
BOtEQUIM.pt
Agregar Opiniões, Artes, Letras, Jornalismo, tudo com assinatura
Edição de botequim.pt 31 Agosto a 07 Setembro de 2026
Agregar Opiniões, Artes, Letras, Jornalismo, tudo com assinatura
O PERFUME DO SUCESSO
Um dos fenómenos mais curiosos (poderosos) surgidos nos últimos tempos é o que diz respeito ao sucesso, ao ter, ao exibir. A mentalidade que o rege revela-se, aliás, nova na cultura portuguesa.
"Nunca vingou aqui, ao invés do que sucedeu nos países calvinistas, a valorização doutrinária do trabalho, do dinheiro, do êxito", anotava António José Saraiva, uma das personalidades mais visionárias do século passado.

Menosprezávamos mesmo os valores que se lhe associavam, acreditávamos que era mais fácil um camelo entrar no fundo de uma agulha do que um rico no reino dos céus. Preferíamos a sensualidade ao poder, o lazer à acção, o sonho ao concreto; metemo-nos aos oceanos porque era mais interessante balouçar a perna em convés de naus do que calejar as mãos em lavra de terras.
Foi depois da Segunda Guerra Mundial que começámos a fascinar-nos pelo êxito. O ter dinheiro e influência deixou de ser imoral, a honradez (pobreza) volatilizou-se como valor.
"Desapareceram da nossa juventude as preocupações de inter-ajuda ou de espírito de equipa. Esta fase vai durar algumas décadas", exclama o prof. José Manuel Tribolet: «Os portugueses encontram-se numa posição frágil, entre os povos desenvolvidos e os subdesenvolvidos, entre o êxito da sua integração na CE (são os servos que se veem aceites no solar dos senhores) e a insegurança em si mesmos.
Apesar de se sentirem bem vestidos, têm a casa vazia e não sabem como cuidar dela. O salve-se quem puder instalou-se. Era fundamental restituir a utopia às pessoas, faze-las pensar, projectar.
Por que não aproveitar, por exemplo, a força extraordinária, em criatividade, em conhecimento, da terceira idade, que está a crescer imenso? O Estado precisava, para lutar contra a apatia, de ser provocador»
O aliciamento dos jovens faz parte da estratégia dos poderes consumistas e (falsamente) desideologizados. Os regimes procuram, com efeito, atraí-los para os seus campos, integrá-los nas suas engrenagens, cumpliciá-los, neutralizá-los — para esvair-lhes a capacidade subversora, transformadora.
A visão que hoje as pessoas revelam das coisas é algo esquizofrénica devido ao bombardeamento de imagens que sofrem, anota a psiquiatra Gracinda Ribeiro.
O zaping (na televisão, nos computadores, nos telemóveis) está a provocar perturbações no nosso equilíbrio mental.
Como o cérebro não consegue integrar as imagens recebidas, dá-se o alheamento delas. Isto é, interpretamos o que vemos sem compreender, confundindo a realidade com a ficção, uma espécie de alucinação emerge-nos provocando-nos aquilo a
que se chama ´pele de elefante`, ou seja, o endurecimento da sensibilidade, com consequências nos nossos relacionamentos.
Quando se julgava que a justiça social ia, com a revolução, aprofundar-se, eis que soçobrou. Pervertidos pela ditadura das maiorias, dos tops, das audiências, das manipulações, das sondagens, os mecanismos de protecção desabam em cadeia, impondo caminhos para clubes de eleitos — brancos, ricos,
bonitos, poderosos, triunfadores. Quem fica isolado, quem não logra acesso ao êxito é porque o não merece, porque não é dotado, diligente, capaz.
Nunca se registou na sociedade portuguesa tanto desequilíbrio, a competência profissional é inútil, a integridade pessoal inconveniente, a dignidade cívica inoportuna. Não provocar ondas tornou-se uma divisa.
O fosso entre os cidadãos agiganta-se. Governantes, governados, pais, cônjuges, colegas comportam-se como se o outro fosse um rival, um inimigo. Um objecto a comprar: compram-se filhos, apoiantes, votantes, amantes.
Daqui para a frente, os poderes ou passam a gastar em justiça social ou em repressão policial.
O perfume do sucesso é oneroso.
Quando o Teatro Nacional
era Amélia Rey Colaço
A terceira inauguração, este mês, do Teatro Nacional, depois do incêndio que o destruiu na década de 60 e da renovação agora terminada, é um acontecimento que, marcante na nossa cultura, chama para primeiro plano o nome da personalidade mais importante dele (e do teatro portugês do século XX), Amélia Rey Colaço que, com o marido Robles Monteiro, o dirigiu durante décadas

Curiosamente a reabertura dá-se com a peça Macbeth, de Shaespeare, a mesma que, no século passado, o queimou. Teria sido, no entanto, mais apropriado faze-lo com um texto portugês dado que ele foi construido por Almeida Garret para "representar com dignidade" dramaturgos nacionais. Razão tinha Bernardo Santareno ao lamentar que "em Portugal representa-se teatro em portugês, não teatro português".
Oriunda de famílias de aristocratas e artistas (o pai era o compositor Alexandre Rey Colaço, professor dos príncipes, a avó, a célebre Madame Reinhardt, com salão literário e musical em Berlim) Amélia recebeu, desde criança, uma formação invulgarmente requintada e diversificada
Ao ver na Alemanha, com 15 anos, os espectáculos de Max Reinhardt, fica fascinada pelo teatro. Em Lisboa tem aulas com Augusto Rosa e, a 17 de Novembro de 1917, estreia-se no teatro República na peça Marinela, escolhida para si. Para fazer a personagem, uma rude vagabunda, aprende, durante meses, a andar descalça e a usar farrapos, no interior do jardim do seu palacete.

Em Dezembro de 1920 casa com o actor Robles Monteiro, um ex-seminarista vindo da Beira Baixa para trocar, a conselho do bispo local (entusiasmado com as suas récitas religiosas), o altar pelo palco.
O casal funda uma companhia própria. Será a mais antiga (durou 53 anos) da Europa. Amélia imprime-lhe um cunho de elegância, de bom gosto, de invenção desconhecidos entre nós. Chama nomes prestigiados para colaborarem consigo, como Raul Lino, Almada Negreiros, Eduardo Malta.
Contrata actores que são ídolos do público (Ângela Pinto, Palmira Bastos, Nascimento Fernandes, Alves da Cunha, Lucília Simões, Estevão Amarante,Maria Matos, Vasco Santana) e revela novos, como Raúl de Carvalho, Álvaro Benamor, Maria Lalande, Assis Pacheco, João Villaret, Augusto de Figueiredo, Paiva Raposo, Pedro Lemos, Eunice, Carmen Dolores, Maria Barroso, João Perry, Madalena Sotto, Helena Felix, Rogério Paulo, José de Castro, Lurdes Norberto, Varela Silva, João Mota.
A sua concepção do que deveria ser uma companhia nacional (inspirada em Almeida Garrett) resultou em pleno. Actuando em vários planos, estruturou, primeiro, uma companhia coesa e disciplinada, metódica e exigente. A seguir, jogou na dignificação social do actor, conquistando para ele um estatuto de superioridade, de elitismo inovador entre nós.
Ao mesmo tempo, organizou um reportório ambicioso, diversificado, alternando contemporâneos com clássicos e abrindo (nisso foi única) as portas à dramaturgia portuguesa, fomentando-a, recompensado-a como ninguém mais fez depois dela.
O incentivo que deu aos nossos autores fe-los conhecer, apesar da Censura e do dirigismo cultural, uma época de oiro. As suas peças não eram representadas fora das épocas altas, dos horários principais, dos espaços nobres, como se tornou depois hábito. Eram representadas com a dignidade, o rigor, o empenho máximos da sua companhia.

Virgínia Vitorino, Armando Vieira Pinto, José Régio, Luis Francisco Rebelo, Bernardo Santareno, Romeu Correia, Miguel Franco são alguns dos que, então, se afirmaram."Nesse período admirável de ressurgimento da nossa dramaturgia são, por exemplo, levados à cena 116 peças de autores nacionais, 63 em estreia absoluta", anota Vitor Pavão dos Santos, para quem a Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro « é a espinha dorsal do teatro português de então» .
Com ousadia revela, por outro lado, o que de mais avançado surge no mundo: Jean Cocteau, Jean Anouih, Lorca, Valle Ínclan, Alejandro Casona, O´Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Pirandello, Eduardo De Filippo, Diego Fabri, Max Firisch, Ionesco, Durrenmatt, Albee, Pinter, Pirandello.
Apaixonada por Brecht, pede ao ministro da Educação (entidade que tutelava Nacional) uma audiência. Quando entra no seu gabinete, o governante diz-lhe: Se vem cá pedir para eu autorizar esses comunistas de que gosta, o Brecht, o Camus, o Sartre, pode meia volta. Amélia pára, dá meia volta e sai. Salazar (perspicaz encenador da política) gostava dela, do seu porte senhoril e grave, da sua firmeza e inteligência. Ficava-se a ouvi-la, quando se deslocava aos ensaios gerais (nunca ia a estreias) com curiosidade, com prazer. Entrava no teatro, sentava-se num camarote e seguia com deleite o espectáculo.
Como poucos, Amélia Rey Colaço sabia aproximar-se e distanciar-se, revelar-se e ocultar-se. O reverso dos aplausos, das benesses, chegar-lhe-ía penosamente à medida que a Companhia se decompunha por incêndios, por bloqueios, por incompreensões, em agonia lenta, densa. «O meio fechou-se", recorda, "os críticos estavam, no final, contra nós".
Em princípios de 1974 regressa ao S. Luis, depois do incêndio no teatro Avenida e de uma estadia (circunstancial) no Capitóleo. O ciclo encerra-se. Pouco depois dá-se o 25 de Abril. Percebendo que os revoltosos a vão encarar como um símbolo do Estado Novo, suspende a Companhia e sai de cena..
Assume, com grande dignidade e discrição, as feridas e imerge no outro lado da ribalta, o do silêncio, o do apagamento. Para trás ficam — o futuro comprovou-o — espectáculos que são ( a Castro, O Processo de Jesus, A Visita da Velha Senhora, Tango) patrimónios preciosos na nossa cultura, na nossa memória.
A sua companhia é oficialmente extinta em 1988, altura em que a actriz se vê obrigada a leiloar o recheio da casa do Dafundo (cedida pela Marquesa do Cadaval) e a abandoná-la. A 8 de Julho morre, em Lisboa, junto da filha, a actriz Mariana Rey Monteiro, que protagonizara a anterior (e trágica) versão de Macbeth.
«Relativamente independente no seio das dependências assumidas", definiu-a Jorge Listopad, "era uma técnica primorosa como artista, controlando com saber a sensibilidade para não transcender as normas do gosto do público da época. Com alguns riscos e rasgos cometidos tornou-se uma lenda já em vida".
Drone da Ucrânia afundou cruzador russo
Portugal compra
3 fragatas por 3,9 mil milhões
Quatro anos após o afundamento do emblemático cruzador russo Moskva, atingido por um drone ucraniano (14 de Abril de 2022) o Governo português formalizou a aquisição de três fragatas classe FREMM EVO à Fincantieri. O negócio é o maior investimento militar de sempre
A entrega das primeiras unidades está calendarizada para o período entre 2029 e 2030. O financiamento é assegurado através do programa de empréstimos europeu SAFE. A manutenção e o suporte tecnológico envolvem a indústria e o Arsenal do Alfeite.

Polémicas e contestação política A oposição critica o custo unitário superior em cerca de 25% ao valor pago por Itália. O Governo justifica a diferença com a inflação futura e o pacote de apoio logístico. A escolha da Fincantieri gerou tensão com a francesa Naval Group. Partidos exigiram audições urgentes no Parlamento sobre a transparência do processo
Razões para o reequipamento A frota existente aproxima-se do limite de vida útil após mais de 30 anos de serviço. O Governo diz que é necessária capacidade oceânica para vigiar a sua extensa Zona Económica Exclusiva.

A compra garante a proteção de infraestruturas críticas e cabos submarinos no Atlântico. Os navios reforçam os compromissos com a NATO em defesa antissubmarina e antiaérea.
Almerindo Lessa
"Quanto mais comemos menos filhos fazemos"

"A idade cronológica de uma pessoa não tem nada a ver com a sua idade biológica. Ninguém soma os anos do bilhete de identidade. Não possuímos a mesma idade em todo o corpo, as minhas mãos, o meu baço, as minhas pernas não têm a mesma duração.
"ESPÓLIO" Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta
"Fomos programados para viver 120 anos, nascemos com uma estrutura genética que o afirma. A partir do momento em que um espermatozóide penetra num óvulo fica marcada a evolução do novo ser, a idade em que vai ter o primeiro cabelo branco, a primeira úlcera de estômago, a data em que vai morrer.
É um verdadeiro programa de computador que só se altera porque os vírus o invadem. O limite dos 120 anos é dado pelo tempo em que as células se renovam. Algo nos impede, ainda, de o atingirmos ... um acidente, uma doença, um sofrimento, uma angústia, um desgosto de amor.
O corpo humano sofre transformações em cada 300 mil anos, foi assim que chegamos à forma actual. No futuro iremos conhecer novas alterações, não precisaremos de dois pulmões, dois rins, intestinos tão extensos, cores de pele tão marcantes, sexos tão definidos. Se não surgirem doenças, o envelhecer não desmotiva, só por si, o cérebro, apenas lhe retira rapidez.
"Os desgostos de amor continuam, ao contrário do que se diz, a matar-nos. Somos, aliás, um país sentimentalmente roxo, a cor do ciúme, um povo de desdobramento dos sentimentos. A maior parte de nós tem um amor a que se dedica sensualmente e outro a que se dedica espiritualmente, que quase nunca coincidem. Apesar de divididos, é-nos muito agudo o sentido da posse, tornamo-nos capazes de comer com beijos os objectos amados. Se, porém, não nos sentirmos retribuídos podemos falecer de angústia. A pior coisa para nós é a falta de felicidade.
Por isso os idosos choram muito, emocionam-se muito, sofrem muitíssimo com a ausência de carinho e com o isolamento. Os quintos andares estão cheios de velhos esquecidos, Lisboa é um terceiro mundo ao domicílio. A sua solidão, o seu abandono são por vezes totais.
Sentem-se seres despedidos, despedidos pela sociedade e pela família, sente-se inaproveitados, desarticulados, rejeitados, desintegrados economicamente, politicamente, eroticamente. Dizer que os idosos não amam, não necessitam de afagos é uma enormidade. O amor existe em todas as idades.
"Portugal, com cerca de l 4 por cento da população acima dos 65 anos, faz já parte do chamado clube dos velhos, o que podia ser um factor de riqueza se os encarassemos de maneira diferente, como fazem outras civilizações, até porque se envelhece-se mais devagar. A Terceira Idade principia aos 75 anos, ganhou-se já uma década.
"Das três grandes explosões ocorridas na humanidade, a marxista, a atómica e a demográfica, é a demográfica que vai alterar toda a nossa vida. A Europa será, dentro de escassos anos, dominada pelo quarto mundo, um mundo composto por três gigantescas maiorias: a dos séniores activos, a dos desempregados compulsivos e a dos imigrantes de África e Ásia.
A união delas constituirá o maior fenómeno sociológico, cultural, político, económico de sempre. As pressões que exercerão mudarão profundamente as estruturas existentes de trabalho, lazer, produtividade, saúde, convívio, transporte, urbanismo, previdência, assistência.
"O controlo da natalidade tornou-se, consequentemente, um problema cada vez mais premente. Só se pode, porém, lutar contra ele alimentando eficazmente as pessoas. Daí dizer-se que qunto mais comemos menos filhos fazemos. Quando há falta de determinadas proteínas, as hormonas sexuais não são queimadas pelo fígado o que provoca grande excitação ... um dos processos de aumentar, por exemplo, a fecundidade dos porcos e das galinhas é pô-los em regime de sub-nutrição.
"Dar comida, agasalho, habitação, trabalho, assistência a todos os que existem, e aos que não param de nascer, implica sacrifício da natureza, das águas, das árvores, da atmosfera, do clima. As florestas precedem as pessoas, os desertos acompanham–nas, avisava Chateaubriand.
"O homem é um poluidor por condição. As hecatombes ocorridas são consequência da sua natalidade incontrolável. A natalidade baixou entre nós porque subimos socialmente (a pílula ajudou), ao evoluir-se evita-se procriar. Os descendentes dos imigrantes que nos procuram hoje vão passar, amanhã, pelo mesmo, até pelas dificuldades, pela insegurança que crescerão. As pessoas não se sentem dignificadas, não vêem reconhecida a sua experiência de vida, preciosíssima licenciatura que em vez de ser utilizada é depreciada.
"Os responsáveis não mostram, porém, disponibilidade para estes problemas, limitados como estão nos seus cargos, nas suas redomas, nas suas filosofias mercantilistas e imediatistas. Julgam que tudo se resolve com dinheiro, com produtividade. Ora o nosso maior problema não é esse, é o da desumanização, o do desequilíbrio da ecologia, como a do envelhecimento. É incompreensível que não tenhamos uma ecologia do envelhecimento".
Biografia
Nascido no Porto a 31 de Agosto de 1909, doutorado em Medicina naquela cidade e em Ciências de Gerontologia na Universidade de Toulouse, Almerindo Lessa tornou-se um especialista de projecção internacional, pelo seu pioneirismo, nas áreas a que a que se dedicou, com ligações especiais às universidades de Évora e de Brasília.
Entre as suas obras, destacam-se os ensaios "O Homem Cabo-Verdeano", "Um Médico, o seu Mundo e os seus Fantasmas" e "Anthroposociologie de Macau".
Faleceu em Lisboa a 11 de Abril de 1995.

Todo o ouro já extraído da crosta terrestre seria insuficiente para pagar a dívida norte-americana. Seriam necessárias sete Nvidias ou cada cidadão norte-americano doar 117 mil dólares.


New York Times "A vingança molda as prioridades do presidente, impulsiona suas ações e estrutura as decisões do seu governo", escreve nossa colunista Jamelle Bouie. "Nenhum lugar é mais aparente do que quando Trump desvia o peso do governo federal contra aqueles americanos que desafiam a sua vontade." https://nyti.ms/4xxjJuv


INACREDITÁVEIS OS ATRASOS NA CP Fui à Gare do Oriente esperar dois amigos que regressavam de Braga. O comboio estava atrasado. Sentei-me no piso que funciona como sala de espera a tomar um café e foi, então, que despertei para a barafunda que se vive na linha férrea.
Os altifalantes não se calaram um minuto que fosse anunciando comboios atrasados. Não sei se é epidemia. Não há um raio de um comboio que chegue a horas e o ambiente da sala de espera faz lembrar os sons de um grande arraial informando atrasos.
É inacreditável.A CP vive em paz com esta barafunda, ou melhor, a administração da CP que deveria zelar pelo serviço que presta aos cidadãos, respira tranquila, ufana e alegre.
É indigno de um país que quer mostrar-se desenvolvido. E pagamos todos os custos deste desleixo. Não é aceitável.
Enigma persiste:
Amadeo Souza-Cardoso
em sotãos americanos
O Salto do Coelho era um dos quadros mais procurados de Amadeo Souza-Cardoso e foi comprado pelo Art Institute of Chicago de Chicago. Mais de cem anos após a morte do pintor circulam rumores sobre paradeiros desconhecidos dos seus quadros.
Variações e estudos menores enviados para a digressão de Boston e Chicago mantêm lacunas completas de proveniência, alimentando até hoje o mito das telas perdidas em sótãos e coleções anónimas americanas.
A história de Amadeo Souza-Cardoso na América começa no Armory Show de 1913 (a mítica International Exhibition of Modern Art em Nova Iorque, Chicago e Boston) que foi a grande montra internacional de Amadeo de Souza-Cardoso.

O Salto do Coelho foi pintado em 1911, mede 50 cm de altura por 61,3 cm de largura.A pintura pertence ao Art Institute of Chicago de Chicago
Amadeo foi um dos artistas mais bem-sucedidos do evento, vendendo sete das oito pinturas que levou aos Estados Unidos. No entanto, essa consagração deu início a um dos maiores mistérios da arte moderna portuguesa: o rasto perdido de várias dessas obras.
O Sucesso e a Dispersão Imediata
Amadeo participou a convite de Walter Pach com oito obras modernistas (incluindo composições com lebres, caçadores e naturezas-mortas cúbicas/futuristas).
Entre os compradores encontravam-se grandes pioneiros do colecionismo moderno americano, como Arthur Jerome Eddy e John Quinn. Com a morte precoce de Amadeo (1918) e o falecimento posterior destes primeiros compradores
nos anos 1920, as suas coleções foram a leilão e dispersaram-se pelo mercado privado norte-americano sem registos fotográficos detalhados da época.
O Enigma do "Saut du Lapin"
A Tela Mais Cobiçada: A pintura a óleo "Saut du Lapin" (O Salto do Coelho, c. 1912-1913) e outras composições cubistas de caça estiveram dadas como paradeiro desconhecido durante quase um século.

Durante décadas, historiadores de arte portugueses (como José-Augusto França) e equipas da Fundação Calouste Gulbenkian tentaram cruzar os números de catálogo do Armory Show com leilões em Nova Iorque, Chicago e Filadélfia.
A obra Saut du Lapin e o óleo Château-Fort acabaram por ser localizados décadas depois em coleções privadas nos EUA (como no Art Institute of Chicago e coleções particulares), sendo mais tarde exibidos em retrospetivas internacionais. JBL
Lixo à deriva nos oceanos
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel.
Trump alvo preferido dos cartoonistas





Eleições na Guiné-Bissau
Natália Correia: à vida breve não perguntes

De Amor nada Mais Resta que um Outubro
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia, in "Poesia Completa"
O Espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
Natália Correia, in "Poesia Completa"


0 mundo lisboeta de Natália Correia
Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.
Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).
Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.
Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa.
Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos.
"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".
O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.
Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor.
Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.
Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.
O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.
A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.
Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".
Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".
A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias. Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.
Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.

Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.
Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.





