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Edição de botequim.pt  Agosto de 2026,. 3ª semana


USS Abraham Lincoln entre o lucro e o esgotamento

pergunta: o dilema de Trump pode acelerar o fim da política belicista que nos faz pagar a gasolina tão cara?


A boda de Trump à indústria de defesa próxima da esfera política contrastam com o desgaste crónico das Forças Armadas americanas.

O ataque com drones e mísseis Houthi repelido pelo USS Abraham Lincoln ilustra a vulnerabilidade operacional e a exaustão naval provocadas por conflitos intermináveis no Médio Oriente.

Décadas de destacamentos ininterruptos e operações navais permanentes geraram contratos bilionários para a indústria de defesa e do complexo militar-industrial - frequentemente associada a doadores e grupos de pressão ligados a esferas políticas, incluindo figuras próximas do círculo de Donald Trump.

Os fabricantes de armamento e fornecedores logísticos registam lucros recorde com a reposição de mísseis e a manutenção naval, mas o custo humano e material recai diretamente sobre a capacidade operacional das Forças Armadas americanas


Enviado para o Médio Oriente para dissuadir o Irão e proteger as rotas marítimas no Mar Vermelho e Golfo de Omã, o grupo de combate do Lincoln enfrentou múltiplos ataques de mísseis de cruzeiro e drones lançados pelas forças Houthi do Iémen.

O caso do porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln (CVN-72) tornou-se um dos exemplos mais evidentes desta pressão. 


O Pentágono tenha confirmou que os contratorpedeiros de escolta interceptaram com sucesso todos os projéteis e que o porta-aviões USS Abraham Lincoln não sofreu danos. Mas a intensa campanha de propaganda adversária explorou o evento para questionar a invulnerabilidade dos navios capitais americanos.

Mais do que o risco tático imediato, o episódio do  USS Abraham Lincoln expôs o desgaste crónico da Marinha dos EUA. 

A extensão sucessiva de missões em teatros de alto risco provoca exaustão extrema das tripulações, adia ciclos vitais de manutenção nos estaleiros e reduz a prontidão estratégica global da frota, revelando o fosso entre o lucro político-empresarial e o esgotamento efetivo dos meios militares. jbl

A valentia do Fisco português

A nomeação de um novo líder para a Autoridade Tributária e Aduaneira - a instituição mais poderosa e odiada do país - veio chamar a atenção para o comportamento do Fisco no Portugal de hoje



Refinando a cultura (secular entre nós, em ditadura e em liberdade, em inquisição e em democracia) do despotismo com os desprotegidos e subserviência com os poderosos, a AT precisa de mudar a maneira, ora implacável, ora submissa, com que trata os contribuintes.

Surpreende, na verdade, os critérios que utiliza, pouco próprios numa democracia por arrogantes, por brutais nuns casos, por coniventes, por obscuros noutros.

A um infeliz incumpridor de classe média, logo bloqueia o ordenado, a conta bancária, sem aviso, sem decência, atirando-o, e à família, para situações desesperantes por, quase sempre, insignificâncias em atrasos; a certos poderosos (indivíduos, empresas, associações) amocha, servil, não cobrando milhões, não penalizando ardis e, com todo o desplante, informar não ter capacidade de buscar, só no ano passado, 28,9 mil milhões de impostos devidos, ou seja 47 por cento da receita fiscal.

Economistas revelam, entretanto, que cerca de 40 por cento do equivalente ao PIB nacional encontra-se desviado em paraísos fiscais.

Daí o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos ver-se na necessidade de justificar-se dizendo que "há muito o combate à fraude fiscal está comprometido". E funcionários da própria AT reconhecerem haver "um colapso silencioso da investigação tributária"..

Graças à valentia do nosso Fisco (a extorquir aos que não podem fugir-lhe mais de 40 por cento dos rendimentos), a economia paralela ultrapassa entre nós 30 por cento - e Portugal torna-se o país mais pobre da Comunidade Europeia


Jason Arday, desapareceu o mais jovem professor negro de Cambridge


A pressão pública mata

A dúvida e a pressa no julgamento público podem ter precipitado o fim trágico de Jason Arday, encontrado sem vida a 14 de agosto na sua residência em Battersea, em Londres, na sequência de uma vaga implacável de acusações de plágio e fraude curricular

O caso do sociólogo que se tornou o catedrático negro mais jovem de sempre em Cambridge expôs a velocidade com que a aclamação pública se pode transformar num linchamento mediático e digital destruidor, levantando sérias questões éticas sobre a falta de presunção de inocência, o cancelamento sumário e o impacto devastador de campanhas públicas de descrédito sobre a saúde mental.

A família de Arday expressou profundo choque, declarando que o sociólogo sucumbiu ao peso de uma campanha contínua de desinformação e abuso. O caso gerou uma comoção internacional e reabriu um aceso debate no Reino Unido sobre a pressão no meio  académico, o impacto do escrutínio mediático implacável na saúde mental e as tensões em torno das políticas de diversidade 


e representatividade racial no ensino superior.

Pouco antes da sua morte, Arday acabou por apresentar a sua demissão da Universidade de Cambridge a 5 de agosto de 2026, na sequência do anúncio de abertura de um inquérito formal às suas qualificações, afirmando ter atingido o limite humano perante o ataque sistemático e linchamento público, apesar de rejeitar veementemente qualquer conduta imprópria intencional. 

O académico tinha-se tornado alvo de um intenso escrutínio público e mediático após surgirem denúncias que apontavam para passagens idênticas e falta de referenciação na sua tese de doutoramento, concluída na Liverpool John Moores University, e noutros trabalhos académicos, a par de questionamentos sobre o seu currículo e narrativas pessoais de conquistas desportivas e de angariação de fundos.

Jason Arday (1985–2026) foi um sociólogo britânico que alcançou notoriedade mundial em 2023 ao tornar-se, aos 37 anos, o professor catedrático negro mais jovem da história da Universidade de Cambridge. A sua trajetória era celebrada como um símbolo inspirador de superação, pois, diagnosticado na infância com autismo e atraso global do desenvolvimento, só aprendeu a falar aos 11 anos e a ler e escrever aos 18, tendo chegado ao topo da academia britânica como especialista em sociologia da educação, desigualdade e relações raciais.

D. Manuel I retratado em quadrado anónimo


È possível saber como era fisicamente o rei D. Manuel I se for comprovada a encomenda na Flandres do painel Fons Vitae apresenta em primeiro plano a família real em oração. Em destaque para o próprio monarca, a sua segunda esposa Maria de Aragão e Castela e os respetivos infantes e infantas, ladeando o corpo de Jesus Cristo morto, a Virgem Maria e o apóstolo São João em torno de uma fonte onde se acumula o sangue das chagas divinas.

Esta obra anónima da escola flamenga, realizada entre 1515 e 1517 e atribuída por peritos a Colijn de Coter ou a Bernaert van Orley, constitui uma das mais celebradas peças de pintura a óleo sobre madeira da época, encontrando-se atualmente no Museu da Misericórdia do Porto após ter integrado o retábulo da capela da confraria na Sé Catedral da mesma cidade.

Construída como uma alegoria da Eucaristia num período de intensas trocas comerciais entre o Porto e o norte da Europa, a composição guarda forte paralelismo iconográfico com o Tríptico do Banho Místico de Jean Bellegambe e com uma pintura do século XVII na capela das Santas Chagas da Igreja da Cividade, em Braga, marcada pela citação de Isaías sobre as fontes da salvação. António Brás

Almerindo Lessa

"Quanto mais comemos menos filhos fazemos"


"A idade cronológica de uma pessoa não tem nada a ver com a sua idade biológica. Ninguém soma os anos do bilhete de identidade. Não possuímos a mesma idade em todo o corpo, as minhas mãos, o meu baço, as minhas pernas não têm a mesma duração.

"ESPÓLIO" Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta



"Fomos programados para viver 120 anos, nascemos com uma estrutura genética que o afirma. A partir do momento em que um espermatozóide penetra num óvulo fica marcada a evolução do novo ser, a idade em que vai ter o primeiro cabelo branco, a primeira úlcera de estômago, a data em que vai morrer. 

É um verdadeiro programa de computador que só se altera porque os vírus o invadem. O limite dos 120 anos é dado pelo tempo em que as células se renovam. Algo nos impede, ainda, de o atingirmos ... um acidente, uma doença, um sofrimento, uma angústia, um desgosto de amor.

O corpo humano sofre transformações em cada 300 mil anos, foi assim que chegamos à forma actual. No futuro iremos conhecer novas alterações, não precisaremos de dois pulmões, dois rins, intestinos tão extensos, cores de pele tão marcantes, sexos tão definidos. Se não surgirem doenças, o envelhecer não desmotiva, só por si, o cérebro, apenas lhe retira rapidez.


"Os desgostos de amor continuam, ao contrário do que se diz, a matar-nos. Somos, aliás, um país sentimentalmente roxo, a cor do ciúme, um povo de desdobramento dos sentimentos. A maior parte de nós tem um amor a que se dedica sensualmente e outro a que se dedica espiritualmente, que quase nunca coincidem. Apesar de divididos, é-nos muito agudo o sentido da posse, tornamo-nos capazes de comer com beijos os objectos amados. Se, porém, não nos sentirmos retribuídos podemos falecer de angústia. A pior coisa para nós é a falta de felicidade. 


Por isso os idosos choram muito, emocionam-se muito, sofrem muitíssimo com a ausência de carinho e com o isolamento. Os quintos andares estão cheios de velhos esquecidos, Lisboa é um terceiro mundo ao domicílio. A sua solidão, o seu abandono são por vezes totais. Sentem-se seres despedidos, despedidos pela sociedade e pela família, sente-se inaproveitados, desarticulados, rejeitados, desintegrados economicamente, politicamente, eroticamente. Dizer que os idosos não amam, não necessitam de afagos é uma enormidade. O amor existe em todas as idades.


"Portugal, com cerca de l 4 por cento da população acima dos 65 anos, faz já parte do chamado clube dos velhos, o que podia ser um factor de riqueza se os encarassemos de maneira diferente, como fazem outras civilizações, até porque se envelhece-se mais devagar. A Terceira Idade principia aos 75 anos, ganhou-se já uma década.

"Das três grandes explosões ocorridas na humanidade, a marxista, a atómica e a demográfica, é a demográfica que vai alterar toda a nossa vida. A Europa será, dentro de escassos anos, dominada pelo quarto mundo, um mundo composto por três gigantescas maiorias: a dos séniores activos, a dos desempregados compulsivos e a dos imigrantes de África e Ásia. 

A união delas constituirá o maior fenómeno sociológico, cultural, político, económico de sempre. As pressões que exercerão mudarão profundamente as estruturas existentes de trabalho, lazer, produtividade, saúde, convívio, transporte, urbanismo, previdência, assistência.

"O controlo da natalidade tornou-se, consequentemente, um problema cada vez mais premente. Só se pode, porém, lutar contra ele alimentando eficazmente as pessoas. Daí dizer-se que qunto mais comemos menos filhos fazemos. Quando há falta de determinadas proteínas, as hormonas sexuais não são queimadas pelo fígado o que provoca grande excitação ... um dos processos de aumentar, por exemplo, a fecundidade dos porcos e das galinhas é pô-los em regime de sub-nutrição.

"Dar comida, agasalho, habitação, trabalho, assistência a todos os que existem, e aos que não param de nascer, implica sacrifício da natureza, das águas, das árvores, da atmosfera, do clima. As florestas precedem as pessoas, os desertos acompanham–nas, avisava Chateaubriand.

"O homem é um poluidor por condição. As hecatombes ocorridas são consequência da sua natalidade incontrolável. A natalidade baixou entre nós porque subimos socialmente (a pílula ajudou), ao evoluir-se evita-se procriar. Os descendentes dos imigrantes que nos procuram hoje vão passar, amanhã, pelo mesmo, até pelas dificuldades, pela insegurança que crescerão. As pessoas não se sentem dignificadas, não vêem reconhecida a sua experiência de vida, preciosíssima licenciatura que em vez de ser utilizada é depreciada.


"Os responsáveis não mostram, porém, disponibilidade para estes problemas, limitados como estão nos seus cargos, nas suas redomas, nas suas filosofias mercantilistas e imediatistas. Julgam que tudo se resolve com dinheiro, com produtividade. Ora o nosso maior problema não é esse, é o da desumanização, o do desequilíbrio da ecologia, como a do envelhecimento. É incompreensível que não tenhamos uma ecologia do envelhecimento".


Biografia

Nascido no Porto a 31 de Agosto de 1909, doutorado em Medicina naquela cidade e em Ciências de Gerontologia na Universidade de Toulouse, Almerindo Lessa tornou-se um especialista de projecção internacional, pelo seu pioneirismo, nas áreas a que a que se dedicou, com ligações especiais às universidades de Évora e de Brasília.

Ntre as suas obras, destacam-se os ensaios "O Homem Cabo-Verdeano", "Um Médico, o seu Mundo e os seus Fantasmas" e "Anthroposociologie de Macau".

Faleceu em Lisboa a 11 de Abril de 1995. 

Oiça neste Verão    


foto e cartoons publicados por Carlos Fino no Face

Sócrates: temos um homem 

a caminho de ser mártir

O arrastamento do processo que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, há mais de uma década, deixou de ser um caso de aplicação da justiça para se transformar num espetáculo inaceitável. 


Assiste-se a um cenário incompreensível: jornalistas a exiberem  o acesso direto a documentos trancados a sete chaves num cofre-forte da justiça

Estas fugas de informação cirúrgicas e sistemáticas revelam uma conivência perigosa entre elementos do aparelho judicial e a comunicação social, transformando o segredo de justiça numa comédia.

Ao ser alvo desta máquina de trituração, José Sócrates começa, inevitavelmente, a erguer-se como um mártir da justiça portuguesa. 

A forma como têm sido atropelado ao longo dos anos, faz de José Sócrates, símbolo dos injustiçados. Um espelho desconfortável do sistema judicial.

Para quem ainda acredita na história dos 35 milhões, vale lembrar que um Berardo (nos seus 990 milhões de dívida confessada da Fundação na Assembleia da República) seria o equivalente a 28 Sócrates. Se algum dia forem provadas as acusações contra o "menino de ouro" do PS. jrr

AUMENTO DOS COMBUSTÍVEIS E A MINHA REVOLTA:A idade e a vida domesticaram o meu espírito revolucionário. Hoje, desiludido com aquilo que a política nos oferece, cansado de escutar medíocres e gente vulgar que são líderes de capelas partidárias, cansado da demagogia barata, do populismo sebosos, vivo em abstenção. 

Não os vejo, não os escuto, numa manifestação militante de mudar de canal de televisão cada vez que um deles aparece. Porém, no fundo das minhas forças dei por mim a vibrar com um grito de revolta. Os combustíveis vão aumentar, outra vez, na abertura desta semana. AUMENTAR! Neste momento, o barril de petróleo está ao preço de antes da guerra de Trump contra o Irão. Em vez baixar, as empresas aumentam os preços com a cumplicidade do Governo e dos partidos da Oposição. 

Silêncio absoluto. Compromisso com as grandes empresas petrolíferas, sem compaixão pelos consumidores. É infame! Um insulto a quem trabalha! 

Miguel Sousa Tavares

Trump ordena... e nós cumprimos

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Menina carrega irmã 

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes. 


Cisjordânia na mira de Isra3l


Trump na belinda dos cartoonistas

Natália Correia: à vida breve não perguntes

De Amor nada Mais Resta que um Outubro

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia, in "Poesia Completa"

O Espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
Natália Correia, in "Poesia Completa"

0 mundo lisboeta de  Natália Correia


Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.

Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).

Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.

Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa. 

Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos. 

"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".

O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.

Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor. 

Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.

Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.

O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.

A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.

Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".

Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".

A  autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos DiasNa noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.

Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.


Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.

Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.