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Edição de botequim.pt 14 a 21 de Setembro de 2026, com actualizações
O santo casamenteiro de Lisboa
Santo António em exibição nos cinemas

A chegada às salas de cinema de Santo António, a nova aposta assinada por Ruben Alves, traz de volta ao grande ecrã o olhar afetuoso e popular de um realizador que sabe, como poucos, dialogar com a identidade luso-francesa e com o imaginário cultural português.

Contando com a presença magnética de Joaquim de Almeida à frente do elenco, o filme assume-se como um dos lançamentos mais aguardados do circuito comercial recente.
A História e o Enredo
Longe de ser uma biografia estritamente religiosa de época, a narrativa ancora-se na Lisboa dos nossos dias, onde o peso da tradição, as festas populares e a figura de Santo António — o casamenteiro, o procurador das coisas perdidas e o protetor da cidade — servem de bússola para os encontros
e desencontros das personagens. A trama acompanha laços familiares fraturados, paixões improváveis e pequenas buscas pessoais, nas quais Joaquim de Almeida encarna uma figura central de patriarca carismático, cuja vida se cruza com a dinâmica caótica, luminosa e calorosa dos bairros lisboetas.
A Assinatura de Ruben Alves: Do Fenómeno de A Gaiola Dourada a Este Regresso
Ruben Alves já provou a sua mestria na comédia humana com "A Gaiola Dourada" (La Cage Dorée, 2013),

o estrondoso sucesso de bilheteira que levou mais de 750 mil espectadores aos cinemas em Portugal e conquistou mais de um milhão em França ao retratar com ternura e humor a comunidade de emigrantes portugueses em Paris.
Em Santo António, o realizador recupera essa mesma sensibilidade sociológica: Autenticidade e pertença: A capacidade de captar a alma das ruas e a hospitalidade sem cair na caricatura fácil.
Comédia com coração: O equilíbrio entre o humor genuíno e momentos de melancolia honesta sobre a passagem do tempo e as raízes. Elenco de peso: A mestria em tirar partido do talento e da autoridade cénica de Joaquim de Almeida, oferecendo-lhe um papel que conjuga gravidade dramática e cumplicidade com o público.
O Interesse do Filme
O verdadeiro apelo de Santo António reside na sua capacidade de celebrar a identidade coletiva sem cinismo. Numa cinematografia nacional frequentemente dividida entre o hermetismo de autor e a comédia ligeira sem substância, a obra de Ruben Alves posiciona-se naquele espaço nobre do cinema popular bem construído: fotografia cuidada, ritmo envolvente e um amor genuíno pelas pessoas e pelos lugares que retrata. É um filme feito para reencontrar o público e encher as salas com o pulsar de Lisboa.
O arauto
da disputa dialéctica
Santo António (nascido Fernando Martins de Bulhões, c. 1191–1195 em Lisboa, e falecido a 13 de junho de 1231 em Pádua, Itália) é conhecido em Portugal como Santo António de Lisboa e no resto do mundo católico como Santo António de Pádua. Ficou na História pela sua opção pela disputa dialética em vez do combate violento contra os Cátaros ordenada pelo Papa Inocêncio III
Embora a devoção popular o recorde frequentemente como o "santo casamenteiro" ou o santo das coisas perdidas, do ponto de vista histórico e eclesiástico ele foi, acima de tudo, um dos maiores intelectuais, teólogos e oradores da Idade Média.
Percurso e Formação Intelectual
Antes de se tornar franciscano, Fernando de Bulhões teve uma formação erudita de topo:
Mestrado Agostiniano: Entrou jovem para os Cónegos Regulares de Santo Agostinho, primeiro em São Vicente de Fora (Lisboa) e depois no prestigiado Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Coimbra era então um dos maiores centros de saber da Península Ibérica, onde estudou a fundo a Bíblia, a Patrística (os Padres da Igreja, sobretudo Santo Agostinho) e as ciências medievais.
Transição para a Ordem Franciscana: Em 1220, tocado pelo martírio de frades franciscanos em Marrocos, pediu para ingressar na Ordem dos Frades Menores, adotando o nome de António. Levou consigo para uma ordem mendicante — que até então valorizava quase em exclusivo a pobreza e a simplicidade — uma bagagem teológica e bíblica sem paralelo.
O génio de Santo António
O Primeiro Professor de Teologia dos Franciscanos: No início, São Francisco de Assis desconfiava dos estudos académicos, receando que a erudição destruísse a humildade da ordem. Ao ouvir António pregar numa ordenação sacerdotal em Forlì (1222), onde improvisou um sermão de profundidade bíblica e retórica impressionantes.
Francisco rendeu-se e escreveu-lhe uma famosa carta autorizando-o a ensinar teologia aos frades: "Agrada-me que ensines a sagrada teologia aos irmãos, com a condição de que este estudo não extinga o espírito de oração e devoção". António fundou assim o ensino teológico formal da Ordem Franciscana, lecionando em Bolonha, Toulouse e Montpellier.
Obra Escrita (Sermões Dominicales et Festivi): Deixou uma vasta compilação de sermões (Sermões Dominicais e Sermões para as Festas dos Santos). Estas obras não eram discursos populares em língua vulgar, mas tratados teológicos e homiléticos em latim, concebidos como ferramentas de formação para os pregadores da época. Apresentam um domínio enciclopédico do Antigo e Novo Testamento, utilizando alegorias, ciências naturais da época e a psicologia humana para interpretar os textos sagrados.
O "Martelo dos Hereges" (Malleus Haereticorum): Num século marcado por fortes crispações e movimentos heréticos (como os Cátaros e os Valdenses no sul de França e norte de Itália), António não recorreu à violência para os combater, mas sim à disputa dialética rigorosa, à coerência teológica e ao exemplo de vida despojada.
Rubem Alves
de filho de porteira
a realizador
O argumento foi escrito por Ruben Alves em conjunto com Hugo Gélin e Jean-André Yerlès. Ruben Alves é ilho de pais portugueses que emigraram para França nos anos 1960 e 1970 — a sua mãe trabalhava como porteira e o seu pai na construção civil.
O filme é amplamente inspirado na história e vivências da sua própria família e da comunidade de emigrantes portugueses em França.

Trata-se de uma comédia que reune Ruben Alves com a atriz Rita Blanco (que protagonizou A Gaiola Dourada), ao lado de um elenco que inclui Joaquim Monchique, Ana Bola e Maria João Bastos.

Ruben Alves é um ator, argumentista e realizador luso-francês, nascido a 9 de janeiro de 1980 em Paris.
Origens e Primeiros Passos
Filho de pais portugueses que emigraram para França nos anos 1960 e 1970 — a sua mãe trabalhava como porteira e o seu pai na construção civil —, Ruben
cresceu em Paris em contacto próximo com as duas culturas. Essa vivência bicultural tornou-se a sua maior marca artística.
Iniciou a sua formação artística no teatro e na representação no início dos anos 2000, trabalhando durante anos como ator em várias produções televisivas e cinematográficas francesas (como La vie devant nous, Secret Défense e Yves Saint Laurent).
Percurso como Realizador
A Gaiola Dourada (La Cage Dorée, 2013): A sua estreia na realização de longas-metragens foi um fenómeno de bilheteira em França e em Portugal. O filme aborda com humor, respeito e sensibilidade a vida de um casal de emigrantes (interpretado por Rita Blanco e Joaquim de Almeida). Venceu o Prémio do Público nos prestigiados Prémios do Cinema Europeu (EFA) e foi nomeado para o César de Melhor Primeiro Filme em França.
Miss (2020): A sua segunda longa-metragem como realizador, comédia dramática que acompanha um jovem rapaz que persegue o sonho de concorrer e vencer o concurso de Miss França. O filme destacou-se pela abordagem à identidade de género, aceitação e superação pessoal.
Santo António – O Casamenteiro de Lisboa: Projeto de comédia focado na energia bairrista de Lisboa e nos tradicionais casamentos de Santo António.
Outros Projetos e Reconhecimento
Além da ficção no cinema, Ruben Alves dedicou-se à música e à preservação da identidade cultural: realizou documentários e projetos audiovisuais com foco no Fado, incluindo parcerias e registos em torno de nomes como Carminho, além de participar ativamente em iniciativas de cooperação cultural entre Portugal e França.
Em 2013, o Estado Português atribuiu-lhe o grau de Comendador da Ordem do Mérito, em reconhecimento pelo seu contributo na divulgação da cultura portuguesa e na valorização das comunidades portuguesas no estrangeiro.
Santo António de Lisboa
Santo casamenteiro e não só
Quando havia bons jornais em Portugal, um dos de maior circulação, o Diário Popular, pegou num dos mitos mais queridos dos
lisboetas, Santo António e, ligando-o ao imaginário romântico do público criou, com grande êxito, os chamados Casamentos de Santo António, caracterizados por enlaces conjuntos de vários casais

Percebendo o seu significado identitário numa cidade, num país a perder raízes, o cineasta Ruben Alves realizou um filme de grande ternura sobre nós, ternura próxima da que sentimos pelo Santo - pelo que julgamos ele ter sido.
O povo da capital pegou nele e fê-lo, séculos atrás, seu símbolo, símbolo (alibi) de paganismos, de brejeirices, de matreirices. Não cuidou de saber se ele, um prestigiado e sábio franciscano, condizia com a imagem que lhe (im)pôs. Não condizia. Isso não teve, porém, importância. A ficção fez-se realidade e o santo tornou-se não no que era, mas no que diziam que era.
O desejo que algo aconteça costuma criar expectativas, condições para que esse algo aconteça. Isso explica o surgimento de líderes, de messias, de tiranos, de santos, de mitos. O mito de Santo António surgiu assim, a partir da vida de Fernando Martins de Bulhões, o seu nome verdadeiro, oriundo de uma família abastada de Lisboa.
Começou desde criança a sentir-se atraído pelas encenações religiosas que via realizar-se na Sé, ao lado da casa onde morava com os pais. "As pompas do culto, a beleza dos altares deliravam-no", dizem os cronistas. Aos 15 anos pede que o admitam como noviço. Aceite, entrega-se, convicto, à fé; e à Gramática, à Retórica, à História, à Teologia, disciplinas em vigor nas escolas catedralícias da época; e ao convívio, ao amor, à licenciosidade, à duplicidade frequentes entre rapazes na Idade Média.
A sua devoção vai, inteira, para a Virgem Santíssima, que escolhe como preceptora e sustentáculo. Ela ajuda-o a aceitar as paixões humanas que o aguilhoam - e que ele aguilhoa. É tentado, tenta, homens e mulheres, estrangeiros e passantes, desconhecidos e íntimos. "Joli garçon", "nice boy" lhe chamam os cruzados que sobem à Sé.
Iniciado pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho de São Vicente de Fora, o jovem transfere-se dois anos depois para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. A biblioteca, o estudo, a escrita, a meditação tornam-se-lhe refúgios crescentes. Em 1220 é ordenado.
Conhece o ideal dos franciscanos e apaixona-se por ele. O ermitério de Santo António dos Olivais, de Coimbra, recebe-o. Adopta, em sua homenagem, o nome do patrono do convento.
Amigo do Papa
Uma tarde vê chegar os corpos de mártires de Marrocos. Siderado, quer embarcar imediatamente para o Norte de África e pelejar, e morrer pela
expansão da fé. Embarca. Ao chegar ao Magrebe cai, porém, doente. Receosos, os superiores mandam-no para a Sicília. A Itália muda-lhe a vida.
Pregador de nomeada (chegava a ser e.scutado por mais de trinta mil pessoas), percorre o sul da Europa em campanhas de catequização e afectuosidade. Torna-se amigo pessoal de São Francisco de Assis e do Papa Gregório IX.Exaltado, acomete nas prédicas e nos escritos contra os homens da lei ("para ganharem dinheiro ladram nos pretórios como cachorros"), e contra os exploradores: "Oh, quantos se vestem de púrpura, isto é de pano tinto de suor e sangue do pobre, pois se vestem de lucros ilícitos!".
Entrega-se aos desprotegidos, aos infelizes, aos sofredores, aos doentes. Galvaniza-os. Galvaniza-se.
"Ninguém considere propriedade sua tudo o que subtraiu ao património de todos. O pão que a dispensa acumula pertence aos famintos. O dinheiro que tem escondido representa a parte dos pobres", exalta.Os seus sermões resultam excepcionalmente bem em termos de comunicação de massas. Construídos segundo os cânones da época, ganham impacto, luminosidade incomuns.
Padre António Vieira inspira-se neles para arquitectar a estrutura dos seus. Agostinho da Silva, o último grande orador português, considera-os "um modelo da arte de pensar e comunicar".Santo António faz-se um Zé Povinho dos altares, uma projecção quente, humaníssima de nós, um vingador das injustiças, desamores, impotências, abandonos, silenciamentos de nós.
Torna-se um herói no nosso imaginário popular e literário (Augusto Gil, Aquilino Ribeiro, Afonso Lopes Vieira, Agustina Bessa Luís), nas artes plásticas (Columbano, Pedro Alexandrino, Almada, Rosa Ramalho, Zé Franco), no teatro (João Villarett fará dele, satirizando Salazar, também António, uma das personagens mais fabulosas do Parque Mayer; Maria Emília Correia encenará um Menino ao colo, no Teatro da Trindade).
A fama de casamenteiro advém de, em jovem, ajudar raparigas desprotegidas a obterem dotes que lhes permitissem casar por amor. Vários regimentos (em Portugal, no Brasil, na Índia, em Moçambique) tomam-no para seu patrono, recebendo deles altos postos e soldos. Os mancebos (de todas as incorporações, de todas épocas) afeiçoam-se com gosto ao feitio anti formalista, anti-legalista, anti-elitista que diz-se ter sido o dele — ele que nunca foi tropa.
Numa terça feira,13 de Junho de 1231, moribundo, ele exclama de repente: "Vejo o Senhor!", estende os braços e expira. Tem 36 anos. Será canonizado pelo papa Gregório IX um ano depois. De imediato os meninos de Pádua correm pelas ruas gritando, "Morreu o Santo, morreu o Santo, o Santo, o Santo!"
Em 1934, Portugal declara-o seu padroeiro.
Casamentos e preparativos caóticos
Elenco Principal Rita Blanco, Joaquim Monchique, Ana Bola, Maria João Bastos, Joaquim de Almeida, Ruben Alves (participação no elenco)
A narrativa acompanha a correria, as rivalidades de bairro e as peripécias de vários casais que tentam ser selecionados e participar nos emblemáticos Casamentos de Santo António, celebrados anualmente a 12 de junho na Sé de Lisboa. O enredo explora as contradições entre gerações com os preparativos caóticos dos vestidos e festas populares, e as dinâmicas comunitárias típicas da cidade.
Quando os devedores
eram condenados à morte
Em Pádua, a estatura intelectual e moral de Santo António permitiu-lhe intervir na política local: combateu a usura (empréstimos com juros predatórios) e conseguiu alterar as leis comunais; os devedores insolventes deixaram de ser encarcerados até à morte caso entregassem os seus bens disponíveis
O Papa Gregório IX ficou muito impressionado ao ouvir Santo António pregar em Roma perante uma assembleia de diversas nações e línguas, chamou-lhe publicamente Arca do Testamento e Mestre das Escrituras, impressionado com a sua memória bíblica prodigiosa.
Santo António foi o precursor que abriu caminho para os grandes pensadores e filósofos franciscanos das gerações seguintes, como São Boaventura e Duns Escoto, integrando a investigação intelectual no carisma da pobreza evangélica.
Um sermão foi um dos pontos altos da vida: o sermão aos peixes numa época onde se supõe ter existido uma polémica cruzada, a Cruzada das Crianças.
Testemunho da importância de Santo António é Basílica de Santo António em Pádua, testemunho incontornável do poder retórico e simbólico da sua palavra em vida e a dimensão extraordinária do seu culto póstumo.
O sermão dito
por Ary dos Santos
O Sermão aos Peixes
significado histórico e teológico
O episódio decorreu na cidade de Rimini, no norte de Itália, um dos principais redutos do movimento herético cátaro (ou albigense).
O Contexto do Acontecimento: Ao chegar a Rimini para pregar, os líderes locais proibiram os cidadãos de o escutar, esvaziando a praça e ignorando a sua presença. Perante o desprezo dos homens, António dirigiu-se à foz do rio Marecchia, junto ao mar Adriático, e exclamou: "Já que vós mostrais indignidade para escutar a palavra de Deus, escutai-a vós, ó peixes do mar e do rio!".
O Fenómeno Narrado: Segundo as fontes medievais (Actus beati Francisci et sociorum eius e I Fioretti), milhares de peixes acorreram à superfície da água, organizando-se por tamanhos (os mais pequenos perto da margem, os maiores no fundo) com as cabeças fora de água, escutando a pregação em silêncio. A população e os hereges da cidade acorreram em massa para ver o prodígio, acabando muitos por se converter perante o contraste entre a dureza humana e a docilidade da criação.
Padre António Vieira revive sermão
O sermão funciona como uma denúncia moral contra a insensibilidade humana perante o sagrado.Inspiração no Século XVII: O episódio inspirou séculos mais tarde o célebre Sermão de Santo António aos Peixes (1654) do Padre António Vieira, que utilizou a mesma premissa alegórica para criticar a corrupção, a cupidez e a exploração dos indígenas pelos colonos no Brasil.
A Basílica de Pádua
Santo António faleceu no convento de Arcella, às portas de Pádua, a 13 de junho de 1231, com apenas cerca de 36 a 40 anos. A sua canonização decorreu em tempo recorde: foi proclamado santo pelo Papa Gregório IX em menos de um ano (maio de 1232).
A Basílica del Santo: Para albergar os seus restos mortais e o afluxo imediato de peregrinos de toda a Europa, os paduanos iniciaram a construção da imponente Basílica de Santo António de Pádua (Il Santo), uma obra monumental que conjuga arquitetura românica, gótica e cúpulas de influência bizantina.
A Capela da Arca (O Túmulo): O corpo do santo repousa na nave esquerda da Basílica, na monumental Capella dell'Arca. O túmulo é um altar de mármore elevado rodeado por relevos renascentistas (com obras de Tullio Lombardo e Jacopo Sansovino) que ilustram os seus milagres. É tradição os peregrinos passarem a mão na parte traseira da arca tumular em oração.
A Capela dos Relicários: Numa capela circular barroca na cabeceira da basílica encontram-se as suas principais relíquias. Em 1263, aquando da transladação do corpo na presença de São Boaventura, o caixão foi aberto e verificou-se que o corpo estava consumido, mas a sua língua permanecia incorrupta, fresca e vermelha.
Encontram-se agora expostas em relicários de ouro e prata a sua língua, a sua mandíbula e o seu aparelho vocal, venerados como símbolos eternos da eloquência do pregador e da integridade da sua mensagem teológica.
Santo António pintado
durante séculos
Santo António foi motivo principal de quadros de grandes pintores de vários países:
Giotto di Bondone (c. 1267–1337): Pintou Santo António na Basílica de São Francisco de Assis (Capela de Santa Madalena) e na Basílica del Santo em Pádua. São das representações visuais mais antigas e austeras.
Tiziano Vecellio (Ticiano) (c. 1488–1576). No início da sua carreira, Ticiano executou três grandes frescos na Scuola del Santo em Pádua (1511): O Milagre do Recém-nascido (o bebé que fala para testemunhar a inocência da mãe). O Milagre do Marido Ciumento. O Milagre do Pé Curado (reimplantação da perna a um jovem).
Fra Angelico (c. 1395–1455). Representou o santo no célebre Retábulo de San Marco e no retábulo do Bosco ai Frati, realçando a serenidade e a espiritualidade contemplativa franciscana.
Piero della Francesca (c. 1415–1492). No famoso Políptico de Santo António (conservado na Galleria Nazionale dell'Umbria, Perúgia), apresenta uma das mais imponentes e solenes figuras do santo no Quattrocento italiano.
A devoção hispânica a Santo António produziu obras-primas mundiais de grande carga emocional e uso dramático do claro-escuro.

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Bartolomé Esteban Murillo (1617–1682). Foi talvez o pintor que melhor fixou a imagem doce e luminosa de Santo António com o Menino Jesus. A Visão de Santo António de Pádua (1656): Monumental tela na Sé Catedral de Sevilha, onde o Menino Jesus desce rodeado de anjos em luz dourada para os braços do santo. Outras telas notáveis no Museu do Prado (Madrid) e no Museu de Belas Artes de Sevilha.
Francisco de Zurbarán (1598–1664). Retratou o santo em diversas ocasiões com a sua típica austeridade monástica e jogos de luz e sombra, integrando o Menino Jesus ou o crucifixo (obras patentes no Museu do Prado e no Museu Thyssen-Bornemisza).
El Greco (1541–1614). Pintou Santo António de Pádua (c. 1580, no Museu do Prado), exibindo a sua pincelada alongada e mística, com o santo a segurar o Menino sobre a Bíblia aberta.
Francisco de Goya (1746–1828). Na cúpula da Ermita de San Antonio de la Florida (Madrid), Goya pintou em fresco o milagre em que Santo António ressuscita temporariamente um morto para inocentar o seu pai de um homicídio em Lisboa.
Mestres Flamengos e Italianos do Barroco
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Antoon van Dyck (1599–1641). Pintou a sublime tela Santo António de Pádua com o Menino Jesus (atualmente na Pinacoteca de Brera, Milão), combinando a elegância flamenga com o dramatismo veneziano.
Annibale Carracci e Guercino. Ambos pintaram composições célebres sobre a aparição da Virgem e do Menino a Santo António, obras que definiram a escola de Bolonha e influenciaram toda a iconografia do século XVII e XVIII.
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Classe média
Não se pode exterminá-la?

Ou seja, o contrário do que sucede hoje em Portugal, detentor de uma democracia manhosa (porque videirinha) e egoista (porque subserviente com os poderosos e despótica com os desprotegidos), assente numa classe média fingida, tingida - idas (classe média e democracia) por um fisco obsceno, a primeira, e por uma corrupão insuportável, a segunda.
O centrão, que há mais de meio século nos governa, preocupa-se não em distribuir riqueza, objecto da democracia (socialista, cristã, liberal, etc.), mas em concentrar privilégios nas suas cortes, sob máscaras assistencialistas e moralistas.
Tem-no feito a dois níveis: açambarcando verbas da Comunidade Europeia e confiscando rendimentos à classe média, a única que não pode defender-se dos assaltos de um fisco em paranóia.
Outras vias, mais penumbreas, mais dúplices são engendradas ante a perturbação de uma justiça, de uma comunicação social, de uma cultura emparedadas por legislações, estrangulamentos, e velhacarias cúmplices.
Mais de 40 por cento equivalente ao Produto Interno Bruto encontra-se escondido em paraísos fiscais estrangeiros; milhões de euros jazem congelados em bancos, multinacionais, pés de meia, etc., impedindo que os portugueses respirem, que o País se desenvolva, que a esperança sorria.
As contas certas (a dívida externa não foi contraída pelo povo, mas por quem o domina – que não presta contas dela) são mais importantes do que a sobrevivência, a dignidade das pessoas. Vejam-se as reacções de certos economistas, comentadores, influenciadores (palavra mais ridícula!) a criticaram as côdeas que os governos atiram à plebe, e a defesa que fazem dos lucros (escandalosos) da banca, dos supermercados, das gasolineiras, das seguradoras, etc., etc., ante o costumado silêncio dos instalados – o costume.
Deixar gente para trás, culpabilizar as vítimas por o serem, aterrorizar os idosos para privatizar a segurança social, empandeirar os jovens para fora apelidando-os de serem a geração melhor preparada de sempre (que cinismo!), casquinar em privado que o povo aguenta tudo, tudo são comportamentos assumidos alto, sem pudor, sem prudência – sem inteligência.
É um insulto ouvir, por exemplo, certos responsáveis repreender-nos por não pouparmos mais, por não andarmos menos de carro, não irmos menos a restaurantes, não viajarmos menos,
isto dirigido a grupos cujos ordenados não chegam ao fim do mês, que comem uma única refeição por dia, vasculham envergonhados os caixotes do lixo, não tomam os remédios prescritos, que sobrevivem como não há memória nas últimas décadas, é um insulto inominável.
A baixa do IVA na alimentação – medida fundamental para a saúde pública - é repreendida por políticos partidários, por peritos económicos por desregular as receitas do Estado.
O dar cabo da classe média provoca o extremar de posições, isto é, despedaça a democracia, a liberdade, a criatividade, o humanismo, a esperança, factura que começamos a pagar assustadoramente, fractura que estamos a sofrer angustiadamente.
Na sua acre lucidez, Vasco Pulido Valente repetia-nos, Portugal tem uma democracia mas não tem democratas! Fernando Dacosta
Onde estão os resultados dos mega-processos?
Pingo Doce / Jerónimo Martins
119 milhões
de lucro no 1º trimestre deste ano
Ela tirou o véu e entrevistou
Oriana Fallaci enfrentou Khomeini
"Assinalou-se 20 anos da morte de uma das mulheres mais lúcidas e corajosas do mundo: a jornalista Oriana Fallaci.Deixo uma frase que escreveu dois anos antes de morrer e que parece ter sido escrita hoje:«Em vez de jovens instruídos, temos burros com diplomas universitários.

Em vez de futuros líderes, temos moluscos de calças de ganga caras e falsos revolucionários de cara tapada. E sabem que mais? Talvez esta seja também uma das razões pelas quais os nossos invasores muçulmanos têm tanta facilidade.»— Oriana Fallaci, 2004. Eis a famosa imagem de Fallaci quando, em 1979, em Qom, perante o próprio Ayatollah Khomeini e membros da Guarda iraniana, se recusou a continuar a usar o chador que lhe tinha sido imposto.
Disse-lhe:«Khomeini, vou tirar imediatamente este estúpido pano medieval.»E tirou-o.Leiam Oriana Fallaci. Vale bem a pena". de José Domingos Pereira

Os grandes crimes
do nosso tempo
Suécia esterelizou 63 mil mulheres até 1975
as justificações eram o direito a uma casa social ou por serem promíscuas ou... rebeldes. O país dos prémios Nobel !
A Suécia está agora a ser acusada de raptos de crianças mulçumanas. Mas não caso para espanto.
Já foi recentemente o país mais emblemático na esterelização forçada, embora programas semelhantes tenham existido em quase todos os países nórdicos (Noruega, Dinamarca e Finlândia).
Entre 1934 e 1975, a Suécia aplicou uma política estatal de esterilização baseada em princípios eugenistas e de engenharia social do Estado-providência. Durante esse período, cerca de 63.000 pessoas foram esterilizadas, na sua esmagadora maioria mulheres (mais de 90%).
Os critérios aplicados:
"Inaptidão" social e mental: Mulheres consideradas "promíscuas", "rebeldes", com dificuldades de aprendizagem ou diagnosticadas com "debilidade mental" (feeblemindedness).
Condições socioeconómicas: Mães solteiras, mulheres pobres ou pertencentes a famílias disfuncionais que o Estado considerava incapazes de
educar cidadãos "produtivos".
Minoritários e marginalizados: Grupos como a minoria Romani/Tattare foram desproporcionalmente visados.
O consentimento era frequentemente obtido sob coerção — por exemplo, a esterilização era imposta como condição obrigatória para ter acesso a habitação social, apoios estatais ou mesmo para obter a custódia dos filhos já nascidos.
No final da década de 1990, após uma investigação jornalística revelar a verdadeira dimensão e os métodos do programa, o governo sueco criou uma comissão parlamentar de inquérito, emitiu um pedido de desculpas oficial e aprovou indemnizações financeiras para os sobreviventes. Programas com contornos idênticos vigoraram também na Noruega (cerca de 40.000 esterilizações), Dinamarca e Finlândia durante grande parte do século XX.
AMÁLIA
"A seriedade é fundamental
para se ter prestígio"
"Não sou tão má nem tão boazinha como dizem. Às vezes parece que não dou pelo que acontece, que pareço seca, ausente. É uma defesa, a defesa que me resta. Diz-se que as pessoas vulgares falam, as sábias ouvem, as tolas discutem. Eu não discuto.
("ESPÓLIO" Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta)
"Os portugueses são uma mistura fabulosa de tudo o que existe. Por isso o nosso país podia servir de barreira ao, por exemplo, anti-arabismo que está a crescer na Europa e no Ocidente. Se não for feito nada nesse sentido vão dar-se tragédias terríveis"

"Os portugueses são uma mistura fabulosa de tudo o que existe. Por isso o nosso país podia servir de barreira ao, por exemplo, anti-arabismo que está a crescer na Europa e no Ocidente. Se não for feito nada nesse sentido vão dar-se tragédias terríveis".
«Quem tem consciência não pode ser feliz. Sou bastante inquieta e talvez por isso muito desprendida. Tanto durmo num hotel de luxo como numa manta no chão. "Há por vezes grande doçura na nossa tristeza. O povo diz que chorar alivia. A nossa tristeza é um embalo contra a crispação da vida"
"O fado tornou-se-me uma espécie de sinfonia feita de incomensurável mistura de elementos. Cantá-lo é partilhar a minha vida com os outros, é deixar fluir um saber que não me pertence, libertar algo que me ultrapassa. As coisas não são só o que aparentam, têm uma carga que vem do fundo dos tempos.
A vida actual conduz à fragmentação, à aniquilação do indivíduo. Precisamos de um retorno a nós próprios para nos podermos orientar, para não sermos devorados.
Cada pessoa necessita de descobrir os seus impulsos e segui-los. Essa urgência surgiu sempre em mim inesperadamente, não programada.
"Quando não aguento a cidade, a vida nela, rumo ao sul, á planura quente do Brejão. A energia do sol, o odor da terra, a fragância do oceano renascem-me."Cada pessoa necessita de descobrir os seus impulsos e segui-los. Essa urgência surgiu sempre em mim inesperadamente, não programada.
"O ter disponibilidade para mim própria foi a coisa mais importante que consegui. Eu sempre quis ser aquilo que sou, não me posso queixar, desfruto de êxito artístico, económico, afectivo. A minha vida profissional não podia ser melhor. Na minha concepção das pessoas e do mundo, a qualidade é uma conquista superior.
"Procurei sempre palavras e pessoas que tivessem peso para mim, daí a importância que dei aos grandes criadores. A minha inquietação é feita do que eu sofro nos outros, do que eu sofro
dos outros. As coisas que que exigem reflexão são as que menos tocam as massas, é preciso, por isso, doseá-las.
"Tudo tem defeitos e qualidades. Viajei pelo mundo, cantei em quase todos os países, a minha vida tem sido assim, e cheguei à conclusão de que é tudo igual, só mudam os cenários, as comidas, as línguas, no resto, nas roupas, nos gostos, nos sentimentos, nos medos, nas traições é tudo idêntico".
"Não consigo avalizar com o meu nome e o meu rosto coisas que desconheço. Acho que as figuras públicas deviam ser prudentes em relação a isso, embora reconheça que é uma tarefa bem paga e que as dificuldades nos meios artísticos são imensas."Custa-me ver pessoas que eu admiro a propagandear produtos duvidosos. A seriedade é fundamental para se ter prestígio.
"Se um dia perder a voz e o estatuto que consegui, muitos dos que me rodeiam abandonar-me-ão. As amizades são difíceis de manter. E o amor ainda mais. Como não sou nada falsa modesta, não tenho necessidade de mostrar, ou esconder, o que sou".
"O que vai ficar de mim é a lenda, não a realidade. Eu não digo o que penso pois os outros não o compreenderiam. A solidão interior é um dos meus terrores".
Biografia
Amália Rodrigues nasce em Lisboa em 1920 (desconhece-se o dia exacto, talvez a 1 ou 23 de Julho), na Rua Martim Vaz.
Em 1939 estreia-se como fadista no Retiro da Severa. Apresenta-se, depois no Olympia, em Paris. Os franceses rendem-se-lhe para sempre. Nova Iorque, Japão, URSS, Itália, etc. recebem-na triunfalmente
Em 1994, por motivos de saúde, retira-se; cinco anos depois morre na sua casa de São Bento, sendo em 2001 trasladada para o Panteão Nacional.
( "ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta)
Charlie Chaplin
Expulso dos EUA por ser pacifista
Regresso com 12 minutos de palmas
O maior aplauso de sempre de Hollywood
Chaplin de proscrito nos EUA a Sir na Grã-Bretanha
Em setembro de 1952, enquanto viajava de navio para Londres para a estreia do filme Luzes da Ribalta, Charlie Chaplin foi informado de que o governo dos Estados Unidos havia revogado a sua autorização de reentrada no país. Alvo constante do FBI e do macartismo pela sua postura pacifista, críticas sociais explícitas e suspeitas infundadas de simpatias comunistas, Chaplin optou por cortar os laços com os EUA em vez de se submeter a interrogatórios políticos.
Refúgio em Corsier-sur-Vevey: Em janeiro de 1953, instalou-se com a esposa, Oona O'Neill, e os filhos na propriedade Manoir de Ban, na Suíça, onde viveu com tranquilidade as últimas décadas da sua vida.
Sátira Política: Em Inglaterra, realizou Um Rei em Nova Iorque (1957), uma sátira mordaz à paranóia anticomunista e ao consumismo norte-americano. O seu último filme como realizador foi A Condessa de Hong Kong (1967), com Marlon Brando e Sophia Loren.
O Regresso Triunfal e os Últimos Anos
Reconciliação com Hollywood (1972): Após duas décadas de afastamento, regressou aos Estados Unidos apenas para receber um Óscar Honorário pelo conjunto da sua obra, sendo aplaudido de pé durante 12 minutos — a ovação mais longa da história da Academia.
Reconhecimento Real (1975): Foi condecorado Cavaleiro da Ordem do Império Britânico (Sir Charlie Chaplin) pela Rainha Isabel II. Morte (1977): Faleceu no dia de Natal de 1977, aos 88 anos, na sua casa na Suíça.
O caminho até ao Exílio
Para contextualizar a perseguição política que culminou na sua expulsão, a trajectória anterior de Chaplin dividiu-se em três grandes fases:
A Infância em Londres (1889–1913): Nascido na extrema pobreza dos subúrbios londrinos, passou por orfanatos e casas de trabalho devido à ausência do pai e aos internamentos psiquiátricos da mãe. Estreou-se nos palcos do music hall ainda criança, onde desenvolveu o seu domínio de mímica e comédia física.

A Criação do Vagabundo e o Império em Hollywood (1914–1939): Chegou aos EUA com a companhia de Fred Karno e criou a personagem Charlot (The Tramp). Tornou-se rapidamente a maior estrela mundial do cinema mudo e um dos fundadores do estúdio independente United Artists (1919), assinando obras-primas como O Garoto (1921), A Quimera do Ouro (1925), Luzes da Cidade (1931) e Tempos Modernos (1936).
Conflitos Políticos e O Grande Ditador (1940–1951): Em 1940, lançou O Grande Ditador, ridicularizando Adolf Hitler e o fascismo quando os EUA ainda mantinham neutralidade. O discurso humanista final da fita, somado às suas posições pró-paz durante a Segunda Guerra Mundial e à comédia negra O Barba Azul (1947), colocou-o definitivamente sob a vigilância das autoridades norte-americanas até à expulsão de 1952.
O Grande Ditador assusta
governo americano
Conflitos Políticos e O Grande Ditador (1940): Em 1940, lançou O Grande Ditador, ridicularizando Adolf Hitler e o fascismo quando os EUA ainda mantinham neutralidade. O discurso humanista final da fita, somado às suas posições pró-paz durante a Segunda Guerra Mundial e à comédia negra O Barba Azul (1947), colocou-o definitivamente sob a vigilância das autoridades norte-americanas até à expulsão de 1952.
O polémico casamento de Chaplin
Luzes na cidade
Lançado em 1931, em plena ascensão do cinema sonoro, o filme desafiou a indústria ao manter a estética quase totalmente muda.
Chaplin compôs a banda sonora, provando a força da pantomima. A narrativa equilibra humor refinado e forte teor dramático. Destacam-se cenas cómicas como a hilariante luta de boxe e a amizade instável com um excêntrico milionário ébrio.
Ao mesmo tempo, aborda temas sérios de sacrifício e empatia social. No comovente desfecho, a florista curada toca a mão do benfeitor, descobrindo que o seu herói é afinal um humilde vagabundo. A cena permanece como uma das mais célebres da sétima arte.
440 mil milhões de euros revela Cristhine Lagarde
Os europeus financiam empresas americanas de IA
Depois da exigência de Trump de que os europeus gastem 5% do seu PIB a comprar armas aos próprios Estados Unidos, é a vez de Christine Lagarde, do Fundo Monetário Internacional [atual presidente do Banco Central Europeu], alertar para a despesa que a Europa vai fazer comprando IA aos Estados Unidos
Depois da exigência de Trump de que os europeus gastem 5% do seu PIB a comprar armas aos próprios Estados Unidos, é a vez de Christine Lagarde, do Fundo Monetário Internacional [atual presidente do Banco Central Europeu], alertar para a despesa que a Europa vai fazer comprando IA aos Estados Unidos.
Lagarde salientou que as taxas de juro europeias evoluem em grande medida em linha com as taxas norte-americanas. No final, "a Europa suportará parte do custo deste 'boom' através dos seus próprios custos de financiamento", sublinhou.
Segundo Lagarde, "a questão é saber se também beneficiará do crescimento que o acompanha".

Para a presidente do BCE, o desafio é tanto mais importante quanto a inteligência artificial representa uma das principais esperanças para relançar a produtividade europeia, numa altura em que o envelhecimento demográfico reduz a mão de obra disponível e a Europa enfrenta grandes necessidades de investimento.
Na sua opinião, a Europa precisa de modelos "suficientemente avançados" que funcionem em infraestruturas europeias. Por isso, o continente não
Na sua opinião, a Europa precisa de modelos "suficientemente avançados" que funcionem em infraestruturas europeias. Por isso, o continente não pode "limitar-se a comprar" esta tecnologia no exterior.

"Se a IA europeia se resumir à Mistral, então estamos tramados", alertou recentemente o ministro francês da Economia, Roland Lescure.

No ano passado, os Estados Unidos produziram 59 modelos de inteligência artificial considerados relevantes, contra 35 na China e apenas um em França e no Reino Unido, segundo o relatório Stanford AI Index.
Lagarde citou a startup francesa Mistral, que desenvolve modelos de IA abertos e acaba de captar três mil milhões de euros para se expandir, mas apelou para o desenvolvimento de mais modelos europeus de inteligência artificial.




Judeus alemães alarmados com vitória da extrema-direita


A vitória eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxónia-Anhalt gerou fortes reações de alarme na sociedade civil e na comunidade judaica. Com cerca de 44% dos votos e 39 deputados, o partido de extrema-direita ficou a apenas três lugares da maioria absoluta regional, muito à frente da CDU (17,5%) e dos restantes partidos tradicionais.
Principais reações:
Josef Schuster (Conselho Central dos Judeus): Declarou consternação com a hipótese de um partido de extrema-direita liderar um estado alemão e responsabilizou diretamente os eleitores pela escolha.
Charlotte Knobloch (Comunidade Judaica de Munique): Manifestou receio pelo estado da democracia no país, sublinhando que a elevada afluência às urnas (80%) torna a vitória da extrema-direita ainda mais preocupante.
Eva Umlauf (Comité Internacional de Auschwitz): Comparou o momento à ascensão nazi nos anos 1930 e apelou à defesa contínua da memória e dos valores democráticos.
foto Josef Schuster



Primo Levi: a culpa de ter sobrevivido a Auschwitz
Primo Levi (1919–1987) é um dos mais conhecidos nomes de Auschwitz e sobreviveu. Era judeu. Primo Levi permanece como uma das vozes mais lúcidas, despidas de ódio e moralmente rigorosas do século XX. O seu legado transcende o mero relato testemunhal: Levi operou como um cientista da alma humana perante a aniquilação deliberada da dignidade.
A Sobrevivência em Auschwitz. Químico de formação e judeu italiano, Levi foi capturado em 1943 enquanto integrava a resistência antifascista e deportado para Auschwitz III (Monowitz) no início de 1944.
A sua sobrevivência deveu-se a uma combinação improvável de fatores: a sua formação científica permitiu-lhe ser alocado a um laboratório da fábrica de borracha sintética da IG Farben nos meses mais frios de inverno.
A ajuda clandestina de um trabalhador civil italiano (Lorenzo Perrone) que lhe fornecia restos de sopa diários, é preciosa.
A outra inesperada ajuda será ima crise de escarlatina no momento da evacuação alemã — o que o impediu de marchar nas letais "marchas da morte", acabando libertado pelo Exército Vermelho em janeiro de 1945.
A Obra: O Olhar Analítico da Memória Levi escreveu não para vingar, mas para compreender. A sua prosa caracteriza-se pela precisão descritiva, despida de histeria retórica:
Se Isto É um Homem (1947): Uma autópsia da desumanização. Levi detalha o sistema concentracionário onde a fome, o trabalho forçado e o frio desmantelavam a identidade do indivíduo até ao limite moral e biológico.
A Trégua (1963): A errática odisseia de regresso à Itália através de uma Europa oriental em ruínas, marcada pelo contraste entre a sobrevivência física e o trauma latente.
Os Afogados e os Sobreviventes (1986): A sua obra teórica definitiva, onde formula o conceito da "zona cinzenta" — o espaço moral ambíguo em que opressores e oprimidos se cruzavam para sobreviver, recusando simplificações maniqueístas do mal absoluto.
A negação do Holocausto
O Fim de Vida e o Peso da Memória A ideia de que Levi morreu "abandonado" no sentido social não corresponde exatamente aos factos, mas reflete com precisão o seu isolamento existencial e intelectual. Em Turim, Levi vivia integrado na família e cuidava da mãe idosa e doente, mas carregava o estigma profundo da culpa do sobrevivente — a angústia de crer que "os melhores não regressaram".
Nos seus últimos anos, o isolamento agravou-se perante a ascensão de correntes negacionistas do Holocausto e a indiferença das novas gerações, que lhe pareciam esquecer a facilidade com que um regime civilizado tomba na barbárie.
Em abril de 1987, caiu do vão de escadas do seu prédio em Turim, com a investigação a concluir tratar-se de suicídio (embora amigos e biógrafos continuem a debater se foi deliberado ou um acidente provocado por vertigens e medicação).
Elie Wiesel resumiu o impacto dessa morte afirmando que "Primo Levi morreu em Auschwitz quarenta anos depois".
A grandeza de Primo Levi reside em ter transformado a experiência do abismo humano num instrumento de conhecimento ético e racional, exigindo a cada leitor a responsabilidade permanente da lucidez.
World Press Cartoons





Todo o ouro já extraído da crosta terrestre seria insuficiente para pagar a dívida norte-americana. Seriam necessárias sete Nvidias ou cada cidadão norte-americano doar 117 mil dólares.


New York Times "A vingança molda as prioridades do presidente, impulsiona suas ações e estrutura as decisões do seu governo", escreve nossa colunista Jamelle Bouie. "Nenhum lugar é mais aparente do que quando Trump desvia o peso do governo federal contra aqueles americanos que desafiam a sua vontade." https://nyti.ms/4xxjJuv


INACREDITÁVEIS OS ATRASOS NA CP Fui à Gare do Oriente esperar dois amigos que regressavam de Braga. O comboio estava atrasado. Sentei-me no piso que funciona como sala de espera a tomar um café e foi, então, que despertei para a barafunda que se vive na linha férrea.
Os altifalantes não se calaram um minuto que fosse anunciando comboios atrasados. Não sei se é epidemia. Não há um raio de um comboio que chegue a horas e o ambiente da sala de espera faz lembrar os sons de um grande arraial informando atrasos.
É inacreditável.A CP vive em paz com esta barafunda, ou melhor, a administração da CP que deveria zelar pelo serviço que presta aos cidadãos, respira tranquila, ufana e alegre.
É indigno de um país que quer mostrar-se desenvolvido. E pagamos todos os custos deste desleixo. Não é aceitável.
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel.
Isr3l destroi o Libano
O mistério do navio de Portugal
Trump um valentim em grande






Natália Correia
Por vezes fêmea. Por vezes monja.

De perfil
Poesia com dor já comprei
ou algo que de poesia
tinha a cordial dissipação
dos poemas que eu não escrevia.
Agora pela romântica
retórica de não ter dinheiro
a vendo avulso mas roubo
no peso como o merceeiro.
Esse pequeno furto é o meu quarto
(de alva) indicador insone
que disca o número de deus
num sub-reptício telefone
deus movediço que é uma rede
de linhas interrompidas
onde caio morta de sede
de jogar comigo às escondidas.
Escondendo o que de frente vejo
de perfil me vedes como os egípcios
não por vício de esconder um deus
mas o deus de esconder um vício.
Se um grama de mim sonego
a que chamo deus por ínvio rito
perdoai-me porque só vos roubo
aquilo em que não acredito.
Auto-retrato
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


0 mundo lisboeta de Natália Correia
Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.
Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).
Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.
Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa.
Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos.
"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".
O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.
Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor.
Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.
Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.
O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.
A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.
Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".
Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".
A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias. Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.
Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.

Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.
Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.


















