia de responsabilidades, propondo algumas medidas radicais, nomeadamente a reformulação do Conselho Superior da Magistratura ou a independência do Ministério Público.

Como funciona 

o Tribunal Constitucional português ... "eleito" pelo Assembleia da República

O Tribunal Constitucional (TC) português é composto por um colégio de 13 juízes, e o seu método de escolha combina a intervenção do Parlamento com a autonomia dos próprios magistrados, psrs garantir o equilíbrio de sensibilidades e a independência política.

A Divisão dos 13 Juízes

Os 13 juízes que integram o Tribunal Constitucional são escolhidos através de duas vias distintas:

10 Juízes eleitos pela Assembleia da República: São votados diretamente pelos deputados no Parlamento. Para serem eleitos, necessitam de uma maioria qualificada de dois terços dos votos dos deputados presentes. Esta exigência obriga a que os dois maiores partidos (PS e PSD) tenham de negociar e consensualizar os nomes, evitando que um partido no governo escolha juízes sozinho.

3 Juízes cooptados: Estes três magistrados são escolhidos e votados secretamente pelos 10 juízes que já foram eleitos pelo Parlamento. É um mecanismo interno que reforça a independência do tribunal.

O Papel dos Partidos Políticos

Os partidos políticos com assento parlamentar não "nomeiam" juízes diretamente, mas têm o poder de indicar os candidatos que vão a votos na Assembleia da República.

Na prática, existe um escrutínio político e partidário na escolha dos perfis, mas a necessidade de uma maioria de dois terços garante que os nomes indicados sejam figuras de consenso ou com currículos académicos e jurídicos de relevo.

Quem pode ser Juiz do Tribunal Constitucional?

A lei impõe regras estritas sobre quem pode ocupar estes cargos, dividindo as vagas obrigatoriamente por duas origens profissionais:

Juízes de carreira: Pelo menos 6 dos 13 juízes têm de ser obrigatoriamente magistrados provenientes dos restantes tribunais (Tribunais Judiciais, Administrativos ou Fiscais).

Juristas e Académicos: As restantes vagas (no máximo 7) são preenchidas por juristas de mérito reconhecido, habitualmente professores universitários de Direito, advogados ou procuradores.

Duração do Mandato e Incompatibilidades

Mandato de 9 anos: O mandato dos juízes do TC é de 9 anos e não é renovável. Isto garante que um juiz não decida em função de agradar a um partido para ser reeleito. Presidente do TC: O Presidente e o Vice-Presidente do Tribunal Constitucional são eleitos pelos próprios 13 juízes, de entre os seus pares. Exclusividade: Enquanto estão em funções, os juízes não podem exercer qualquer outra atividade pública ou privada (exceto a docência universitária se autorizada) nem desempenhar cargos em partidos políticos.

Crónica de El-Rei D. João I 

Justiça eleita pelo  Povo


Prólogo

Grande cuidado deve ter quem escreve uma história: primeiro, certificar-se da verdade dos factos que relata, para que a sua escrita não seja uma falsidade; segundo, ordenar a narrativa de forma tão clara que quem a ouve ou lê a possa compreender facilmente.

Muitos autores, movidos por afeições ou ódios terrenos, decidiram louvar excessivamente aqueles a quem queriam agradar, ou diminuir com mentiras a memória daqueles a quem queriam mal. Nós, porém, não nos movemos por tais paixões. 

O nosso objetivo nesta obra não é lisonjear os vivos nem ultrajar os mortos, mas sim trazer à luz a pura verdade, tal como ela se encontra nos registos antigos e nas escrituras da Torre do Tombo, que examinámos com grande diligência

Por isso, não espere o leitor encontrar aqui palavras ornamentadas ou falsos elogios de corte. A verdade não precisa de vestes vistosas para ser bela; a sua força reside na sua própria crueza.


Nesta crónica se mostrará como, após a morte de El-Rei D. Fernando, este reino de Portugal se viu em grande tempestade e tormento, órfão de senhor e ameaçado de destruição pelos de Castela. 

E como a "arraia-miúda" — o povo simples desta terra —, movida por um desejo comum de liberdade e de justiça, se levantou contra a traição dos grandes senhores e tomou nas mãos o destino da pátria, elegendo o Mestre de Avis como seu defensor e regedor.

Escrevemos, pois, não para glória de alguns, mas para memória de todos, para que as gerações vindouras saibam como se guardou e defendeu esta terra com tanto sangue, trabalho e firmeza de coração.

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Da justiça que o povo começou a fazer em Lisboa e dos juízes que elegeram


A cidade andava revoltada e com grande alvoroço pelas ruas, pois a força da "arraia-miúda", uma vez acesa, não se consegue refrear facilmente. 

O povo, sentindo-se livre do antigo jugo dos grandes senhores que os humilhavam, começou a querer fazer justiça pelas suas próprias mãos, mas, como muitas vezes acontece quando a multidão governa, o exercício da justiça depressa se transformou em nova injustiça e crueldade.

Diz o cronista que qualquer um que tivesse má vontade contra o seu vizinho, ou a quem devesse dinheiro, logo o acusava em voz alta de ser "traidor" e de estar do lado de Castela. 

Bastava este clamor para que a multidão, sem mais provas nem audiência, corresse a linchar o homem e a roubar os seus bens. Viu-se então quão perigoso é quando o povo soberano se torna juiz sem lei, pois puniam os inocentes com o mesmo furor com que queriam castigar os culpados, cometendo roubos e mortes pavorosas à luz do dia.

Percebendo este desvario e o medo que paralisava os bons cidadãos, o Mestre de Avis e os homens honrados da cidade entenderam que era urgente pôr freio àquela anarquia. Juntaram-se em conselho e decidiram que a cidade não podia governar-se pelo ódio da massa, mas sim por leis e homens de confiança.

Foi então determinado que o povo elegesse de entre si juízes populares — homens Squares e bons mesteirais, conhecidos pela sua retidão — para que estes ouvissem as queixas e aplicassem os castigos de forma ordenada. Estes novos juízes receberam o poder de julgar sumariamente os traidores, mas também de prender e castigar os populares que fizessem desordens ou saqueassem as casas alheias.

Desta forma, pela criação destes juízes eleitos, começou a fúria das ruas. Onde antes imperava a injustiça da multidão desgovernada, voltou a erguer-se o braço da justiça organizada, mostrando que até a mais legítima das revoltas decai em tirania se não se submeter ao império da lei e da razão.

A MENINA DOS CINCO OLHOS


Num dos canais televisivos da nossa praça mediática, foi exibido, com pompa, o horrível artefacto com que se puniam os indígenas do nosso Império Colonial.

Não, não era o potro, não era o garrote, não era a vetusta G3: tratava-se de uma palmatória talhada em sólida madeira, instrumento punitivo em tudo semelhante ao que, na metrópole profunda, a regente escolar punia a miudagem "branquela" nas nossas escolas, ditas, à época, de primárias. 

O interior das paredes da sala de aula forradas com os cartazes "A Lição de Salazar, onde se ministrava a literacia do Estado Novo, "ler, escrever e contar." Aos sábados, de manhã, era o dia de a regente, com a sua voz levemente esganiçada, cantar o Hino da Mocidade, seguida de imediato pelo coro desafinado e estridente da miudagem: "Lá vamos, cantando e rindo..."

A regente escolar, que também mais não tinha como habilitações que a quarta classe ou "segundo grau," sem vencimento, remunerada apenas com uma pequena retribuição do Estado, emparceirava com a catequista, que distribuía o correio na porta entreaberta da sua casa, pegada à escola. Sentada num mocho de madeira, grossos óculos pretos encavalitados na ponta do nariz, fitava demoradamente, um a um, os que se iam abeirando, vagarosos e inquietos, na esperança de receber a ansiada carta da África, do Brasil, da França, a reformazita da Caixa.

À medida que distribuía as cartas, recomendava-lhes que não se esquecessem de guardar os selos dos envelopes. Eram para ajudar as Missões na sua nobre tarefa de levar a fé de Cristo e a nossa civilização para a África. E por detrás do altar-mor, guardava, ciosa, não uma palmatória, mas uma caveira para ameaçar a miudagem com as penas do inferno quando se enganava a titubear as orações.

A canalha era, assim, dominada por estas duas mulheres: solteiras; empedernidas; buço negro e espesso do lábio superior a impor o respeito do bigode de um homem; casacos escuros de ombros direitos como um dólman; disciplina como a militar, a que só faltava a ordem unida com toques de clarim; direito ao tratamento de "senhora." Eram o longo braço autoritário do Estado Novo, de Salazar, e da Igreja, de Cerejeira.

E, como se isto não bastasse, havia o frio cortante das manhãs de inverno! Campos esbranquiçados da geada! Árvores rendilhadas com o sincelo! Água gelada nos cântaros!

As brasas, levadas nas escalfetas, cedidas pelo forno comunitário quando havia cozedura do pão, não conseguiam atenuar o torpor doloroso do frio nos pés. 

Só as "sopas de cavalo cansado," feitas de bocados de pão misturados com vinho e uma pitada de açúcar, ou de sal quando não havia o precioso adoçante, inundavam o corpito com alguma réstia de calor. O vinho era o leite das crianças pobres, espremido do xisto. Crianças que iam para a escola de pés descalços, acomodadas em casas cobertas de colmo, de chão de terra batida, enlameada, onde coabitavam com os animais domésticos, que lhes davam alguma réstia de calor. Lá se amontoavam corpos e almas. Não, isto não se passava na África profunda, mas no interior profundo da metrópole.

Pousada na secretária, ameaçadora, a palmatória, a "menina dos cinco olhos:" um longo cabo de madeira rematado por uma roda com cinco orifícios dispostos segundo a ordem das 

cinco quinas da bandeira nacional, habilmente manejada pela regente escolar. Era o terror da miudagem, que, conformada, aguardava, com as mãozitas estendidas, a aplicação das palmatoadas, "os bolos." E ai de quem ousasse subtrair a mão ao certeiro castigo.

O número de "bolos" aplicável em cada mão obedecia a um código bem definido: um por cada erro de ortografia dado no ditado; dois, por quem se enganasse a cantar a tabuada; três a quem se atrevesse a cochichar com o parceiro da carteira ou soltasse algum risinho inoportuno; finalmente, suma gravidade, quatro "bolos" a quem deixasse escapar certos odores que empestavam o ar da sala, que tinha de ser prontamente denunciado pelo companheiro da carteira, sujeito à mesma punição caso não denunciasse o infractor. Como no país, a delação, na sala de aula, estava instituída como uma virtude! E era recompensada!

"Menina dos cinco olhos," que, não obstante as gerações por ela corrigidas ao longo dos tempos, contrariamente à sua congénere africana nunca mereceu uns escassos segundos de exibição nas nossas televisões.

(Albano Dias da Costa é licenciado em Direito e em Filologia Românica, com uma pós-graduação. É autor de obras sobre Linguística Aplicada e sobre a Guerra Colonial, tendo sido agraciado duas vezes com o primeiro Prémio Literário AntigosCombatentes – Memórias Militares instituído pelo Ministério da Defesa Nacional)

Sindicato mora agora numa "Falagueira"


O Sindicato dos Jornalistas tinha uma centralidade importante, sediava-se no coração de Lisboa,  agora mudou-se para uma espécie de Falagueira, 

numa decisão estúpida e estranha de uma direcção que irá destruir o Sindicato dos Jornalistas, jrr


A DESTRUIÇÃO ANUNCIADA 

DO SINDICATO DOS JORNALISTAS


A direção nacional do Sindicato dos Jornalistas (SJ) propôs uma revisão estatutária que, a ser aprovada em assembleia geral, transformará o sindicato numa espécie de associação de produtores de conteúdos. 


A proposta abre as portas à filiação de profissionais que "trabalham direta e principalmente na produção informativa", incluindo 

"revisores de texto, paginadores, designers gráficos e de infografia, operadores de imagem e som, editores de imagem e vídeo, sonoplastas e engenheiros de som, realizadores e operadores de régie, arquivistas, secretários de redação e agenda, produtores e assistentes de produção, web designers e programadores, gestores de redes sociais e outras vias de comunicação digital". A única justificação apresentada pela direção é que esses profissionais trabalham "lado a lado" com os jornalistas. 

Absurda justificação, como se a proximidade física numa redação apagasse diferenças substanciais. 

A única justificação apresentada pela direção é que esses profissionais trabalham "lado a lado" com os jornalistas

De um lado, jornalistas sujeitos a um estatuto consagrado em lei e a um código deontológico; do outro, profissionais sem qualquer responsabilidade legal ou ética na "produção informativa". 

É uma amálgama sem sentido, que dissolve as fronteiras entre a profissão jornalística e funções técnicas e lança o SJ num pântano de equívocos, atraiçoando o seu legado histórico, reconfigurando a sua representação sociolaboral, e enfraquecendo o seu papel institucional no setor da comunicação social e na intervenção pública. 


Direção quer permitir que jornalistas não sindicalizados integrem o Conselho Deontológico e votem para a sua eleição


Haverá um motivo adicional e financeiro, embora não declarado, para a proposta. Face ao declínio do número de jornalistas sindicalizados, a direção presumirá que abrir as portas a outras profissões é a solução mágica para equilibrar as contas. 

Solução ilusória, pois nada garante que esses profissionais tenham interesse em aderir ao SJ (há outros sindicatos que representam as suas profissões), e certamente que vários jornalistas abandonariam o sindicato perante a dissolução da sua identidade.

A proposta inclui ainda outros pontos de irrazoáveis e injustificadas alterações estatutárias, como permitir que jornalistas não sindicalizados integrem o Conselho Deontológico e votem para a sua eleição — o que é uma impossibilidade, dado tratar se de um órgão do sindicato. 

Ou a introdução de mecanismos pouco democráticos, como cooptações para os órgãos sociais, reforço dos poderes da direção nacional e votos de qualidade atribuídos aos presidentes de órgãos. 

Ou, ainda, o fim da delegação do Norte, com sede no Porto, a par da criação de uma estrutura dispersiva e irrealista de delegações regionais. Tudo isto coroado com a possibilidade de o presidente da direção nacional passar a ser um cargo remunerado.

A proposta da direção pode ser analisada aqui https://jornalistas.eu/proposta-de-revisao-estatutaria.../ e será discutida nas sessões de assembleia geral convocadas para 18 e 25 de junho e 2 de julho

É ilegal a decisão da Direção do Sindicato dos Jornalistas 

Arranquei dente de leite, sou médico!

É o fim do jornalismo em Portugal. 

A Direção do Sindicato dos Jornalistas quer dar o título profissional de jornalista a quem escreve no Facebook, Instagram ou Tiktok (chama-lhes "gestores de redes sociais"). Em resumo, quer ter mais massa em caixa. Voltem mas é aos cargos-não-renumerados que começaram (e mal) com João Isidro.

Esta proposta de "todos são jornalistas" vai abranger por certo André Ventura ou Isabel Moreira e fulminar toda credibilidade da profissão. Quem desabafa nas redes sociais ou escreve barbaridades, mentiras e ordinarices fica apto para a profissão de jornalista.

Tal e qual como um médico ser jornalista, porque escreve no seu Face e eu passar a ser médico, por arrancar um dente de leite a um filho.  

Já não bastava esta Direção ter colocado a sede do Sindicato numa Falagueira, cedendo à pressão do senhor "rei", proprietário-do-quarteirão. E agora vem esta proposta a desrespeitar gerações de jornalistas que fizeram do Jornalismo um dos pilares da Democracia.

A Direção propõe o acolhimento  de falsos jornalistas, cujas profissões não correspondem ao exercício do jornalismo. E a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista vai concordar? A proposta é ilegal, ignorante e abre portas à refundação do Sindicato dos Jornalistas. josé ramos e ramos

Palácio de Palmela

tem alojamento local


Um dos mais belos palácios de Portugal é a casa dos Duques de Palmela, na Quinta do Calhariz, em Sesimbra, que é hoje alugado parcialmente como alojamento local. É o que resta da linha de uma das famílias mais influentes da nossa história.

Este palácio foi palco de momentos únicos, como uma das grandes conspirações contra o Marquês de Pombal, para além da guerra liberal, levada a peito pelo primeiro Duque de Palmela.

Foi também ali o célebre exílio de Alexandre Herculano, que foi para aquela terra plantar as primeiras oliveiras sem êxito, e até ao célebre banquete oferecido a Isabel II de Inglaterra, em 1957. À entrada, as árvores centenárias choram sombras sobre o pátio de pedra gasta, onde o silêncio ecoa a grandiosidade de outros tempos e o portal de ferro ergue-se como um guarda austero do passado. 

Cruzando o limiar, a grande sala de aparato deslumbra num sussurro de veludos desbotados: os frescos do teto contam mitos antigos entre painéis de azulejos azuis e brancos, enquanto a luz cansada se reflete nos espelhos, guardando o bafo aristocrático de uma glória que o tempo não conseguiu apagar.


Eu próprio escrevi no meu livro Os Dias Portugueses de Isabel II a descrição de um dos momentos mais faustosos do seu banquete naquele palácio. O banquete decorreu na sala de jantar do palácio, numa mesa onde estavam sentados o Duque de Palmela, Isabel II e o seu marido, além dos 11 filhos, genros e noras dos Duques de Palmela. A mesa estava ornamentada com a baixela em prata inglesa do século XIX e, na sala, sobressaía um grande retrato de um príncipe inglês, da autoria de Angélica Kauffmann.

Foi um dos últimos momentos brilhantes da casa. Nesse dia, a propriedade recebeu Isabel II, que ali almoçou e passou a tarde: viu os jardins e percorreu a casa, demonstrando um grande interesse por tudo.

Mas os tempos mudaram. A casa conseguiu manter esse ambiente de fausto até 1986, ano em que morre a Quinta Duquesa de Palmela. Com a sua morte, dão-se as partilhas entre os 11 herdeiros e grande parte do recheio dispersou-se por museus, coleções privadas e públicas, e leilões consecutivos.

Hoje, da casa resta um ambiente marcado por azulejos e algum mobiliário, mas a decadência tomou conta de toda a propriedade. O que é uma tristeza. Uma tristeza acentuada pelo enorme roubo sofrido em 2000, onde os ladrões levaram o resto do fausto. O Palácio de Palmela transformou-se, assim, num alojamento local.

TEATRO NACIONAL S.CARLOS 

Nova ópera de Luís Tinoco 


libreto de Luísa Costa Gomes e encenação de Nuno Carinhas, 

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Luís Tinoco Relicário Perpétuo
Libreto Luísa Costa Gomes Lisboa | Teatro Camões 10 JUN | 18H00 11 JUN | 20H00 Loulé | Cineteatro Louletano 13 JUN | 21H00 Com André Baleiro, André Henriques, Rodrigo Carreto, Mariana Fabião, Camila Mandillo e Andrea Conangla Direção musical Joana Carneiro Encenação e figurinos Nuno Carinhas Orquestra Sinfónica Portuguesa


Relicário perpétuo

A nova ópera de Luís Tinoco, com libreto de Luísa Costa Gomes e encenação de Nuno Carinhas, propõe um olhar inesperado sobre Camões, afastando-se da solenidade e do peso institucional, para revelar um poeta que, para Luísa Costa Gomes, [...] está vivo porque é lido e não porque está morto e ressequido e é visitado em romagem de saudade. Se ele está vivo, não há saudade nenhuma.

Partindo da descoberta de um Camões lírico, dramático, irónico e até brejeiro, Relicário perpétuo encontra-se entre a ópera bufa e o teatro, combinando humor, reflexão e uma grande pluralidade de influências musicais. 

Segundo o compositor, Tem momentos em que andei a recuperar desde Flamenco, a Vicente Lusitano, Damião de Góis, Vilancicos anónimos, Samba do Brasil, música tradicional portuguesa, folclore.

Luísa Costa Gomes (Lisboa, 1954) é uma das mais destacadas e versáteis escritoras portuguesas contemporâneas, reconhecida pela sua escrita marcada pela ironia, subtileza e rigor formal. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e iniciou a sua carreira profissional como professora do ensino secundário.

Estreou-se na literatura em 1984 com o livro de contos 13 Contos de Sobressalto. Desde então, construiu uma obra vasta que abrange o romance, o conto, a crónica e, de forma muito expressiva, a dramaturgia. 

Entre os seus romances mais célebres contam-se O Pequeno Mundo (1988), galardoado com o Prémio D. Dinis, Olhos Verdes (1994), que recebeu o Prémio Máxima de Literatura, e Ilusão (ou o Que Quiserem) (2009), vencedor do Prémio de Ficção d'APE (Associação Portuguesa de Escritores).

Além da ficção, Luísa Costa Gomes tem um papel fundamental no teatro português contemporâneo, tendo escrito diversas peças, libretos de ópera e realizado traduções de autores de relevo. 

Colaborou também regularmente com as Edições Cotovia e assinou crónicas em vários jornais e revistas nacionais. A sua escrita destaca-se pela capacidade de desconstruir os quotidianos e as convenções sociais com um olhar simultaneamente crítico e lúdico.

Literatura chinesa em destaque

"Sogro Vermelho" Mo Yan 


a luta da China contra o exército invasor japonês


"Sorgo Vermelho" (Hong Gaoliang Jiazu), publicado em 1986 pelo escritor chinês Mo Yan é uma das obras mais importantes da literatura contemporânea chinesa.

O livro é um romance histórico e uma saga familiar que se passa na província de Shandong (na vila fictícia de Northeast Gaoliang) e estende-se ao longo de várias décadas, concentrando-se principalmente nos anos 1930, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

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Um livro na primeira pessoa

A história é contada na primeira pessoa por um narrador omnisciente que reconta a vida dos seus antepassados. A narrativa não é linear; ela salta constantemente no tempo (entre o passado e o presente), misturando memórias, lendas locais e factos históricos. O foco está em três gerações, mas principalmente nos avós do narrador:

Yu Zhan'ao (o avô), um antigo carregador de liteiras que se torna bandido e, mais tarde, líder de um exército de resistência local. Dai Fenglian (a avó, também conhecida como Jiu'er), uma mulher forte e determinada.

Um livro na primeira pessoa

A história é contada na primeira pessoa por um narrador omnisciente que reconta a vida dos seus antepassados. A narrativa não é linear; ela salta constantemente no tempo (entre o passado e o presente), misturando memórias, lendas locais e factos históricos. O foco está em três gerações, mas principalmente nos avós do narrador:

Yu Zhan'ao (o avô), um antigo carregador de liteiras que se torna bandido e, mais tarde, líder de um exército de resistência local. Dai Fenglian (a avó, também conhecida como Jiu'er), uma mulher forte e determinada.

Urso de Ouro em Berlim

O livro quebrou os moldes da literatura na China, ao mostrar heróis que eram imperfeitos, violentos e motivados por paixões pessoais. A obra ganhou ainda maior projeção internacional com a icónica adaptação ao cinema em 1987, realizada por Zhang Yimou e protagonizada por Gong Li, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim.

O realismo mágico

Violência e Crueldade: Mo Yan utiliza um realismo visceral. O livro descreve com detalhe a brutalidade da guerra, execuções, tortura (como o famoso episódio do homem esfolado vivo pelos japoneses) e a fome. Não há romantização da guerra. Apesar da opressão e da tragédia, as personagens transbordam uma paixão primitiva pela vida, pelo sexo, pela terra e pela liberdade.

Mo Yan mistura a crueza histórica com elementos míticos e superstições locais. Os cães da vila tornam-se selvagens e lutam pelos corpos dos mortos; o vinho de sorgo parece ter propriedades de cura e coragem.


O cenário e o simbolismo do sorgo

O sorgo vermelho (um cereal muito comum na China) não é apenas o cenário onde a história se passa; é o elemento central e simbólico de todo o livro. Ele representa a própria essência do povo chinês daquela região: rústico, resistente, violento e indomável. É no meio dos campos de sorgo que as personagens amam, lutam, escondem-se e morrem. O sorgo também é a matéria-prima para o famoso vinho local, que ganha contornos misticos na história.

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A invasão japonesa

A trama começa com o casamento arranjado de Dai Fenglian com o filho leproso do dono de uma destilaria de sorgo. Durante a procissão do casamento através dos campos de sorgo, ela conhece Yu Zhan'ao, um dos carregadores da sua liteira. Há uma atração imediata.

Pouco tempo depois, o marido leproso e o sogro de Dai Fenglian são misteriosamente assassinados (subentendendo-se que o autor foi Yu Zhan'ao). Dai Fenglian assume o controlo da destilaria. Yu Zhan'ao junta-se a ela, e os dois tornam-se os patriarcas da família, gerando o pai do narrador.

A vida de crime e a gestão da destilaria são brutalmente interrompidas pela invasão do exército imperial japonês. A partir daí, o livro transforma-se numa crónica de guerra sangrenta. Yu Zhan'ao organiza uma milícia local de camponeses e bandidos para combater os invasores japoneses através de táticas de guerrilha nos campos de sorgo.


 O que o silêncio torna legível


Sobre o espaço, a atenção e o valor expressivo da ausência

Num presente saturado de imagens e marcado pela solicitação incessante da atenção, o silêncio adquire urgência crítica.Numa cultura visual orientada para o impacto, importa voltar a pensar aquilo que abranda, depura e torna legível. 


É nesse quadro que se torna necessário reconhecer o silêncio como matéria expressiva. Tal como a vírgula, na poesia, não é apenas um sinal de pontuação, mas um elemento de ritmo e de pensamento, também o branco, no desenho, não é um "fundo" neutro: é campo ativo, orientação do olhar, lugar onde a forma se evidencia. O silêncio, nesses termos, não é ausência; é uma escolha refletida que organiza hierarquias, cria expectativas e torna possível a clareza.


Pensar o silêncio implica reconhecê-lo como uma realidade simultaneamente material e conceptual. Aquilo que não se apresenta como enunciado ou forma explícita pode, ainda assim, operar como condição de inteligibilidade: um intervalo que estrutura o sentido e convoca a interpretação.

No domínio artístico, o silêncio converte-se, assim, numa gramática transversal que organiza tempo, espaço e atenção. Na música, a pausa não é um interstício neutro: regula o ritmo, desenha o fraseado, cria expectativa e pode tornar-se proposição estética autónoma, como em 4'33'' (1952), de John Cage, onde a escuta se desloca do som intencional para a consciência do próprio ato de ouvir.

https://www.youtube.com/watch?v=AWVUp12XPpU ou

https://www.youtube.com/watch?v=JTEFKFiXSx4


Na poesia, o silêncio manifesta-se no não-dito, na elipse e no branco tipográfico, nesses intervalos que sustentam a ambiguidade e abrem uma clareira contemplativa. Em Sophia de Mello Breyner, o silêncio surge como limiar de atenção e de reconhecimento: lugar onde a consciência se afina e onde cada gesto ganha uma solenidade que é, ao mesmo tempo, lucidez.

Mesmo na literatura infantil, o silêncio pode constituir uma experiência formativa. Em O Vazio (2014), de Catarina Sobral, a lacuna narrada transforma-se em possibilidade, ensinando que a ausência pode ser habitada e convertida em criatividade. 

Noutro plano, O Ser e o Nada (1943), de Jean-Paul Sartre, oferece um enquadramento decisivo ao pensar o vazio não como inexistência, mas como estrutura da consciência: condição de liberdade, de escolha e de criação de sentido.

Nas artes visuais, este silêncio estrutural manifesta-se como economia formal e exigência de um olhar desacelerado. Em Suprematist Composition: White on White (1918), Kazimir Malevich reduz a pintura a diferenças quase impercetíveis 

entre figura e fundo; o branco deixa de ser neutro e passa a ser campo ativo de tensão, onde a forma só se revela a quem aceita demorar-se. (Imagem01).

Na escultura, Miguel Ângelo parte da pedra bruta e, pelo cinzel e pelo malhete, constrói por subtração. É do que retira, do que "não fica", da leitura da ausência, que, na Pietà (1499), emerge a forma triangular e o seu silêncio interno. O vazio entre os corpos, as concavidades do drapeado e a geometria contida da composição tornam a emoção plenamente legível. (Imagem02)

Por fim, no design, campo a que tenho dedicado os últimos trinta anos, compreendo o silêncio do espaço como matéria rigorosa: contenção, respiro visual, áreas livres que não "sobram", mas que sustentam.

 

O silêncio é, aqui, forma e recorte; não ausência, mas operação de estabilização do mundo sensível. Funciona como moldura que revela, não que adorna, permitindo que o sentido se organize não por acumulação, mas por depuração, como se observa da capa do livro Princípios da Arte Neoplástica, do artista Theo van Doesburg, 1919. 

(imagem 2)

Quando o silêncio se torna espaço, instala-se no centro da forma como respiração invisível que regula a distância entre os elementos e restitui ao olhar a sua capacidade de distinguir. Assim compreendido, o silêncio reconfigura a perceção, disciplina a atenção e faz do que não se diz, ou não se mostra, um princípio ativo de significado, abertura e criação.

"ESPÓLIO" 

Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta


António Gedeão

"Podemos soçobrar como País"

«Encontramo-nos num tempo de fuga à realidade, de alheamento dela. Podemos soçobrar como País. Sempre fomos sujeitos a grandes pressões do estrangeiro, sempre estivemos dependentes do exterior. Tivemos um grande papel na época dos Descobrimentos mas quem se aproveitou deles foram os outros, não soubemos tirar proveito do que descobrimos. 

Ficámos sempre pobrezinhos. Fomos sempre utilizados pelos outros, colonizados pelos outros. Tivemos o salazarismo porque lá fora havia o nazismo, o fascismo. Descolonizámos porque os outros descolonizaram, temos a democracia porque os outros a têm, construímos auto-estradas porque os outros as constróem.

«Se amanhã os outros mudarem nós também mudamos. Se evoluírem num outro sentido nós também evoluiremos nesse sentido. Com atraso. Não temos respeito por nós próprios. Desconsideramo-nos bastante. Inferiorizados pelos estrangeiros, passamos a reverenciá-los e a amesquinhar-nos. Basta ver o que sucede com a língua portuguesa. Está a ser cada vez mais dominada por expressões alheias. Nas paredes do meu bairro os rapazinhos escrevem António love Francisca, Manuel love Anita. É impressionante! No passado foi o francês, agora é o inglês a invadir-nos. É um provincianismo incrível.

«Há uma grande incultura, sobretudo a nível político, literário e histórico. Há dias ouvi na televisão um professor dizer que um aluno seu julgava que Salazar tinha sido o último rei de Portugal. As televisões são as maiores culpadas pela desordem das mentalidades existente. Para conseguirem publicidade descem a tudo. O que é preciso é dinheiro, dinheiro. Quanto mais canais houver, pior.

« Passam-se coisas inquietantes a que ninguém está a dar a devida atenção. É o caso da acumulação de riqueza por elites cada vez mais restritas e poderosas (de indivíduos, de empresas, de estados) gerando pobreza generalizada, isto é maiores fossos sociais, o que a regra dos vasos comuniantes explica, fossos agravados no pós 25 de Abril; é o caso da desregulação demográfica, tornada gravíssima. 

Enquanto houver excesso de população a poluição é imparável. E o desemprego. E a pobreza. O dramático é que os poderes instituídos não querem pôr em causa uma questão destas, pelo contrário, apelam a maiores natalidades mas não dão condições às pessoas para isso. Veja-se como a Igreja continua a opor-se à redução das populações, como o Vaticano prega aos miseráveis para se reproduzirem. Não tenho esperança no futuro desta sociedade. Estamos num beco sem saída.

«Escrevi a Pedra filosofal que o Manuel Freire divulgou numa altura em que pensei no suicídio. Deprimido, resolvi então reagir e inventar-me optimista. Fiz esse poema. Talvez por isso ele teve êxito».

( "ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta)


Biografia

António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho (1906-1997) foi um dos grandes poetas e cientistas do século XX português, através de uma obra originalíssima onde se concilia o científico com o

 poético, o humanismo com o social, de maneira surpreendentemente inovadora e sedutora.

Professor de Física e Química no ensino secundário (a sua independência impediu de sê-lo no universitário, levando-o a pedir a demissão no Verão Quente de 75) viu mais tarde a data do seu nascimento, 24 de Novembro, ser instituída como o Dia Nacional da Cultura Científica entre nós.

Dos diversos títulos publicados destacam-se, entre outros, o Movimento Perpétuo e Poemas Póstumos (poesia), Teatro do Mundo e Máquina de Fogo (teatro), A Astronomia em Portugal e História da Biblioteca Nacional (ensaios); as suas obras de referência, pela popularidade e inovação, vão para Lágrima de Preta, Calçada de Carriche e A Pedra Filosofal, esta tornada um hino galvanizador: "Eles não sabem que o sonho/ é uma constante da vida/tão concreta e definida/como outra coisa qualquer (…) Sempre que um homem sonha/ a vida pula e avança/ como bola de cristal nos pés de uma criança…"

Fernando Dacosta

A China em português


Estes livros são fundamentais para entender a China do século XX e XXI. A China é hoje também uma fascinante  "potência" literária:

"Viver" (Yu Hua): Um dos livros mais emocionantes da literatura mundial. Acompanha a vida de um camponês através da guerra civil, da fome e da Revolução Cultural. Editora em PT: Relógio D'Água.

"Sorgo Vermelho" (Mo Yan): Obra do Prémio Nobel que mistura lendas familiares com a invasão japonesa. É uma escrita visual e poderosa. Editora em PT: Cavalo de Ferro / Porto Editora.

"A República do Vinho" (Mo Yan): Uma sátira bizarra e surreal sobre a corrupção e a obsessão pela comida na China.Editora em PT: Cavalo de Ferro.

"Servir o Povo" (Yan Lianke): Uma sátira proibida na China que mistura política e erotismo durante a era de Mao Zedong. Editora em PT: Sextante Editora.

"O Problema dos Três Corpos" (Liu Cixin): O primeiro volume de uma trilogia épica que começa na Revolução Cultural e termina no fim do universo. Editora em PT/BR: Relógio D'Água / Suma.

"A Floresta Sombria" e "O Fim da Morte" (Liu Cixin): As sequelas do livro acima, também publicadas em português.

"O Sonho da Câmara Vermelha" (Cao Xueqin): A maior obra-prima da literatura clássica chinesa. Existe uma edição monumental traduzida diretamente para português. Editora: Assírio & Alvim (Edição em dois volumes).

"Antologia da Poesia Chinesa": Existem várias seleções, mas a traduzida por Bento Itamar ou as edições da Assírio & Alvim são excelentes para conhecer poetas como Li Bai e Du Fu.

"Diário de um Louco" (Lu Xun): Contos curtos que mudaram a história da China no início do século XX. Editora em PT: Antígona.

"Desejo, Cuidado" (Eileen Chang): Contos sobre espionagem e amor na Xangai ocupada pelos japoneses. Editora em PT: Relógio D'Água.

"A Rapariga de Xangai" (Wei Hui): Um livro que causou escândalo na China pelo retrato da vida boémia, sexo e drogas da juventude moderna. Editora em PT: Presença.

Mo Yan: o camponês que se tornou Nobel


Mo Yan, pseudónimo de Guan Moye que significa "Não Fales", é o maior expoente do realismo alucinatório contemporâneo. Nascido numa zona rural da província de Shandong, a sua infância foi marcada pela fome e pela dureza da Revolução Cultural, 

experiências que moldaram a sua escrita crua e sensorial. Em 2012, tornou-se o primeiro cidadão chinês a receber o Prémio Nobel da Literatura,consagrando uma obra que funde a história da China com contos populares e o surreal.

O seu estilo é uma explosão de imagens, onde o passado e o presente se misturam em narrativasépicas. Em "Sorgo Vermelho", retrata a resistência à invasão japonesa com uma vivacidade visceral, enquanto em "As Baladas do Ajo" e "A República do Vinho" utiliza a sátira e o grotesco para criticar a corrupção e os traumas sociais. Mo Yan transforma o sofrimento da sua terra natal numa mitologia universal, onde a brutalidade e a beleza coexistem de forma inseparável.

Admistrador do Pingo Doce

Vencimenro de 350 mil euros/mês

Cartoonistas 'a bombardear' Trump

A MORTE DE UM GÉNIO:Apesar da idade, no que respeita à minha vivência intelectual, Edgar Morin era eterno. Para além do historiador português Fernando Catroga e do filósofo Eduardo Lourenço, do meu professor de português Manuel Marques da Cruz, foi uma das traves-mestras da pessoa que sou. 

É com desgosto que me despeço dele.Conheci-o através de um livrinho publicado na década de 70, O 'Paradigma Perdido: A Natureza Humana'. marcou-me de tal forma que não mais o perdi de vista. Daí ao 'O Homem e a Morte' foi um instante, entre outros, toda a sua obra sobre o 'Método'. Assisti a inúmeras das suas conferências em Portugal e, sobretudo, em França. E aprendi sempre.Agora que se despediu de nós, em plena Feira do Livro de Lisboa, espero que muitos o encontrem nos livros que nos deixou, para melhor conhecimento da extraordinária composição que é o Ser Humano. Ver menos

Estou de acordo com o trabalho social 


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O JUIZ IVO ROSA


Ivo Rosa, no @jornalexpresso "Tendo em conta todos os inquéritos que o MP abriu em relação à minha pessoa, pelo menos sete deles visavam a sindicância de atos de judicatura pela via criminal — e não pela via de recurso. Se o MP não fica satisfeito com uma decisão, não pode abrir um processo-crime ao juiz por este ter aplicado o direito num sentido com o qual não concorda. 

Se um juiz que está a decidir tem de ponderar se o MP vai gostar, sob pena de ser alvo de um processo-crime, então vai decidir no sentido contrário só para não ter problemas. Tudo o que vá para além do escrutínio normal por via de recurso é um atentado ao Estado de direito.

"Se Ivo Rosa dirigiu a carta que dirigiu ao PR e ao PAR, sendo evidente há muito, e agora de forma flagrante, que está em causa o Estado de direito, espera-se que o PR faça algo, que chame o PGR a Belém, que chame o PM para falar sobre o tema politico em causa, que se pronuncie, que o PAR distribua a carta aos grupos parlamentares para as medidas que cada um tenha por convenientes, espera-se que o PAR também se pronuncie.

era uma vez um  Saab

Há uns anos, no Brasil, o condutor do carro onde eu ia - português que tinha vivido em Inglaterra - parou educadamente numa passadeira para uma senhora atravessar e ela ficou assustada. 

Pensou - explicou-nos o outro passageiro do carro, esse brasileiro - que ia ser assaltada...Na Suécia, há 40 anos, recordo-me de ir num velhinho Saab, e na Suécia parecia haver na estrada nada mais do que velhinhos, seguros e suaves Saab, na mesma altura que em Portugal, a reboque do crédito e da ignorância, todos os carros eram pequenos, novos e maus, enfim de lata, dizia eu na Suécia o meu amigo, sueco, que ia a conduzir, parou o carro numa berma, íamos a 50km hora, para dar passagem a um tipo que ia a 60km hora. 

Este baile de ópera vienense na estrada sempre me assalta a memória quando hoje, em Portugal, estou numa passadeira e uma condutora acelera para só parar mesmo em cima; ou um cavalheiro vai na auto estrada a 120 km hora colado à traseira do meu carro para ultrapassar; ou sicrano atravessa uma aldeia a 50km hora, também a 60km e até a 90km! 2 mortos por dia, é o saldo.

Passo férias em lugares, na Europa central, onde os carros param para dar lugar aos ciclistas e o condutor faz um gesto suave de - a senhora dança? Fujo de lugares onde a violência se impõe à delicadeza. Excerto de crónica de Rauel Varela

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O lendário Saab Automobile já não existe. A empresa formalizou em dezembro de 2011 o fim de uma das marcas mais importantes da indústria automóvel. Famosa pela herança aeronáutica, pioneirismo na segurança e motores turbo, a fabricante sueca sucumbiu à gestão sufocante da General Motors (GM), que a adquiriu em 2000.

A GM tentou massificar a Saab forçando a partilha de componentes com a Opel. Contudo, os engenheiros de Trollhättan resistiram e redesenharam os veículos para manter os padrões da marca, o que inflacionou os custos e gerou prejuízos. Com a crise de 2008, a GM decidiu alienar a subsidiária. 

A neerlandesa Spyker Cars tentou salvar a Saab em 2010, mas a falta de liquidez paralisou as fábricas no ano seguinte. O golpe final ocorreu quando a GM bloqueou a venda a investidores chineses, recusando transferir as patentes e licenças dos motores. Sem alternativas, a Saab declarou falência. Os ativos foram comprados pelo consórcio NEVS, mas o direito ao nome e ao icónico logótipo perdeu-se para sempre.


Os homens abstêm-se 

O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.

Mia CoutoVozes Anoitecidas

"Dói-te alguma coisa?-Dói-me a vida, doutor.(...) -E o que fazes quando te assaltam essas dores?-O melhor que sei fazer, excelência.-E o que é?-É sonhar."

world press cartoon

BY Elena Ospina

By MACKINNON

By Simanca

By MACKINNON

Os meninos pobres serão bailarinos


Menina carrega irmã em busca de auxilio

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes. 


Líbano arrasado por Isra3


A China já está no futuro

Natália Correia: Cântico do País emerso

Métrica certinha? Nunca a tive. Sou livre como o vento que me gera. Sou uma alma antiga que ainda vive À espera de encontrar a Primavera.

Tenho olhos de lenda e de mistério, Uma boca de fogo e de pecado, E trago no meu peito um império Que há muito tempo foi desmoronado.

Sou a bruxa, a sibila, a feiticeira, Que lê no xisto a sorte do destino, Sou a insubmissa, a verdadeira, Que tem a força de um clamor divino


Se de mim nada ficar que te mereça, nem a pressa de rir que me traías, nem a frescura azul das minhas mãos vazias, nem esta forma de amar que te entristeça;
Se de mim nada ficar que te recorde a grande nau que fomos no oceano, nem este fumo triste do engano, nem a canção que o teu silêncio morde;
Se de mim nada ficar que te console, nem a herança dos sóis que te prometo, nem o segredo do meu verso inquieto, nem este luar que na minh'alma bole;
Fica ao menos a terra onde nascemos, este cais de partida e de regresso, este império do mar que não tivemos, este fado de um povo que está preso.
Fica a pátria que fomos na viagem, a grande sombra azul do que vivemos, e este sabor a sal e a maresia de um país que na alma concebemos.