BOTEQUIM

Edição de 09 a 15 de  Fevereiro de 2026, sujeita a actualizações diárias


SEGURO é o Presidente de Portugal

António José Seguro é o novo Presidente de Portugal, como se esperava, com mais de 66 por cento de votos expressos, apesar das tempestades que se abateram sobre o País. Seguro revelou-se um homem determinado e sensato que, de uma forma elegante, faz agora um justo ajuste de contas com o atual Presidente da Comissão Europeia, António Costa. 

Seguro diz já ter esquecido o momento em que António Costa o "traiu" ao pedir o seu afastamento da liderança do Partido Socialista, apesar de não haver razões objetivas para tal. Costa alegava pejorativamente que a vitória eleitoral de Seguro nas legilativas  de há 9 anos, tinha sido por "poucachinho".

Editorial                   Irmãos ao poder

O poder político tem estado entre nós entregue a dois tipos de governantes: os de postura paternal, austera, distante, esfíngica, fisicamente altos e magros; e os de postura maternal, afectiva, popular, optimista, e não magros. Dos primeiros destacam-se, por exemplo, Salazar, Cunhal, Eanes, Cavaco Silva, Mota Amaral; dos segundos, o Rei D. Carlos, Mário Soares, Freitas do Amaral, Alberto João Jardim, Maria de Lurdes Pintassilgo.

Esses dois modelos eram, na caracterização de Natália Correia, expressões dos conceitos, culturalmente seguidos durante séculos, de Pátria e Mátria, respectivamente, alternando-se, complementarizando-se. A expressão Mátria não foi, note-se, criada pela autora de "Sonetos Românticos", mas por Padre António Vieira como

 elemento de unidade contra o então domínio castelhano.Natália Correia criou, sim, o termo Frátria, referente a um novo paradigma de poder: o do Irmão, o da fraternidade, inspirado nametáfora do culto do Espírito Santo – a vinda do tempo da fraternidade universal.

Tem-se verificado, aliás, o surgimento de um novo perfil de governantes que, no nosso País, pode ser interpretado por, entre outros, Jorge Sampaio, Marcelo Rebelo de Sousa, António Guterres, António Costa, Montenegro, António José Seguro e afins.

Sāo os irmãos no poder, dizia a poeta que morreu duvidando, no entanto, da maneira como os portugueses reagiriam - manhosos, desdenhosos como são - às suas prestações.Há muito de Caim entre nós, não o esqueçamos!

Lá se vai o Montenegro

Um terço dos portugueses votou em quem fala em gamanço e chachada. Temos agora o nosso Le Pen mas de taberna, suportado por vendedores de armas e especuladores imobiliários. O futuro de António José Seguro será difícil. Pior será o calvário de Luís Montenegro .

O líder do PPD enfrentará a oposição interna do Cavaquistão e um parlamento hostil, sem espaço de manobra política. A erosão da sua base de apoio será curta e por isso  voltará em breve para as avenças dos postos de gasolina. Qual será o senhor ue se segue? jrr

O princípio do fim de um grande  jornal

Whashigton Post 

Amazon despede 300 jornalistas


A Democracia morre na escuridão

Existe uma tensão forte entre a redação e Jeff Bezos. Os jornalistas acusam o proprietário de estara sacrificar a missão cívica do jornal (a famosa frase "Democracy Dies in Darkness") em favor de um modelo de negócio puramente lucrativo e de evitar conflitos políticos.

 A Queda de Audiência: O jornal tem tido dificuldades em manter o número de subscritores digitais que alcançou durante os anos da primeira presidência de Trump.

300 jornalistas despedidos pelo dono da Amazon

DespedimentosDespedimentos em Massa: O jornal cébre por ter derrubado um presidente americano mentiro, Richard Nixon, recentemente o corte de cerca de 30% da sua força de trabalho, mais de 300 jornalistas. Prejuízos anuais ultrapassam os 100 milhões de dólares. Encerramento de Secções: Numa decisão polémica, o jornal eliminou secções inteiras, como a de Desporto e a de Crítica de Livros, além de ter reduzido drasticamente a sua presença internacional, fechando vários escritórios no estrangeiro.

Bezos: O últiomo apaga as luzes

Bob Woodward continuou no Washington Post, onde se tornou editor-executivo adjunto. Ao longo das décadas, tornou-se o cronista mais famoso da Casa Branca, escrevendo mais de 20 livros sobre os bastidores do poder, abrangendo desde o governo de Nixon até ao de Joe Biden. 

É conhecido pelo seu acesso sem precedentes a presidentes e figuras de alto escalão, mantendo-se ativo como autor e jornalista de investigação.

Carl Bernstein deixou o Washington Post em 1977. Desde então, trabalhou como correspondente para a ABC News, escreveu para revistas como a Rolling Stone e a Vanity Fair, e publicou vários livros, incluindo uma biografia premiada do Papa João Paulo II e as suas memórias sobre o início da carreira. Atualmente, é presença frequente em canais de televisão como a CNN, onde atua como comentador político e crítico.

Apesar de não trabalharem juntos diariamente há muitos anos, os dois reúnem-se frequentemente para eventos comemorativos sobre o Watergate ou para discutir questões de liberdade de imprensa, mantendo uma amizade que dura há mais de cinco décadas. 

O Washington Post atravessa um momento crítico neste início de fevereiro de 2026, marcado por uma reestruturação profunda que está a alterar a identidade histórica do jornal. 

Mudança de Estratégia: Sob a direção de Jeff Bezos, do da Amazon e da nova equipa de gestão, o foco do jornal está a passar de uma publicação generalista de referência mundial para um meio mais focado em política e segurança nacional dos EUA.

Há ainda uma aposta crescente em ferramentas de Inteligência Artificial para a produção de conteúdos. 

A Aposta na Internet em 1994

Bezos trabalhava em Wall Street e, ao ler que a utilização da internet estava a crescer 2.300% ao ano, decidiu largar o emprego. Ele fundou a Amazon na sua garagem em Seattle, inicialmente apenas como uma livraria online, por considerar que os livros eram fáceis de catalogar e enviar.

O Investimento Inicial e a Garagem

Embora se fale muito na "garagem", Bezos teve um impulso crucial: os seus pais investiram cerca de 300.000 dólares das suas economias de reforma na empresa. Esse capital permitiu que a Amazon sobrevivesse aos primeiros anos de prejuízo, enquanto ele se focava em ganhar escala em vez de lucro imediato. Bezos expandiu rapidamente para CDs, eletrónicos e, eventualmente, para tudo o que se possa imaginar. 

As ações começaram a 18 dólares.

Ele manteve uma percentagem enorme da empresa (atualmente cerca de 9% a 10%, mesmo após o divórcio e vendas de ações).  À medida que a Amazon passava de uma loja para um gigante logístico, o valor das ações disparou, tornando a sua participação acionista astronómica. 

Muitas pessoas pensam que a riqueza de Bezos vem apenas das encomendas, mas grande parte do valor da Amazon (e da fortuna dele) vem da AWS (Amazon Web Services). A Amazon aluga os seus servidores para quase toda a internet (Netflix, bancos, e até a CIA). É a parte mais lucrativa do negócio.

A fortuna de Bezos em 2026

Atualmente, a fortuna de Jeff Bezos está avaliada em cerca de 240 mil milhões de dólares, flutuando conforme o preço das ações da Amazon. Além da Amazon, ele é dono do jornal Washington Post e da empresa espacial Blue Origin. Ele comprou o Washington Post (o jornal de que falávamos há pouco) por "apenas" 250 milhões de dólares em 2013, o que é quase "trocos" face à sua fortuna atual

O Escândalo Watergate: Da Invasão à Renúncia

O Watergate foi o caso que derrubou o presidente Richard Nixon. Os jornalistas eram Bob Woodward e Carl Bernstein que, ao longo de meses, conseguiram provas que incriminaram o presidente norte-americano em atividades de espionagem e corrupção.

Tudo começou em junho de 1972, quando cinco homens foram presos ao invadir a sede do Partido Democrata, no complexo Watergate, para instalar escutas. Woodward e Bernstein descobriram que um dos invasores era um ex-agente da CIA e que o grupo possuía números de telefone ligados à Casa Branca. Através de encontros secretos em parques de estacionamento com a fonte "Garganta Funda", os jornalistas seguiram o rasto do dinheiro: fundos de campanha estavam a ser usados para financiar atos de sabotagem contra opositores políticos.

Mesmo com a negação oficial de Nixon, o Washington Post manteve as manchetes, atingindo tiragens recorde de mais de 500.000 exemplares. A pressão jornalística forçou o Senado a investigar, revelando que Nixon gravava todas as suas conversas na Sala Oval. Quando o Supremo Tribunal obrigou a entrega das fitas, ficou provado que o Presidente ordenou que o FBI parasse de investigar o caso. Sem apoio, Nixon tornou-se o único presidente na história dos EUA a renunciar ao cargo, em agosto de 1974.

um cartoon vencedor da World Press 2025


Eduard Snod3n e Natanson Natanson

Os pecados maiores do Washington Post

O "pecado" que conduz à morte anunciada do Washington post foi a perda da coragem combativa que definiu o jornal nos anos 1970, trocando-a por uma postura de "gestão de danos" corporativa sob a era de Bezos.

O Caso Snowd3n no Washington Post remete para um dos debates éticos mais intensos do jornalismo moderno: o equilíbrio entre a segurança nacional e a proteção de fontes. O erro apontado por críticos e pelo próprio Snowd3n ao Washington Post (em comparação com o The Guardian) não foi a revelação direta da sua identidade, mas sim a hesitação e a gestão do sigilo no início do processo.

Quando Snowden (que usava o pseudónimo "Veraxx") contactou o jornalista Barton Gellman do Post, ele exigiu que o jornal publicasse o código completo do programa PRISM e garantisse a publicação em 72 horas. O conselho jurídico do Washington Post hesitou, temendo represálias legais do governo Obama.

O "Pecado": Snowd3n sentiu que o jornal estava a ser demasiado cauteloso e "submisso" às pressões do governo, o que o levou a entregar o material também ao The Guardian (Glenn Greenwald), que foi muito mais agressivo.

Houve críticas severas à forma como o Post comunicou inicialmente com a fonte. Snowd3n enviou e-mails cifrados, mas o jornal, em certos momentos, utilizou canais que não eram 100% seguros. 

No mundo da espionagem, revelar uma fonte não é apenas dizer o nome dela, mas sim deixar um rasto digital (metadados) que permita ao governo chegar lá. O "pecado" foi a falta de preparação tecnológica para lidar com uma fonte daquele calibre.

O Caso Snowd3n no Washington Post remete para um dos debates éticos mais intensos do jornalismo moderno: o equilíbrio entre a segurança nacional e a proteção de fontes. O erro apontado por críticos e pelo próprio Snowd3n ao Washington Post (em

 comparação com o The Guardian) não foi a revelação direta da sua identidade, mas sim a hesitação e a gestão do sigilo no início do processo.

O filme "Snod3n" com Oliver Stone

 Hannah Natanson - "Nova" Crise

O FBI invadiu recentemente a casa da repórter Hannah Natanson. O "pecado" aqui, segundo o sindicato dos jornalistas, foi o jornal ter permitido (ou não ter conseguido impedir) que o governo identificasse o leaker do Pentágono, Aurelio Perez-Lugones, através da análise de dispositivos da própria jornalista que não estariam devidamente protegidos.

A Diferença para o Watergate

No Watergate, o Post protegeu o "Garganta Profunda" por 30 anos. No caso de fontes modernas (como Snowden ou leakers do Pentágono), o "pecado" é a perda dessa proteção absoluta, seja por pressão de advogados, por falhas de segurança informática ou por acordos de bastidores com o Departamento de Justiça para evitar multas pesadas.


Snowd3n vive na Rússia 

Edward Snowd3n é um ex-analista da CIA e contratado da NSA que, em 2013, denunciou programas de vigilância global em massa dos EUA, revelando a monitorização de comunicações de cidadãos e líderes mundiais. 

Após divulgar documentos confidenciais ao The Guardian e The Washington Post, recebeu asilo na Rússia, onde permanece, sendo considerado um traidor pelos EUA e um denunciante (whistleblower) por defensores da privacidade. 

O abate do Jornalismo

Tornou-se moda nos últimos tempos o anatemizar, culpabilizar o jornalismo, ou seja os que o exercem, os jornalistas, pelos males abatidos sobre o país, repetindo-se uma vez mais a reacção de matar o mensageiro pelas más notícias que divulga.

A ilusão de que não se conhecendo as desgraças elas deixam de existir fez, faz - sobretudo na política, na economia, na justiça, etc. - caminho largo.

Os jornalistas passaram a "jornaleiros", as notícias a "lixo", os comentadores a "comentadeiros", os periódicos a "pasquins" e assim por diante. Adiante.

Em muitos, demasiados casos, isso é, com efeito verdadeiro, mas é-o como consequência, não causa, fruto de estratégias ardilosamente concebidas nesse sentido.

Por os interesses dos dominadores quase nunca corresponderem aos dos dominados, surgiu a decisão de controlar o que lhes é dirigido, ou seja, se torna público. As ditaduras resolvem-no através de censuras directas, as democracias de manipulações indirectas; as primeiras utilizando repressores, as segundas sedutores.

Assim tem sido. Ao desaparecimento, com o 25 de Abril, da Censura oficial surgiu (pela sua privatização) 

a censura sem, obviamente, esse nome de partidos políticos, de instituições, de administrações, de autarquias, de tudo com poder e desvergonha.

A seguir à Revolução entregaram um jornal (mais do que um até!) a cada partido, infestaram as redacções de comissários políticos, proletarizaram os jornalistas retirando-lhes independência e intervenção (o PS de Sócrates acabou-lhes com a sua assistência médica), trocaram hierarquias por ideologias, criaram cursos de comunicação (de formatação), ou seja, perverteu-se a liberdade de criação, de expressão.

Cereja no bolo: a culpa passou, depois, a cair nas vítimas, vítimas que não são os travestidos de jornalistas, os sabotadores do jornalismo, mas os profissionais dele, mensageiros imolados por ele.

"Tão censurante é, em ditadura, impedir de dizer, como em democracia obrigar a dizer", repetia Natália Correia - e nós com ela.

Cartonistas americanos d'olho em Bezos

E DEPOIS VEIO A PRIMAVERA

A aconchegante biblioteca do Conde Castro Guimarães, Cascais, onde o Fernando Pessoa tratou de arranjar ofício (desgraçadamente negado, ao que contava o Gaspar Simões). ao tempo em que o vício e outros hábitos já o não deixavam fazer do sonho um calendário e a primeira morte atropelou de rompante e em cirrose hepática a segunda vida. Muitas manhãs de inverno lá fui em vez dele, sentado à lareira ao fundo vai para 50 anos.

Fiz-me sócio mas o lugar era tão acolhedor que tomei por jura ser associado de um só livro. E assim li umas 4 vezes de seguida a História da Filosofia Ocidental, do Bertrand Russell, num único volume perigosamente do meu mesmíssimo e físico tamanho. E depois veio a primavera e os troncos de madeira cuidaram de migrar.


A seguir só lá. passava para descansar os costados nos cadeirões e as costelas que tenho ainda agradecem esses tempos. Fiz tudo menos tirar fotografias dos momentos: que ele há limites para o que é maior do que nós e bem dispensa a nossa fuça de aconchego, como se só a nossa fronha em pose soubesse corrigir a perfeição. Sorry lá, que é inglês p'ra 'desculpa lá'.

Maria de Lourdes Pintassilgo  engenheira das utopias

Há 40 anos Maria de Lourdes Pintasilgo candidatava-se à presidência da República.  E  Natália Correia dizia "É uma engenheira de utopias". Maria de Lourdes Pintassilgo foi a terceira mulher no poder (depois das rainhas D. Maria I e D. Maria II) ao longo da história de Portugal. A política, a cultura, a intervenção, a solidariedade foram campos privilegiados na sua afirmação feita, quase sempre, por ciclos incisivos e decisivos.

Nascida em Abrantes numa família abastada (o pai era industrial textil na Covilhã, a mãe provinha da média burguesia local), veio com o irmão (o jornalista José Manuel Pintasilgo, já falecido) para Lisboa onde frequentou o liceu Filipa de Lencastre e, na Faculdade, o curso de Engenharia.

Beneficiou desde muito cedo da influência de um tio militar, homem de grande cultura e sentido de independência (anti-clerical, anti-regime), que a levou a contactar meios intelectuais, literários, criativos, políticos, tertúlicos de relevância na época. Aos quatro anos já recitava de cor diversos poetas e afirmava ousadias imbatíveis. A escolha de Engenharia, então pouco própria para mulheres, seria uma delas.

Diploma (com altos valores) na mão, aceita emprego na CUF, o maior império industrial português, onde se torna a primeira mulher engenheira a trabalhar, e onde descobre o universo do operariado de então, com as suas múltiplas associações e reivindicações. Descobre também o mundo da Igreja católica e os movimentos internacionais (fizera-se uma viajante incansável) que, a partir da Segunda Guerra, emergem no Ocidente.

Em 1957 introduz nos círculos femininos que frequenta a ideia de criar entre nós uma associação religiosa do Graal, em expansão na Europa. Gonçalves Cerejeira recusa-se a reconhece-la por a achar "demasiado avançada". 

O mesmo não pensam, porém, os bispos de Coimbra e Portalegre que a acolhem (Teresa Santa Clara Gomes afirma-se uma das

suas maiores impulsionadoras) nas dioceses que coordenam – levando o caprichoso cardeal a recuar. Aceita, no consulado de Marcello Caetano (1969-1974), integrar a Câmara Corporativa e, depois do 25 de Abril, executivos provisórios como a secretaria de Estado dos Assuntos Sociais, primeiro, e a tutelaridade do Ministério, depois.

Medidas como o alargamento da previdência e da assistência a sectores até aí excluídos delas popularizam o seu nome, que passa a ser um ângulo na democracia nacional.

Embaixadora na UNESCO, vê-se convidadada por Ramalho Eanes, Presidente da República, para chefiar em 1979 um Executivo de transição (entre eleições), conhecido como "Governo dos 100 dias".

Seis anos depois cabe-lhe ser candidata à chefia do Estado, desafio que aceita – e que perde para Mário Soares. Vai para o Parlamento Europeu e assume a coordenação da Comissão Independente Sobre a População e a Qualidade de Vida, ao mesmo tempo que se liga ao "Conselho Internacional de ex-Chefes de Estado e de Governo", e ao "Comité des Sages"- de que fazia parte o professor Almerindo Lessa.

Será uma das primeiras vozes a convocar-nos para a urgência de reinventar a democracia (a fim de a não perdermos) e a solidariedade (a fim de não nos perdermos). A perversão da primeira em que, nas últimas décadas, se tornou o regime e a amputação da segunda pelo liberalismo triunfantemente angustiavam-na, crispando-a nos caminhos por onde seguir.

"Como poderemos consciencializar os contentinhos que dominam hoje o País, cheios de privilégios e alienações inamovíveis?", perguntava em períodos de maior perplexidade.

Para Maria de Lourdes Pintasilgo «a evolução, o futuro da democracia dependia não dos antidemocratas mas dos democratas»; do que estes fizessem dela, com ela – coisa que «não parecia preocupar ninguém». Como hoje?

"A Maria de Lourdes acredita nas coisas simultaneamente por fé e por álgebra", justificava-a Natália Correia: "É uma engenheira de utopias".

A Nova VISÃO

 de Margariuda Davim

Os jornalistas da Visão planeiam um negócio "prudente e realista" para os próximos dez anos. A estratégia foca-se na viabilidade económica, evitando riscos financeiros desnecessários. Atualmente, trabalham para a massa insolvente sem acumular novas dívidas no processo. Pelo contrário, o trabalho da equipa tem servido para liquidar passivos anteriores.

A meta de 200 mil euros foi atingida para permitir a compra do título em leilão. 

Radar... voando sobre   TVs internacionais

Gaza: a guerra que não pára

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. 

As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes. 

A suposta paz prometida por Trump revelou-se uma ilusão perigosa, servindo apenas para dar tempo a que a violência se intensificasse sem escrúpulos. 

É uma violação flagrante de qualquer decência humana: a diplomacia falha e o ego dos líderes mata, deixando os mais inocentes à mercê de explosões e do estômago vazio. Enquanto o mundo assiste a este jogo de poder, o silêncio da fome é o grito mais alto de uma guerra que ignora todas as regras..

https://youtu.be/tsCvhIrAL-w?si=Aqnp9L5WWploaPQY


João de Melo

escritor-enfermeiro na guerra colonial

João Tordo

João de Melo nasceu em 1949 na freguesia da Achadinha, ilha de São Miguel, nos Açores. Aos onze anos, deixou a sua terra natal para estudar em seminários no continente, uma experiência de desenraizamento que marcaria toda a sua obra. 

Entre 1971 e 1974, serviu como enfermeiro militar em Angola, vivendo de perto o trauma da Guerra Colonial, tema central no seu romance Autópsia de um Mar de Ruínas. Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, dedicando-se à docência e à crítica literária. 

Durante nove anos, desempenhou funções como conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Madrid. A sua obra-prima, Gente Feliz com Lágrimas (1988), tornou-se um marco da literatura contemporânea, vencendo o Grande Prémio da APE e o prémio da crítica. 

Este romance explora a dureza da emigração e a complexidade dos laços familiares através da família Rodrigues. 

https://youtu.be/drJ8HpnC6aU?si=o65MPJQKRE-YVQTZ

A sua escrita é caracterizada por um estilo poético denso que reflete sobre a insularidade e o destino humano. Em 2016, recebeu o Prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto da sua vasta carreira literária. João de Melo é hoje considerado um dos maiores intérpretes da alma e da memória lusa.

Tordo

Gente Felix com Lágrimas

Gente Feliz com Lágrimas é a obra-prima de João de Melo, narrando a saga da família Rodrigues, da ilha de São Miguel. O romance acompanha o percurso de oito irmãos que, marcados pela pobreza e pela rigidez religiosa, procuram a sobrevivência na emigração para o Canadá e os Estados Unidos. 

Através do protagonista Nuno Miguel, o autor reconstrói as memórias de uma infância humilde, confrontando-as com o desenraizamento e a desintegração dos laços familiares no estrangeiro. A obra explora a dualidade entre o sucesso material e o trauma da partida, tratando a insularidade como uma condição psicológica de isolamento e resistência. 

O título simboliza a resiliência de um povo que, mesmo na prosperidade, carrega o peso da saudade e da perda de identidade. Publicado em 1988, o livro venceu os mais prestigiados prémios literários portugueses, sendo um marco na abordagem da diáspora açoriana. 

É uma narrativa visceral sobre a memória, o mar e o destino de quem parte sem nunca deixar totalmente a ilha. 

https://youtu.be/l3Em2B0hoqQ?si=3bqGMkD8lAriZAki

A escrita de Melo funde o realismo social com um lirismo denso e profundamente humano. Esta saga familiar permanece como um retrato essencial da identidade lusa e das feridas deixadas pela emigração.

À Mesa dos novos Poetas 

Judite Canha Fernandes 

De O Mel sem Abelhas (2025)

Neste trabalho mais recente, a autora explora a crueza da existência e a resistência do espírito:

"Não me tragas flores colhidas no jardim do vizinho, traz-me as ervas daninhas que furaram o asfalto. Há mais dignidade na sobrevivência do que na beleza, mais verdade no grito do que no canto ensaiado. Vivemos num tempo de doçura fabricada, onde o mel é servido sem o perigo do enxame. Mas eu prefiro a picada que me lembra que estou viva, ao silêncio estéril de quem nunca ousou desejar."

"Aprendi a ler o vento antes de saber as letras. Na ilha, o horizonte é uma promessa e um castigo. Rodeados de azul por todos os lados, inventamos caminhos por baixo da água, ou por dentro do peito, onde o mar não chega. Escrever é apenas outra forma de nadar: bater os braços contra o esquecimento até que a margem se decida a aparecer."

Judite Canha Fernandes nasceu no Funchal, em 1971, tendo-se mudado para Ponta Delgada, em 1980. Fernandes licenciou-se em Ciências do Meio Aquático e doutorou-se em Ciência da Informação, tendo também uma pós-graduação em Biblioteca e Arquivo.

Fernandes é uma ativista feminista tendo sido representante da Europa no Comité Internacional da Marcha Mundial das Mulheres entre 2010 e 2016. Foi também foi subscritora da carta aberta "A emergência é social e económica".

É considerada uma das vozes mais multifacetadas e premiadas da literatura contemporânea em Portugal, distinguindo-se pela sua escrita visceral e politicamente empenhada.

De Um Passo para Sulgtfyrtghy

Este livro, embora seja um romance, é atravessado por uma linguagem profundamente poética que reflete sobre a herança colonial e a distância: "A distância é uma forma de ferida que não fecha, um mapa desenhado com o sangue de quem partiu. Olhamos para o Sul como quem olha para um espelho baço, procurando o rosto que deixámos na outra margem. O que sobra de nós quando a terra nos expulsa? Apenas a memória, esse animal faminto, que mastiga o passado até o transformar em lenda."

O Mel sem Abelhas é uma obra visceral que explora a resistência e a crueza da existência através de uma linguagem densa e corporal. 

Judite Canha Fernandes rejeita a doçura artificial do mundo moderno, preferindo a verdade da dor e do "ferrão" como provas de uma vida autêntica. Os poemas funcionam como ferramentas de escavação da memória e do corpo, afirmando a escrita como um ato de legítima defesa contra o esquecimento. É um livro sobre a sobrevivência e a urgência de manter uma voz livre e pulsante. 

A universalização de Paula Rego

. António Brás

O universo de uma das maiores artistas plásticas do século XX pode, actualmente, ser observado em diversos museus ao longo do País através dos seus óleos, colagens, aguarelas, desenhos, litografias e azulejos. Porto, Lisboa, Cascais, Ponta Delgada são algumas das cidades que homenageam Paula Rego através de exposição das suas obras verdadeiramente excepcionais.

https://youtu.be/kvGnwBMDq84?si=X_eQn6mV4aCVjwV6

A pintora surpreende-nos com trabalhos onde nos dá um retrato do seu (nosso) quotidiano actual, nimbado de inquietações, delírios, disfarces, solidão e violência.

No Palácio de Belém destaca-se a capela com um conjunto de obras suas. A pintora baseou-se no Ciclo da Vida da Virgem para criar 8 pastéis sobre a Anunciação, Natividade, Adoração, Purificação, Fuga para o Egipto, Lamentação, Pietã e Assunção. O convite partiu de Jorge Sampaio quando visitou em Fevereiro de 2002 o atelier da artista em Londres.

Paula Rego aceitou de imediato a proposta e, num gesto de invulgar sensibilidade, ofereceu os quadros ao Estado. Antes de virem para o nosso País, eles estiveram patentes na Tate Gallery, em Londres.  No fim da mostra o director da instituição declarou "que os trabalhos não deveriam, dado o seu grande valor artístico, sair de Inglaterra". O interesse 

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suscitado foi tal que Paula Rego recebeu o convite para decorar um igreja inglesa.

A Fundação de Serralves preserva um conjunto de obras da artista. Em 2003 organizou uma grande retrospectiva sua que cobriu toda produção de Paula Rego, sendo composta por obras datadas de 1996 a 2004. 

A presença de Paula Rego nas instituições portugueses tem vindo a acentuar-se. A Casa das Histórias, em Cascais, preserva um espólio fundamental, onde se destaca o desenho.

Os museus do Chiado e o Centro de Arte Arte Moderna da Gulbenkian e a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, em Lisboa, detém obras de grande valor. O mesmo acontece com a extinta Fundação Berardo no CCB.

https://youtu.be/mH8OCT1-lIg?si=8fjO2cFOpcElqxSu

No mercado galerista e leiloeiro as obras de Paula Rego são um investimento seguro, mas elevado. Nos últimos anos ela tornou-se, com efeito, uma das artistas mais bem cotadas entre nós. 

As leiloeiras Cabral Moncada, Correio Velho e Veritas levaram à praça obras da artista por milhões de euros, enquanto em Londres o tríptico Avestruzes e Bailarinas atingiu os quatro milhões de euros na Christie`s, valor que a coloca entre os artistas mais valorizados. 

Como aprender mandarim



Aprender mandarim tornou-se essencial perante a ascensão da China a potência dominante e líder do comércio global. Sendo a língua de negócios do futuro, o seu domínio oferece uma vantagem estratégica única no acesso a mercados e tecnologias de ponta. Mais do que comunicação, é a chave para compreender a nova ordem económica mundial. Investir neste idioma é garantir competitividade num mundo que gravita cada vez mais em torno de Pequim.

ALERTA  Maria João Quadrado, especialista em cirurgia oftalmológica


A arte de curar os olhos

"Portugal com excesso 

de degeneração macular 

e glaucoma"

Maria João Quadrado foi a primeira mulher a presidir à Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. E pedimos-he esta entrevista porque a visão é fundamental na criação artística. Jorge Luís Borges foi uma das excepções, James Joyce esteve perto. Camilo Castelo Branco não resistiu. O mesmo se passou com Filintio Elísio. Homero foi um mito. José Saramago retratou a maior cegueira, que se tornou filme americano. E assim inauguramos um importante espaço à ciência no botequim.pt.

É importante saber o que faz e pensa Maria João Quadrado uma das grandes impulsionadoras da utilização de lasers de última geração e da aplicação de novas técnicas de tratamento doença degenerativa e progressiva da córnea a nível Europeu e mundial. E revele-se: uma amante da boa leitura.

Começamos pela sua primeira escolha literária, Para onde vão os guarda-chuvas de Afonso Cruz. Diz-nos Maria João Quadrado: - Este livro é um monumento à capacidade de ver o próximo para além da própria identidade, combate o preconceito e valoriza a diversidade e a invisibilidade. Afonso Cruz ensinou-me que a perda, seja de objetos ou pessoas, continua a ocupar um espaço existencial. É uma lição sobre empatia e sobre como a beleza pode emergir do trágico e do quotidiano.

Passemos agora à actividade que exerce com destaque europeu e mundial: Os portugueses têm motivos para se preocupar com a saúde visual?

A miopia está a aumentar, especialmente entre os jovens, e a população com mais anos enfrenta um elevado número de doenças como catarata, degeneração macular e glaucoma. São motivos para grande preocupação. 

E já existem estratégias de combate? 

Sim, temos a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia que tem feito campanhas de sensibilização e produção de orientações científicas. Ao mesmo tempo autoridades de saúde atuam ativamente, com ações concretas: rastreios da visão em idade escolar e a gestão das listas de espera para a cirurgia de catarata no Serviço Nacional de Saúde. Assegura Maria João Quadrado numa voz calma que inspira confiança.

As campanhas de rastreio são suficientes para o Serviço Nacional de Saúde conhecer as urgências e actuar?

Existe uma preocupação crescente, embora às vezes tardia. As pessoas tendem a procurar ajuda quando a perda de visão já afeta significativamente a sua vida diária. Os rastreios necessitam ser otimizados. Precisamos de campanhas mais robustas, em especial direcionadas para patologias silenciosas, como o glaucoma ou a retinopatia diabética, as principais causas de cegueira que é evitável.

O caminho para esta deteção precoce e o sucesso da intervenção oftalmológica é a aposta na telemedicina e em rastreios digitais, integrados nas políticas de saúde.

Continuam a existir muitas queixas por excessivo tempo de espera...

É verdade a Oftalmologia é uma das áreas com maiores listas de espera no SNS para consultas e cirurgias de rotina. As cirurgias de catarata são uma das principais causas deste tempo de espera. E eu considero uma grande desafio dar resposta a todos os utentes dentro do tempo regulamentar.

Existe actualmente um grande número de oftalmologistas

O aumento no número de oftalmologistas interpreta-se, em primeiro lugar, como um sinal da necessidade: a população que é mais idosa e também a problemas visuais como a catarata e a degenerescência macular que são cada vez mais prevalentes, volto a frisar.

É uma atração recente?

Não. A Oftalmologia foi sempre uma especialidade muito desejada pelos jovens médicos, porque consegue aliar a tecnologia de ponta à capacidade de devolver a qualidade de vida aos doentes. Este é um motivo de atração muito forte.

E aumentam os oftalmologistas que praticam cirurgia?

A cirurgia é considerada, digamos, bonita e muito gratificante em termos de recuperação. Conseguir pôr alguém a ver é uma felicidade. Imagine o que sentimos perante a felicidade da pessoa que recupera a visão. 

E assim poderíamos dizer que tudo corre bem. Mas não, porque o maior desafio agora é assegurar aos novos especialistas melhores condições de trabalho e formação dentro do SNS. E garantir a sua distribuição equitativa no território.

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A estabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde é suficiente?

Considero que são necessários passos em diferentes vertentes para salvaguardar e valorizar o SNS. As propostas deveriam ser orientadas na valorização dos profissionais, na melhoria da organização e do acesso e também na estabilidade no financiamento.

Por um lado, é essencial valorizar os profissionais, com salários justos e carreiras motivadoras, para conseguirmos fixar os excelentes médicos e enfermeiros formados no país. O SNS deve voltar a ser o empregador de excelência. Numa segunda vertente, é crucial reorganizar os cuidados e focar na resposta atempada. Isso passa pelo reforço dos Cuidados de Saúde Primários e por otimizar a gestão das listas de espera.

Além disso, o SNS necessita de um aumento e estabilidade do financiamento e de uma reforma da gestão. É preciso permitir decisões rápidas e priorizar áreas com elevado retorno, como a transplantação de órgãos e tecidos. Também é fundamental investir na transição digital para aumentar a transparência e eficiência dos sistemas.

E o Serviço Nacional de Saúde tem eficácia funcional suficiente para esse desafio?

O principal desafio do SNS é a sua sustentabilidade a longo prazo. O sistema sofre com a falta de planeamento estratégico de recursos humanos, o que leva à exaustão dos profissionais e à perda de talento, além de ser dificultado pela burocracia excessiva.

Os profissionais de Coimbra têm-se destacado Oftalmologia. Qual é a justificação?

A Oftalmologia em Coimbra tem uma excelência e notável nível científico e clínico graças à profunda e histórica colaboração clínica e académica entre o Hospital da Universidade de Coimbra - atual Unidade Local de Saúde de Coimbra - e a Faculdade de Medicina.

Esta relação cria um micro-ambiente único onde o ensino e a investigação andam de mãos dadas com a prática clínica de grande complexidade.

Estamos perante um reconhecimento unânime da qualidade dos serviços oftalmológicos de Coimbra?

O reconhecimento nacional e internacional da Unidade de Oftalmologia de Coimbra assenta na elevada qualificação da sua equipa clínica, composta por especialistas de todas as áreas da Oftalmologia. A maioria destaca-se como líder de opinião científica, tanto a nível nacional como internacional. Esta equipa assegura uma abordagem integral e multidisciplinar no diagnóstico e tratamento das doenças oftalmológicas. Paralelamente, a UOC evidencia

 uma preocupação constante com a prestação de cuidados personalizados,.

Alia-se, assim, um atendimento rigoroso e humanizado à utilização de equipamento tecnológico de última geração. - algum só existente nesta unidade- bem como à existência de um centro dedicado a ensaios clínicos.

Eu sinto que este alicerce de excelência é amplamente reconhecido pelos doentes e pela comunidade científica . E tem permitido a Coimbra participar e liderar diversos projectos de inovação clínica e científica.

Como é gerida a Unidade de Oftalmologia de Coimbra?

A nossa unidade integra e promove múltiplos estudos e ensaios clínicos de elevado impacto. Nomeadamente na avaliação e optimização da qualidade visual após cirurgia de catarata, no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para o olho seco e patologias da superfície ocular, na investigação avançada de doenças da córnea, incluindo técnicas de transplantação e avaliação de novos fármacos.

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O mesmo sucede na área da retina, com particular enfoque em patologias prevalentes e que podem ser altamente incapacitantes. Falo da retinopatia diabética e a degenerescência macular relacionada com a idade.

Estes projetos reforçam o compromisso institucional da Unidade Oftalmologica de Coimbra com a inovação, a investigação ao mais alto nível e a melhoria contínua da qualidade dos cuidados de saúde prestados a todos os doentes.

Interrompemos agora para voltar à escrita e à paixão pela leitura de Maria João Quadrado.  A visão é muito importante nas artes. A nosso pedido Maria João Quadrado destaca agora um segundo livro.

Aponto Milk and Honey de Rupi Kaur, porque reclama o corpo feminino e o trauma como territórios de escrita legítimos. Interessa-me como ela transforma a vulnerabilidade extrema numa forma de poder e resistência política. Escreve para uma coletividade que foi silenciada.

Na parte final deste livro, sabemos, a autora celebra o amor-próprio e a resiliência da mulher. Aproveitamos para perguntar se sente discriminação na sua profissão.

O setor da saúde em Portugal é marcado por um paradoxo notável: embora a maioria esmagadora dos profissionais e estudantes de Medicina seja constituída por mulheres - mais de 70% na base-, esta representação inverte-se drasticamente nos cargos de topo.

Infelizmente, a discriminação ainda existe e manifesta-se na sub-representação feminina nos centros de decisão, nomeadamente na gestão hospitalar, direções de serviço e liderança académica. É fundamental as mulheres assumirem posições de gestão e liderança.

Como aconteceu no seu caso?

Eu presidi à Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, a Subdireção da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e à gestão do Banco de Tecidos Oculares. Foi não só um serviço, mas um compromisso. A liderança feminina enriquece a tomada de decisão, trazendo perspectivas de gestão, comunicação. E as prioridades tendem a ser mais inclusivas e colaborativas, situações cruciais em ambientes complexos.

A liderança médica feminina já foi testada?

Eu fui ainda fundadora da Women in Global Health Portugal e Women in Global Health - Comunidade Lusófona. São iniciativas vitais para este avanço. Elas nascem da necessidade de criar uma rede de apoio e visibilidade.

As jovens médicas e investigadoras pretendem deste modo equidade no acesso às oportunidades. com competências inquestionáveis.

Através da mentoria, estas posições de liderança tornam-se uma plataforma para mostrar às próximas gerações um caminho aberto e acessível. O objetivo não é substituir a liderança masculina, mas complementá-la e garantindo uma excelência do SNS com a pluralidade de todos os talentos. Quando uma mulher assume um cargo de liderança, representa um avanço sistémico em todas as vertentes.

Como é que se situa dentro da oftalmologia?

A minha melhor realização tem sido a vertente integradora. Ou seja colocar a dedicação e o serviço público na pratica da clínica e da academia. Esta visão manifestou-se em diversas áreas de impacto e liderança, onde a presidência da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia foi para mim um marco.

Ao mesmo tempo ser Professora na Faculdade de Medicina tem-me permito moldar o futuro, através dos meus alunos e das teses de doutoramento.

Em termos de gestão e organização da saúde, ser subdiretora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e gerir o Banco de Tecidos Oculares de Coimbra dá-me a oportunidade de ter um impacto real. Alem disso, adiciono ainda o meu trabalho na Women in Global Health, com plena convicção de que a ciência tem de ser justa e inclusiva.

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Os próximos anos serão fáceis no tratamento dos portugueses com problemas de visão?

A Oftalmologia enfrenta desafios críticos, que ameaçam a sustentabilidade dos cuidados a nível nacional e global, bem como a sua equidade. Em Portugal, o foco principal é a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. 

A nível global, o setor é pressionado pelo crescimento acelerado da Miopia, particularmente em populações jovens.

Por outro lado, a Retinopatia Diabética é um desafio clínico enorme, porque a população de diabéticos está a aumentar a nível global. É necessário, em resumo, um maior foco nas doenças relacionadas com o envelhecimento, como a catarata, a degeneração macular relacionada com a idade e o glaucoma. A resposta a estes desafios terá de ser um grande investimento na prevenção, rastreio, inovação e tratamento.

A terminar pedimos a Maria João Quadrado o seu terceiro livro. A escolha foi Canção Doce de Leïla Slimani.

Para mim Leila Slimani possui uma 'escrita-bisturi'. Destrói o mito da domesticidade perfeita e da maternidade idealizada. Interessa-me a forma como ela expõe as falhas tectónicas da nossa sociedade - o isolamento urbano e a invisibilidade de quem cuida - sem oferecer soluções fáceis ou moralismos.

entrevista de António Brás

a liberdade exige uma certa dose de desordem


Este é um dos poemas mais provocadores de Natália Correia, intitulado "Aviso". É uma peça curta, mas com uma voltagem de sarcasmo e inteligência típica da autora, onde ela critica a passividade e a falta de chama vital.

Aviso

"Cuidado com os que não bebem vinho. Com os que não sabem rir. Com os que não têm um segredo nem um pecado para contar. 

Cuidado com os que não têm sede. Com os que não têm fome de ser. Com os que andam por aí com a alma lavada e engomada. 

Cuidado com os que não têm dúvidas. Com os que não se perdem no caminho. Porque esses são os que, um dia, vos vão vender por um bocado de pão."

 A Crítica à "Alma Engomada"

Este poema é uma lição de antropologia política e social. Natália utiliza o vinho, o riso e o pecado como metáforas para a humanidade autêntica.

A "Alma Engomada": É a imagem mais forte do poema. Natália desprezava a perfeição aparente, a moralidade excessivamente limpa e burocrática. Para ela, quem não erra, não arrisca ou não tem "sede" de vida, é alguém incompleto e, por isso, perigoso.

O Perigo da Falta de Dúvida: Ela avisa-nos contra os dogmáticos e os puritanos ("os que não têm dúvidas"). Na visão de Natália, a ausência de conflito interno e de paixão torna as pessoas frias e utilitárias, capazes de trair os outros ("vender por um bocado de pão") porque não têm uma ligação emocional profunda com a existência.

A Rebeldia como Ética: O poema defende que o "erro" e o "pecado" são provas de que estamos vivos e que temos uma consciência própria, não formatada pelo sistema. É um apelo a que nos rodeemos de gente real, "suja" de vida, em vez de figuras de cartão que seguem as regras apenas por falta de imaginação.

Este texto resume bem a filosofia de Natália: a ideia de que a liberdade exige uma certa dose de desordem e de prazer.

Creio em Ti, ó Noite

Creio em ti, ó noite, mãe do sono, quando o silêncio de mãos dadas com a minha alma em abandono, percorre as galerias desoladas deste castelo que sou eu.

Creio em ti, ó noite, deusa escura, de cuja fronte desce um véu de sombra sobre a minha dor e a minha desventura. Só tu, ó noite, sabes quanto assombra o vácuo de um destino que não é o meu.

Creio em ti, ó noite, e no teu abraço, no teu hálito de terra e de estrelas, que me levam para além do tempo e do espaço. Creio na luz que nasce de te vê-las, quando o dia, enfim, em ti morreu.

Creio em ti, ó noite, e na promessa que trazes escrita no teu manto negro, de que a angústia um dia, enfim, cessa. No teu mistério, ó noite, me entrego, pois só em ti me encontro e sou eu.

O que torna este poema especial?

A Noite como Refúgio: Ao contrário de muitos poetas que temem as trevas, Natália saúda a noite como uma "mãe" e uma "deusa". É no escuro que ela consegue tirar as máscaras sociais e enfrentar o "castelo" que é o seu próprio interior.

O Destino: Ela fala do "vácuo de um destino que não é o meu", uma expressão poderosa sobre a pressão que a sociedade exerce para que sejamos algo que não queremos ser.

A Entrega: É um poema de rendição espiritual. Natália, que era uma mulher de luta constante durante o dia, revela aqui a sua vulnerabilidade e a sua busca por paz.

Este poema mostra a Natália Correia "filósofa", que via na natureza e no cosmos as respostas que a política e a lógica não conseguiam dar.