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Edição botequim.pt de 26 de Abril a 30 de Abril de 2026, com actualizações diárias


Trump alvo de tentativa de atentado

Um homem armado tentou atingir Donald Trump durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, no Washington Hilton. O suspeito, identificado como Cole Tomas Allen, ultrapassou uma barreira de segurança e efetuou disparos na zona dos detetores de metais. Um agente do Serviço Secreto foi atingido no colete balístico, mas não sofreu ferimentos graves. 

Trump e a primeira-dama foram retirados ilesos do local. Allen foi imobilizado e detido com armas de fogo e facas. Este evento sucede o atentado de julho de 2024 na Pensilvânia, onde Trump foi alvejado na orelha, e outro incidente em Mar-a-Lago em fevereiro de 2026. 

Após o ocorrido, Trump realizou uma conferência de imprensa e publicou vídeos para relatar o episódio. Líderes internacionais emitiram notas oficiais de apoio, condenando o uso da força em contextos políticos. As autoridades mantêm o suspeito sob custódia enquanto investigam as motivações do ataque. 

ICE ganha World Press 2026


A vencedora da World Press Photo of the Year de 2026 é a fotógrafa norte-americana Carol Guzy, com a imagem intitulada Separated By ICE, captada a 26 de agosto de 2025 no edifício federal Jacob K. Javits, em Nova Iorque. A fotografia regista o momento angustiante em que Luis, um migrante equatoriano, é detido por agentes da imigração após uma audiência em tribunal, enquanto as suas filhas se agarram a ele desesperadas. Entre os vencedores e finalistas deste ano, que contou com mais de 57 mil fotografias de 141 países, destacam-se também Saber Nuraldin, que captou palestinianos a cercarem um camião de ajuda em Gaza, e Victor J. Blue, que retratou as mulheres indígenas Maya Achi na Guatemala após vencerem uma batalha legal de 40 anos. O prémio reforça a importância do testemunho visual em zonas onde a história acontece, muitas vezes, sem outras testemunhas, premiando imagens que denunciam políticas sistémicas e celebram a resiliência humana.

Carol Guzy já ganhou 4 Pulitzers

Carol Guzy é uma das fotojornalistas mais respeitadas do mundo, sendo a primeira profissional a conquistar quatro Prémios Pulitzer. Antiga enfermeira, transpôs essa sensibilidade humanitária para a lente, focando-se no sofrimento e na resiliência em cenários de crise ao serviço do The Miami Herald e do The Washington PostOs seus Pulitzers, atribuídos entre 1986 e 2011, documentam eventos históricos como a erupção do vulcão Nevado del Ruiz, a crise no Kosovo e o sismo devastador no Haiti. Atualmente a trabalhar para a ZUMA Press, Carol continua a ser uma voz visual indispensável na denúncia de injustiças sociais.

Em 2026, o seu legado foi novamente consagrado ao vencer o World Press Photo of the Year com a imagem Separated By ICE. A fotografia regista a detenção de um pai migrante perante o desespero das filhas em Nova Iorque, servindo de testemunho cru sobre a dureza das políticas de imigração. A sua carreira é marcada por uma empatia profunda, provando que o fotojornalismo é uma ferramenta vital para dar visibilidade aos esquecidos da história.

.Ruy de Carvalho 

aguenta 'ratoeira'  de 3 horas 

o actor mais idoso do mundo


Foi um acontecimento extraordinário! Ruy de Carvalho, aos 99 anos, subiu aos palcos com a peça "A Ratoeira" no Coliseu Porto, que foi muito longa. 

O encenador Paulo Sousa Costa não teve em conta que 3 horas de espectáculo é um excesso para o público, uma tormenta para os actores e foi um risco enorme para a saúde de Ruy de Carvalho Este regresso acontece após um período de recuperação do ator, que sofreu um AVC em dezembro de 2025. 

A Ratoeira é um clássico de Agatha Christie. 

Ruy de Carvalho interpretou o papel de Major Metcalf. A escolha desta peça permitiu ao ator estar presente em momentos-chave sem grande exigência física. Houve, no entanto, 2 extensos momentos em que Ruy de Carvalho permaneceu isolado e calado do lado direito do palco. Ruy de Carvalho deveria ter ficado sempre no centro do palco.

O alvo não era A Ratoeira, mas Ruy de Carvalho. Em vez de se moldar a peça ao actor mais velho do mundo, imitou-se o que acontece há 73 anos todas as noites em Londres. É importante frisar, Ruy de Carvalho tem 99 anos de vida e 79 de actor. O Coliseu do Porto esgotou, mas em rigor foi para vermos este homem extraordinário. Os olhos de todos os espectadores estavam nele. E só nele. jrr

O ator nasceu a 1 de março de 1927, em Lisboa, e fez 99 anos em março deste ano. É oficialmente o ator mais idoso do mundo ainda em atividade.

Poesia, Liberdade e Democracia, 

a receita de Alegre


Alegre pôs o dedo na ferida, precisamos de poesia para vencer os  ditadores de hoje. Em vez de armas, eles usam a sedução das palavras demagógicas para minar a liberdade por dentro.

O 25 de Abril foi o começo dessa liberdade, coisa igual a qualquer país da Europa ocidental. Pode ter sido mais, mas a mudança para um sistema do Estado Democrático de Direito foi, por si, muito importante. 

Em 1974 já não era possível criar mais desenvolvimento económico, Portugal estava isolado mesmo nas relações comerciais.  E a guerra nas colónias foi feita à custa de 10 mil jovens mortos, forçados a serem soldados em terras de África.

Morria-se para defender os interesses dos grupos económicos portugueses, que já tinham sido negreiros. Só viver nas colónias com "carta de chamada". Não existiam "redes", nem canais de TV a cores, nem auto-estradas e muitas vezes nem sequer frigorifico.

As únicas falas permitidas eram sobre futebol. Mas o Benfica tinha de ser encarnado, porque dizer vermelho dava direito a noite passada nos calabouços da PIDE, polícia política. Manuel Alegre veio alertar para a perversão da linguagem, onde a mentira e o ódio contaminam a palavra até a tornar estéril.

Restaurar a poesia é descontaminar a imaginação e impedir que nos voltem a ditar o que podemos ou não escrever.  Alegre reivindica a palavra como instrumento único, para resistir à mentira e ao novo autoritarismo que teme o poder da criação livre. jrr

A desilusão com o regresso dos caciques e dos predadores

Eu estava lá. No dia em que nos libertámos do pesadelo e sonhámos. Deitámo-nos com um País que mal sabia ler, que trabalhava de sol a sol. Um País pelintra, excluído, longe de tudo. Com fome. Com mordaça e vestido de luto. 

Que possuía um Império com meias rotas e roupagens de vagabundo. E presos e exilados. Que partia para a beterraba em França ou na Suíça. Vestido de xailes negros e lágrimas de quem partia para a guerra.Acordámos, nesse dia, sobressaltados com o rugido do sonho. Um sonho vivo, feito de chaimites, de soldadinhos e capitães, um povo em brasa que gritava por um destino. Um sonho que garantia o fim da guerra, a chegada dos livros, a multiplicação dos pães e das escolas, da alegria trocada pelo velho cansaço. 

Um sonho que nos empurrava para a Liberdade.Foi de tal modo grande que, meio século depois, ainda ressoa na memória daqueles que o viveram. Agora celebra—se um indiscutível paradoxo. Recordamos o sonho, que em boa parte se realizou, mas o tempo indomável foi corroendo o próprio tempo. 

Como sempre – foi sempre assim! – devagarinho, usando as palavras sagradas desse tempo, os caciques recomeçaram a instalar-se. Esgravatando os trigais da esperança, oferecendo joio por pão. A mediocridade tornou a vencer. Agora com vestes de democratas. 

Ilustres e luzidios ignorantes que tomaram o lugar dos sonhos mais generosos. A revolução que obrigava a trabalho e estudo, substituída pelo vazio das palavras apressadas e sem sentido.Evocamos o 25 de Abril, esse sonho demasiado generoso, entorpecidos pela rotina, essa arma fabulosa que derrota qualquer caminhada de utopias. 

Embora habitados pela enorme desilusão com o regresso dos caciques e dos predadores, os cravos dessa madrugada terão murchado, mas não morreram. Porque os sonhos não morrem.Eu estava lá. E sei. Naqueles dias construímos o maior legado que poderemos deixar aos nossos filhos e netos: o caminho doce da Liberdade!

América contra a América

Batota à vista na América


Apostar em Trump 

na empresa de apostas de... Trump!


O filho de Trump lançou a rede de apostas Truth Predict, para lucrar com os atos do próprio pai. É o auge da política dos sem-vergonha. Enquanto esta elite transforma o Estado num casino, a América mantém 25 milhões de pessoas sem casa, abandonadas à própria sorte.

Esta promiscuidade ganhou rosto com Gannon Ken Van Dyke, libertado na Carolina do Norte. Dyke é acusado de usar segredos sobre o rapto de Maduro para lucrar no Polymarket. Os ganhos foram tão precisos que chamaram a atenção pública logo após o raid à Venezuela.

O Congresso investiga agora apostas "proféticas" sobre a guerra com o Irão e decisões de Trump. O governo apoia este mercado enquanto o filho do presidente é conselheiro e acionista das plataformas. 

Com a Truth Social a lançar o seu próprio sítio de apostas, o ciclo fecha-se: a política externa virou ficha de jogo numa mesa onde a família Trump dá as cartas e recolhe o lucro.

Quando Portugal entrou na Grande Guerra, esta já não era o conflito bélico com que todos os rapazes sonhavam, convencidos de que "estariam de volta a casa pelo Natal, cobertos de poeira e de glória." Era também a guerra do senhor Afonso Costa, travada em França para, assegurava ele, defender as colónias de África. Caso Portugal não participasse no conflito, poderia ver o seu império ultramarino repartido pelas potências vencedoras.

A guerra não declarada, em África, tinha absorvido milhares de soldados que agora era necessário substituir rapidamente para enviar para França. Com a sua preparação, o Governo gastou o vultuoso empréstimo de dois milhões de libras concedido pela Grã-Bretanha para compra de trigo, como contrapartida para o aprisionamento dos setenta e dois navios alemães ancorados no Tejo.

Mas o tão propalado "milagre de Tancos" limitara-se a enviar os homens para a frente de combate carenciados de tudo: de fardamento apropriado para o frio insuportável das trincheiras, geladas e enlameadas, com temperaturas que chegavam aos vinte graus negativos; de calçado adaptado à lama e ao frio insuportável, tendo chegado ao ponto de cada um remendar as suas botas; de armamento moderno; mesmo, de instrução, tiveram de ser os ingleses a enquadrá-los, a treiná-los, a armá-los e a alimentá-los com a carne enlatada que os estômagos dos soldados portugueses toleravam a custo.

Face à derrota do CEP – por falta de meios para a sua preparação e para a sua manutenção na linha da frente, que o Estado lhe não forneceu, como, mais tarde, aconteceria também em África, e à grave crise social e económica que graçava no país provocada pela guerra onde Portugal não tinha necessidade de entrar e que dividira os portugueses, que apoiavam a guerra em África, mas eram contra a intervenção de Portugal em França –, deu-se início à mitificação da batalha de La Lys para fazer esquecer o desastre militar, coroado como uma segunda Alcácer Quibir envolta em glória. 

La Lys encerrou o ciclo de derrotas portuguesas na Grande Guerra iniciado em Naulila, em 1914, num inóspito lugarejo do Sul de Angola, onde ocorreu 



"Muita porrada, muita porrada, muita porrada," segundo o testemunho do Soba da Douga, que se deveu à pouca gente e ao pouco armamento de que dispunha o tenete-coronel Roçadas, não obstante os seus insistentes pedidos para que lhe fossem disponibilizados mais meios, que o ministro da guerra, general Pereira d'Eça, recusou enviar-lhos.

 Os mesmos pedidos, também desatendidos por Salazar, viriam a ocorrer na queda de Timor e da Índia.A participação de Portugal na Grande Guerra não passou, pois, de uma batalha da longa Guerra Colonial, travada na Europa, longe do território de qualquer das suas colónias.

A Guerra Civil espanhola foi um conflito em que o Estado Novo se viu envolvido, também na defesa do seu império colonial africano.

A vitória da Falange, além de ter garantido a continuidade do Estado Novo e de ter salvado Portugal de um regime comunista, foi igualmente fundamental para assegurar a manutenção do Império colonial português em África, como corrobora Maria José Tiscar: "Sem o auxílio do regime de Franco, Portugal teria tido maiores dificuldades em manter durante tantos anos a sua presença nos teatros de operações africanos." 

O apoio de Franco a Salazar, concedido no maior secretismo, revestiu, igualmente, a vertente diplomática, em especial a defesa de Portugal nas Nações Unidas, não obstante o Caudilho adotar uma posição pública de apoio à autodeterminação das colónias portuguesas para satisfazer as pretensões do mundo árabe e dos países latino-americanos; na vertente propriamente militar da Guerra Colonial, foi essencial através do fornecimento de armamento espanhol e da intermediação da Espanha na aquisição de material bélico em países terceiros que se recusavam a vendê-lo diretamente a Portugal.

A Guerra Civil espanhola foi igualmente uma batalha da Guerra Colonial travada na Península Ibérica, fora do território de qualquer das colónias africanas e asiáticas, tal como o Corpo Expedicionário Português combateu em França em defesa de Angola e de Moçambique para frustrar a sua partilha pelas potências beligerantes, na sequência do tratado secreto celebrado entre a Inglaterra e a Alemanha.

O Estado Novo e o Império acabaram, finalmente, por escorar-se um no outro: Salazar conservava as colónias, estas asseguravam a sua manutenção no poder.

Se a Grande Guerra havia de ditar a queda da Primeira República, a Guerra Colonial, quarenta anos depois, ditaria igualmente a queda do Estado Novo.

Edição botequim.pt de 17 de Abril a 22 de Abril de 2026, com actualizações diárias


Editorial 

Conservar a sardinha

A relação com o passado tem-nos sido uma obsessão ao longo de séculos, ora exultando-o, ora denegrindo-o, o que bloqueia a criação,


Ao ser, um dia, abordado por jovens em campanha contra o colonialismo e o racismo, os descobrimentos e as obras que os glorificam, Agostinho da Silva, não disfarçando a ironia, atalhou não lhes subscrever os propósitos pois nunca quis deitar abaixo os Jerónimos, a Torre de Belém, o Padrão dos Descobrimentos, nem censurar Camões, Padre António Vieira,

Fernando Pessoa. Era, aliás, "um conservador da nossa história", só que "conservava a sardinha, não a lata. A lata é para vocês". E desandou.As estratégias de infantilização e auto-flagelação em curso, insufladas pelo correcto nos comportamentos, fomentam preconceitos contra a idade, o passado, a memória, profundamente nefastos à nossa afirmação. 

A sociedade portuguesa está a ser, com efeito, fatiada em ricos e pobres, esquerdas e direitas, jovens e velhos, empregados e desempregados, públicos e privados, internacionalistas e nacionalistas, fenómeno acentuado a partir da década de oitenta do século XX, pelo cair das utopias revolucionárias, o subir da ostentação do dinheiro e do poder, a marginalização da cultura (especialmente da literatura, apesar do Nobel de Saramago), o menosprezo pela lisura, pelo trabalho, pela competência.

Quase sem motivos disparam-se hostilidades , os outros são tornados inimigos, sobretudo se diferentes, o egoísmo faz-se intransigência, a insegurança violência, os poderes perdem ética, as corrupções legalizam-se, a demagogia institucionaliza-se.Ao provocar-se a desmemória, ou a culpa por ela, ao cobrarem-se vinganças por feitos de outros (de que as gerações



posteriores não são responsáveis) abrem-se energias desagregadoras do futuro.

A relação com o passado tem-nos sido uma obsessão ao longo de séculos, ora exultando-o, ora denegrindo-o, o que bloqueia a criação, por exemplo, de um museu celebrante, não tanto dos Descobrimentos como pretendem alguns, mas sim das Navegações como defendem outros, entre os quais Agostinho da Silva, Natália Correia, Jorge de Sena, António José Saraiva, António Quadros, Miguel Torga.

Foram, na verdade, elas, navegações - como acto superior de cultura (de ciência, de engenho, de coragem, de tecnologia) - que universalizaram para sempre Portugal. Um pequeno país de milhão e meio de habitantes, a maioria analfabeta e pobre, ousou meter-se ao desconhecido e, desatando os fios do futuro, mudar o mundo.

Ao perceberem que os romanos, depois de haverem colonizado a Ibéria, de terem construído estradas, imposto leis, alterado quotidianos, eram incapazes de avançar pelo Atlântico, os habitantes desse pequeno país lançaram estradas, outras, sobre a água, ou seja naus e caravelas que os levaram para lá do conhecido inventando, supremo prodígio!, a navegação contra o vento (à bolina, com ajuda dos árabes que a praticavam nos seus rios), maneira de percorrer todas as distâncias marítimas, o que fizeram em poucas décadas, num dos feitos mais notáveis da humanidade.

As navegações não devem ser fundidas nos colonialismos, esclavagismos, pilhagens, matanças, conversões religiosas. A história não é só a dos vencedores e vencidos, dos maus e bons, é também, e acima de tudo, a dos retirados dela, por ela, sem notícia, os que, colonizadores, subiram a civilizadores. Por isso tantos dos outrora submetidos por Portugal procuram agora refúgio nele.

Se queremos caminhar para o futuro temos, advertia Natália Correia, de atravessar o passado e compreende-lo antes de julgá-lo.

No cinema City

A 30 de Abril estreia DAMAS de Cláudia Alves

Damas acompanha um grupo de mulheres que se reúne diariamente num jardim de Lisboa para jogar damas, transformando o tabuleiro num espaço de resistência e partilha. Através dos seus gestos e conversas, o filme revela as histórias de vida, as solidões e as alegrias de uma geração que encontra no jogo um antídoto para a invisibilidade. 

Cláudia Alves é uma realizadora de olhar atento à identidade e memória coletiva. No filme Damas, captura a essência da amizade e da resistência feminina através de um grupo de mulheres que partilha a vida em torno de um jogo de cartas. 

A sua abordagem é humanista e despretensiosa. Dá voz a gerações muitas vezes invisibilizadas. O seu trabalho destaca-se por uma estética que honra a tradição oral portuguesa. É uma cineasta que utiliza o cinema como uma ferramenta de empatia e preservação cultural. A sua direção em Damas prova que o grande cinema pode nascer da simplicidade dos gestos.

Aljubarrota

Mais fácil vencer Castela

do que Kristina

A zona da batalha de Aljubarrota, referência histórica, identitária do País – nela foi, ao serem derrotadas as hostes castelhanas, reconquistada a nossa independência – não resistiu aos recentes temporais, sendo uma das áreas mais atingidas por eles.

O município que a integra, Porto de Mós, reportou prejuízos de mais de 15 milhões de euros, 11 dos quais no seu precioso património, caso do Centro de Interpretação da Batalha, tendo o Governo declarado o local como situação de calamidade.Dizem que outrora, além do vento, também o mar chegava a Porto de Mós, daí terem-lhe posto o nome de Porto a que juntaram a palavra Mós, por se fabricarem na zona mós de excepcional qualidade para moinhos de vento e água.

Foi no seu território que se encontraram nas vésperas da batalha de Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385, D. João I e D. Nuno Álvares Pereira.Numa ala do castelo, o Rei e o Condestável ultimaram tácticas de combate a usar contra o invasor que, entrado pelo nordeste, descia para sul, rumo a Lisboa, com o objectivo de tomar a coroa portuguesa. Nuno Álvares escolheu para passar, com as suas hostes, os dois últimos dias, sábado e domingo, na vila. Gostava dela, da sua ondulação, da sua suavidade.

Orou longamente mas não descansou. Com um grupo de cavaleiros percorreu as redondezas a fim de localizar o local para o confronto. Situou-o em São



 Jorge, a 10 quilómetros da vila e a 12 da povoação de Aljubarrota. Entre colinas, o terreno estreitava-se aí, inclinado, o que ajudaria a jugular a passagem dos agressores. 

Devidamente armadilhado (com fossos e covas) permitir-lhe-ia, através da técnica do semiquadrado, que adoptara e adaptara, lançar ondas sucessivas de ataque, de perturbação (a luta chegou a desdobrar-se por dois planos) aos inimigos, três vezes superiores que os seus.

A astúcia resultou em pleno. Cerca de meia hora foi suficiente para decidir o resultado que, pela segunda vez na nossa História, rubricou a independência de Portugal face a Castela - a única das nações hispanas a consegui-lo até hoje.

Tanto D. João II como Nuno Álvares Pereira quiseram assinalar no local o acontecimento. O primeiro edificou o grandioso Mosteiro da Batalha, o segundo a modesta ermida de São Jorge. 

Grupos escultóricos de lanças apontadas obliquamente para cima (as forças espanholas assentavam na acção dos cavaleiros, as portuguesas na dos peões) levantam-se na área da mítica refrega, que eternizam ante o passar do tempo e da memória.

Será que vencer (agora) o Kristina é mais difícil do que vencer (outrora) os espanhóis? perguntam, ironizando, locais agastados com a demora na reconstrução das suas vidas. E questionam: Seriam os portugueses de então mais expeditos do que os actuais?

Zuckerberg quer destruir as Democracias

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Henrique Prior:   médicos e jornalistas mortos em Gaza

Workers of world

300.000 pessoas nas ruas de Roma, contra o genocídio na Palestina e a guerra no Irã. No meio da cidade, na rodovia da cidade. Jovens e velhos juntos, animados, barulhentos e determinados.Um protesto também contra o governo Meloni e todos os governos que estão saqueando o mundo com guerras para impor os interesses do capital global.Obrigada Roma, te amo muito

Educação. Já saiu um número especial da Workers of the World sobre educação, que coordenei, tem artigos de Roberto Leher Roberto Valdés Puentes, entre outros. Esta revista académica é editada pela Associação Internacional de estudos das greves e dos conflitos sociais. A edição é do João Carlos. E a tradução da entrevista que realizámos a Carlos Fernandez Liria em inglês pelo António Simões Do Paço.

A informação é poder. Sempre foi. Foi por o perceberem que os sumérios desenvolveram a escrita, para codificar o que era importante. E é por isso que durante séculos os saberes da leitura estiveram reservados a uma elite reduzida em quase todas as partes do mundo. 

Ainda assim, talvez nunca tenha existido um momento na História da Humanidade em que a concentração de riqueza e poder tecnológico estivesse nas mãos de um número tão reduzido de pessoas. Segundo a Oxfam, em 2026 os 12 mais ricos do mundo, com Elon Musk à cabeça, têm mais riqueza do que metade da Humanidade junta.E é por isso que tenho a certeza de que a verdadeira revolução será analógica. 

Não a do deslumbramento acéfalo da tecnologia, mas também não a do ludismo em luta contra as máquinas. A revolução de que falo é aquela que nascerá da resistência do saber e do pensamento. 

Aquela que virá da consciência profunda do que é ser humano e da urgência absoluta de lutar por isso, da resistência ao poder de poucos e da construção de um mundo mais justo e melhor, que, sim, ainda é possível. O analógico é o novo punk.



Conheci-o, um dia, no Palácio de Belém, onde estive a convite do presidente Mário Soares, por ocasião de um evento celebratório não sei de quê. Um acaso feliz juntou-nos aos dois na varanda do salão, e aí estivemos brevemente à conversa. Maia já então era para mim um ser único, que eu considerava como o grande herói contemporâneo do país. 

Heróis houve outros, não muitos nem iguais a ele. Maia foi o único que não teve, ou não quis ter, consciência disso. Os heróis não se fazem por medida nossa. Desprendido de glórias, simples como nós, nunca fez por chamar a si as luzes nem os louros com que outros se pavoneiam. 

Pessoalmente, tal e qual a ideia que eu dele fazia. O físico sólido, a voz, os olhos, as mãos nos bolsos, os ombros fortes, o corpo mais para o baixo. Queixou-se de estar a ser rebaixado no quartel – onde, disse-me, já só faltava mandarem-no varrer a parada e recolher o lixo. 

Às tantas, Soares chegou-se a nós, e ele voltou à carga: «Falta prenderem-me, tudo o resto já eles fizeram de mim.» E então o presidente levantou para ele um dedo avisado e sério. «Alto aí, meu amigo! Antes de o prenderem a si, terão de me prender a mim primeiro, ouviu?» (in «Novas Fases da Lua", 2025, pág. 129, Publicações Dom Quixote)

Salgueiro Maia de braços abertos, entre entre tanques prontos a disparar,. pede rendição da força militar da contra revolução. Coragem!

O melhor que sei fazer.. é sonhar

Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer

"Dói-te alguma coisa?-Dói-me a vida, doutor.(...) -E o que fazes quando te assaltam essas dores?-O melhor que sei fazer, excelência.-E o que é?-É sonhar."

o caríssimo antónio espírito santo foi desencantar nos arquivos da RTP uma mão cheia de minutos mudos sobre a ruidosa estreia da fita 'Bonança & Ca.', no esplendor do Odeon em 1969. 

o filme diz-se perdido. ou melhor, ainda consegui traçar-lhe o enredo por um cinematógrafo ambulante que teve as bobines envoltas numa tela branco-sujo e deu a ver o portento país fora. 

depois perdi o rasto da bonança, da companhia e do feirante. andamos de cavalo para burro à procura do filme vai para 60 anos. pessoalmente não tenho muitas, mas dou alvíssaras a quem lhe saiba do paradeiro. e deixo a foto do nosso momento de passadeira vermelha, eu e o irmão fernandinho, ele já dado ao petisco... 

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https://arquivos.rtp.pt/cont.../estreia-do-filme-bonanca-ca/

Cartoonistas americanos 'olho' em Trump

Santuário para Rafeiros 

no Alentejo

O Tango já está num santuário, para passar os seus últimos tempos neste mundo em liberdade, junto de pessoas e com outros amigos. O Tango é um cão com bastante idade, viveu muito tempo em canil, connosco apesar de ter algumas saídas diárias vivia preso a maior parte do dia. 

E o Tango é um cão de planícies a perder de vista, não merecia morrer num canil. Já algum tempo estava previsto ele ir fazer parte do Monte dos Vagabundos - Santuário Animal e o Tango adaptou-se muito bem aos novos amigos. O Tango serás agora super feliz Tango. E já tem o seu buraquinho reservado, tanto que ele gosta de fazer buracos e deitar-se neles

link facebook.com/rafeiritosdoalentejo/posts/há-2-semanas-fomos-levar-o-nosso-querido-tango-para-um-santuário-para-passar-os-/1330348399130736/

Barco-Atelier de Monet volta a Quai d'Órsay


Entrei no Museu d'Orsay para ver a "novidade", o "Barco-Atelier" de Claude Monet. Os objetos deveriam ser úteis, arrumados na sua função de "arte". Mas este Monet toca-me. É insuportável. Sinto as pinceladas da água como se fossem bichos vivos que me fitam do centro da sala.

Olho para a massa de tinta de Monet, para aquele empastamento que esteve escondido décadas, e sinto o mesmo enjoo doce que me invadiu à beira-mar. É uma náusea nas mãos. A existência do "Barco-Atelier" desvendou-se de repente, perdeu o seu aspeto inofensivo de "impressionismo" ou de "categoria histórica": era a própria massa das coisas, uma abundância obscena de azuis e verdes que não pede licença para ser.

Os críticos falam de luz e de reflexos; mas esse é o mundo das explicações, e ele nada tem a ver com a existência bruta daquela tela de Monet

O museu é gratuito. Paris, lá fora, é gratuita. E eu próprio, parado perante aquela existência pesada, sinto o coração revirar-se. Tudo começa a flutuar na consciência de que nada, nem mesmo aquele barco pintado, tem uma razão para me balancear. . João P. Saragoça

O humor não tem preço

A nova VISÃO

Os jornalistas da Visão planeiam um negócio "prudente e realista" para os próximos dez anos. A estratégia foca-se na viabilidade económica, evitando riscos financeiros desnecessários. 


Menina carrega irmã em busca de auxilio

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes. 

Gaza prisão a céu aberto 


China tem o maior porto do mundo

https://youtu.be/qdlEqd30MYM?si=LIlQS5xZDiNbnjxX

Mimicat de volta


Natália Coreia 


esta é a madrugada que eu esperava

"Queixa das Almas Jovens Censuradas"

Escrito antes do 25 de Abril, este texto tornou-se um hino à resistência intelectual e uma crítica feroz ao abafamento cultural e emocional imposto pela ditadura.


Queixa das Almas Jovens Censuradas

"Dêem-nos um cravo e um copo de vinho que o resto o resto é nada. Dêem-nos um leito e o sol no caminho que a vida a vida é estrada.

Dêem-nos o fogo e a sede de o arder que o corpo o corpo é chama. Dêem-nos o mar e a sede de o beber que a alma a alma ama.

Dêem-nos o pão e o riso de o comer que o povo o povo é bicho. Dêem-nos a voz e a sede de a dizer que a glória a glória é lixo.

Dêem-nos o beijo e a sede de o gastar que o tempo o tempo é mudo. Dêem-nos a luz e a sede de a olhar que o sonho o sonho é tudo."


Natália Correia, com a sua voz telúrica e frontal, escreveu um dos poemas mais icónicos sobre a essência do 25 de Abril. Intitulado "A Madrugada", este texto não é apenas uma celebração, mas um aviso sobre a necessidade de manter a liberdade viva e desperta.


A Madrugada

"Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo.

Esta é a madrugada que eu esperava Onde os muros ruiu e a voz não foi calada Onde a alegria se fez pão e estrada E a justiça no rosto se gravava.

Mas não basta o dia ser de luz É preciso que a mão que o conduz Não se canse de erguer a claridade Pois a liberdade é um corpo que se seduz Ou se perde na própria vaidade."

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O instinto e a vontade

Este poema é uma celebração do instinto e da vontade, contrapondo-se à moralidade cinzenta do regime de Salazar. Natália usa a repetição do verbo "dar" como um imperativo de quem exige o direito à existência plena — ao amor, à voz, ao vinho e ao sonho.

Curiosamente, a primeira estrofe menciona o "cravo", que anos mais tarde se tornaria o símbolo da Revolução, embora o poema tenha sido escrito muito antes de 1974. Foi também musicado por José Afonso (Zeca Afonso), tornando-se uma peça fundamental da cultura de intervenção em Portugal.

O poema reflete o estilo inconfundível de Natália: a exaltação da liberdade como um estado de pureza ("inteiro e limpo"), mas também o seu pragmatismo político. Ela usa a metáfora da "madrugada" para simbolizar o fim das trevas do Estado Novo e o início de uma nova consciência coletiva. A última estrofe é particularmente atual, servindo de alerta para o facto de a democracia não ser um estado permanente, mas uma conquista que exige vigilância e esforço constantes.

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